Outros Belo Monte’s

Na região da bacia do Tapajós — entre os estados do Pará e Mato Grosso -estão sendo planejadas a construção de 29 Usinas Hidrelétricas e de outras 80 barragens de pequeno porte, as chamadas PCHs. Serão diretamente afetadas 820 mil pessoas que moram nessa área e os impactos causados na biodiversidade local possuem estimativas alarmantes sobre a devastação da Amazônia com desdobramentos que afetam outras regiões do Brasil e do mundo. No total a previsão é de serem construídas 150 UHE por toda Amazônia.

Foto: Mídia NINJA

Belo Monte por seus números gigantescos — 28,5 bilhões em custos totais da obra e 502 quilômetros quadrados de floresta inundada — acabou ganhando uma repercussão proporcional aos impactos que está causando e a continuidade desta política para geração de energia tem proporcionado a existência de vários outros Belo Monte’s pela Amazônia.

A diversidade cultural indígena, um dos maiores patrimônios do Brasil, continua sendo ameaçada e as UHEs tem ampliado ainda mais este problema.

Foto: Mídia NINJA

No Rio Teles Pires, que integra a bacia do Tapajós, as usinas fazem fronteira com as terras dos povos Munduruku, Apiaka, Kayabi e Rikabaktsa. A Midia NINJA esteve presente em um encontro realizado na aldeia Teles Pires, dos mundurukus, na divisa dos estados do Pará com Mato Grosso e conheceu de perto o drama sofrido por milhares de famílias que vivem na região.

“Nós não autorizamos a construção das hidrelétricas e nossos direitos mais uma vez estão sendo violados, porque nem a consulta prévia foi feita com a gente até hoje”, ressaltou Valdenir Munduruku no encontro ao lembrar danConvenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que garante o direito das populações indígenas serem previamente consultadas antes de qualquer intervenção que afetem seus territórios.

Foto: Mídia NINJA

200 indígenas de 12 aldeias localizadas na bacia do Tapajós estiveram reunidas por 4 dias para unir forças diante dos problemas gerados pelas usinas. Grande parte das construções de UHEs previstas na área — 29 no total — ainda estão no estágio inicial das obras, mas a qualidade de vida das comunidades já está muito inferior.

Relatos sobre a diminuição dos peixes, o aumento de doenças nas aldeias causadas pela má qualidade da água e o desaparecimento de terras indígenas por conta da inundação das barragens preocupam as lideranças indígenas.

A ‘Cachoeira das 7 Quedas’ e o ‘Morro dos Macacos’, locais sagrados há milhares de anos para os indígenas hoje não existem mais por conta da devastação causada pelas UHE.

USINA DE DEVASTAÇÃO

Uma das usinas que está com a construção a pleno vapor na bacia do Tapajós é a UHE São Manoel. Ela fica na fronteira da terra indígena Kayabi, Munduruku e Apiaka, no município de Paranaíta, Mato Grosso.

São Manoel é um exemplo claro de como os impactos dessas usinas tem prejudicado a região. As aldeias Kayabi ficam há menos de 20 minutos, indo de barco, do canteiro de obras da usina.

Estivemos junto com Taravy, liderança indígena do povo Kayabi, no canteiro de obras da usina, que fica há menos de 20 minutos, indo de barco, da aldeia dele.

Quando passamos cerca de 500 metros da última placa da Funai que indica a demarcação das terras indígenas avistamos o canteiro. Encostamos a voadeira na beira e subimos a ladeira até o canteiro de obras. No topo o que se via era de tirar o fôlego. Onde antes passava um rio volumoso, hoje é um grande buraco cheio de lama e com dezenas de maquinas trabalhando.

A cena forte era presenciada pela primeira vez por Taravy que estava inconformado com a devastação. “O desequilibrio ambiental causado pela usina vai prejudicar muito mais gente. Estamos do lado da nossa aldeia, mas os impactos serão sentidos por todos”.

ALIANÇA TELES PIRES

Uma semana depois da Mobilização Nacional Indígena e pós dia do Índio, Mundurukus, Apiacas, Kayabis e Rikabaktsas estiveram juntos na aldeia Teles Pires, localizada na cidade de Jacareacanga, sul do Pará, para realizarem atividades de formação política e estratégias de enfrentamento aos impactos causados pelas barragens e grandes empreendimentos na região do Tapajós.

Foto: Mídia NINJA

A ação faz parte de um esforço coletivo em conectar as centenas de comunidades (indígenas e não indígenas) que estão sendo afetadas pelas hidrelétricas do Tapajós, chamado Fórum Teles Pires.

“Queremos que o Governo cumpra com seu dever de demarcar e homologar nossos territórios, de garantir políticas públicas de saúde e educação de qualidade, levando em conta a nossa realidade. Que apoie nossos planos para cuidar de nossos territórios. Enfim, que se comprometa em respeitar nossos direitos e o que é necessário para garantir nossa sobrevivência de verdade, com autonomia e autodeterminação sobre os nosso presente e futuro”.

Durante o encontro os indígenas trabalharam a construção de estratégias para tirar da invisibilidade os problemas que estão acontecendo na região e trabalhando diálogo com o Ministério Público Federal para garantir os direitos das comunidades e da preservação do meio ambiente.

Foto: Mídia NINJA

“Queremos que o Governo esteja ciente que a Usina de São Manoel está a poucos metros de nossas aldeias, sem nos consultar, e que não vai matar peixe e estragar a água do rio, como já aconteceu com a barragem de Teles Pires, mas pode morrer gente também. E isso é genocídio. É genocídio porque o governo se omite em respeitar os direitos dos povos indígenas, como de realizar a consulta livre, prévia e informada, de dialogar ou obter consentimento dos povos indígenas, de acordo com o estabelecido na Convenção 169, da OIT.”

Confira carta na integra aqui

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