Quem tem medo da ‘Cracolândia’?

População de rua vive sob a constante sombra da repressão e do higienismo na cidade de São Paulo

Operação Sufoco, em 2012, também conhecida como Operação Dor e Sofrimento. Foto: Mídia NINJA
— Pessoal, não desce por aí. Ali é o fluxo, eles não entendem que é uma manifestação. Toma cuidado pra não cair no lugar errado.

No último sábado, 13, um grupo de cinco pessoas se refugiava na rua Barão de Limeira, no centro de São Paulo, fugindo das bombas da Tropa de Choque, que tentava dispersar a multidão de jovens da Marcha Antifascista. Quando chegamos à esquina com a Helvetia, mesmo longe já era possível enxergar o fluxo da Cracolândia.

Ao meu lado, surgiu um rapaz de dreads e camisa laranja. Perguntei se ele ia em direção à Praça Júlio Prestes, onde estava marcada uma vigília do coletivo A Craco Resiste, a fim de velar a região para coibir uma anunciada ação policial. Ele disse que sim. Nesse momento, dezenas de viaturas da Tropa de Choque, da ROTA e da Polícia Militar começaram a fechar a Av. Rio Branco, nas redondezas da Cracolândia.

Quando descemos, havia no mínimo 50 viaturas fechando a esquina da Alameda Glete, paralela à Helvetia, onde fica o fluxo. “Eles vão entrar. É assim que fazem quando vão começar”. O clima estava tenso. Os moradores de rua da região começavam a pegar seus pertences e caminhar pelas ruas. Quando atravessamos a Rio Branco e entramos na Helvetia, um senhor veio em nossa direção dizendo que eles não tinham nada a ver com a confusão, que a PM não podia fazer aquilo.

Outro, um jovem negro, entrou no caminho oferecendo uma ponta de um baseado. “Fuma esse aqui que é do bom”, disse oferecendo para o homem de dreads. Ele recusou, fez um cumprimento, e prosseguiu. Conhecido, ao menos outros dois acenaram para ele. “Chama o Escobar. Tem criança e idoso aqui, eles não podem chegar atirando em todo mundo desse jeito. Tem que haver diálogo”, disse um deles.

Nesse momento, vi o mesmo jovem que ofereceu o baseado passando à minha volta. Ele abriu o bolso menor da mochila, em que havia um caderno de anotações, um crachá do trabalho e um fone destroçado. Vendo a falta de algo de valor, fechou, e alertou “Mano, a sua mochila está aberta”. Eu agradeci. Ele me ofereceu o tal baseado. Agradeci novamente, mas não peguei.

A conversa do meu amigo terminou. Pegamos a próxima esquina da Dino Bueno, em que dezenas de pessoas estavam escoradas nas paredes de alumínio que cercam o antigo “descampado”, área em que ficava a velha estação rodoviária da luz.

Finalmente chegamos à Júlio Prestes. Havia um grupo montando uma mesa de som com duas caixas. Avisamos do risco iminente de explodir a Craco. A expectativa de uma ação policial não era infundada. Desde a última quarta-feira, dia 8, em que a Tropa de Choque e a GCM entraram no território no modus operandi mais cruel do tiro, porrada e bomba, e, logo depois, foi anunciada uma operação que pretende “acabar” com a Cracolândia, há uma ansiedade constante.

— O pior de tudo é a pessoa, que já está em uma situação de vulnerabilidade, viver em uma constante expectativa de não saber em que momento a PM pode entrar e explodir tudo que ela tem.

Foto: Mídia NINJA

De repente, uma centena de jovens vestidos de preto, mascarados e com bandeiras vermelhas e pretas começaram a aparecer das ruas da Santa Ifigênia descendo a Duque de Caxias. Com eles, mais polícia. O clima ficou tenso. Eram os que resistiram à repressão da PM fechando a marcha antifascista. Na esquina da Júlio Prestes, dezenas de militares da ROTA e da Tropa de Choque se preparavam.

Um grupo com as camisas da Craco Resiste foi dialogar com os policiais. Argumentaram que aquela atividade já estava prevista, que eles trabalham naquele território há muitos anos e que são conhecidos por ali. Por sua vez, os militares afirmaram que os conhecem, mas que os antifascistas vinham depredando agências desde a Sé. Ficou firmado que conversariam com os manifestantes que chegaram, e se responsabilizaram pela ordem.

Reuniram-se então as lideranças de uns e dos outros. Ficou firmado o compromisso “sem ação direta”, mesmo que com alguma resistência. Daí por diante, as coisas acalmaram, a polícia foi embora, e as atividades prosseguiram como planejado.

Foto: Mídia NINJA

A vigília do coletivo Craco Resiste acontece desde janeiro. Eles se reuniram justamente para vigiar aquela região diante das promessas do prefeito João Doria (PSDB) de acabar com o programa De Braços Abertos, da antiga gestão, e implantar algo supostamente novo. Acontece que a gente sabe como funciona: eles mandam a PM bater em todo mundo, prender meia dúzia, e no fim, não resolve nada. Somente nesse ano, foram seis ações sem nenhum resultado, a não ser presos e feridos, de acordo com um relatório do coletivo.

Mesmo assim, agora eles querem mais sangue. Como o prefeito e o governador prometeram acabar com a Cracolândia até o fim do ano, estão correndo contra o tempo para não serem massacrados pela imprensa (que vem pedindo sangue). Ou seja: parece inevitável algo semelhante ao que aconteceu em 2012, com a Operação Sufoco, voltar a acontecer.

Conversei com o João Oliveira, mais conhecido como Johnny, que pertence à CONEN (Coordenação Nacional de Entidades Negras) e com Milton Barbosa, o Miltão, do Movimento Negro Unificado, sobre como a questão da Cracolândia está inserida no contexto do genocídio da população negra, e como a violência policial naquele território se expressa nas políticas de Guerra às Drogas.

Para Johnny, está para além da Guerra às Drogas, ali tem uma situação de falta de políticas públicas historicamente. Os métodos usados de internação compulsória, pelo governo do estado, se mostraram ineficazes, e o uso da “porrada, tiro e bomba” é o mesmo que jogar “pedra em formigueiro”.

Outra questão, é entender que a partir de 2006 a figura do usuário deixou de existir, algo que para ele a juventude negra não tem consciência. “Se você tem um jovem branco e um negro fumando um baseado e são pegos, o que acontece? O branco no máximo vai ser internado, enquanto o negrão vai pegar seis anos de cana, é isso que acontece”. A juventude negra de 18 a 29 anos está sendo encarcerada em massa por causa disso, segundo ele.

Para Miltão, a questão está fundamentada no genocídio da população negra. Ele lembra do filme Panteras Negras. No longa, há uma mensagem dos ativistas dizendo que seria produzida uma droga para exterminar a população negra, droga essa que Milton atribui ao crack, que surgiu na década de 1980.

“Há três setores que sustentam nossa sociedade: o capital financeiro, as armas e o narcotráfico. Famílias brancas e burguesas investem no narcotráfico, essa é a verdade. E enriquecem com isso”, diz.

O genocídio vem, então, através do encarceramento em massa com a desculpa do tráfico. No entanto, o consumo de drogas é um fato incontrolável, e “também bate na bunda da burguesia” quando seus filhos se viciam e perdem tudo. “Eles pedem violência para uma satisfação pessoal”.

Foto: Mídia NINJA
— Eu sou a liberdade, eu posso voar.

“Pessoal, tem spray e papel ali, quem quiser fazer uma intervenção fica à vontade”, anunciou uma das apresentadoras. “Eu posso?”, perguntou um senhor de barba branca e cabelo preto que atravessava com seu carrinho de supermercado no momento. “Manda bala”, acenou outrem.

Pegou a tinta azul e esticou o papel. Seu nome Stirti, “que ninguém mais tem”. Sem pressa, foi traçando as linhas de um pássaro no papel. No meio da arte, perguntei de onde vinha. Disse ser a própria liberdade, por isso a ave. Perguntei qual era a sua história. Não tem, não sabe, só é a própria liberdade, repetiu, abrindo os braços e olhando para o céu, em que brilhava a lua cheia.

Terminou o desenho, pegou o carrinho com seus pertences e saiu correndo montando na traseira, como faz uma criança na saída do mercado.

Foto: Mídia NINJA

“Passa lá e fala com a Railda, que ela é muito inteligente”, me indicou o Miltão após fazer uma foto dele e do Johnny. Abordei ela falando isso. Ela sorriu tímida com o elogio do companheiro. Railda faz parte da Associação de Amigos e Familiares de Presos do Estado de São Paulo, AMPARAR. Seu filho foi preso e levado para a antiga FEBEM (hoje Fundação Casa), local que recebe jovens infratores, no ano de 1997. Desde então acompanha a vida das pessoas que estão nessa mesma situação.

Para ela, só há tráfico porque há conivência do estado, e há conivência porque há intenção de prender a juventude. “Se eu sei onde fica a biqueira, como é que o estado não sabe?”, questiona. O encarceramento encerra as possibilidades de jovens muito cedo na sociedade, pois não conseguem se reinserir, uma vez que o estado também não possui essa preocupação. Com isso, são relegados há viverem na rua e se afundam nas drogas.

“Eu sou a favor da liberação de todas a drogas”. No entanto, acredita que o estado não faz isso porque há um custo de políticas públicas com as quais o governo não quer arcar.

Estima-se que 75% dos moradores da Cracolândia são egressas do sistema penitenciário. Enquanto na prisão, Railda conta que também os familiares são punidos, e dá o exemplo da revista vexatória. “Eu não sou respeitada enquanto mulher. Eu também recebo a minha pena”, afirma. Ela chama atenção para uma questão bastante difundida de que familiares de presos são bancados pelo estado. “Isso não é verdade, é muito caro mantê-los com saúde lá, onde não recebem comida, nem kit de higiêne”.

O kit que a família compra, o chamado Jumbo, de acordo com Railda, sai em torno de 500 reais por mês. Somado a isso, há a alimentação, que é levada aos domingos, a fim de que eles possam se servir por pelo menos quatro dias dentro da prisão. Com isso, o valor chega à cerca de 700 reais mês, equivalente a 75% de um salário mínimo. A situação é pior para quem tem que se deslocar para o interior.

“São pessoas muito pobres que passam por isso. E ainda se o patrão descobrir, manda embora na hora”.

Rolaram apresentações de RAP na vigília, com apresentação do grupo da marcha antifascista Ameaça Vermelha, convidados e transeuntes. Um deles foi o Everton Oliveira, um ex-usuário de crack que, no dia do aniversário da sua esposa, foi a Cracolândia para tentar resgatá-la.

Para fechar, aconteceu uma roda de conversa. Aproveitei para conversar com o rapaz que me ajudou no início, Luis Antunes, integrante da Craco Resiste.

Há dois anos e meio ele está trabalhando na Cracolândia. Começou no coletivo Observadores Ilegais, trabalhando com ocupações no centro, momento em que conheceu o fluxo. Sentiu a necessidade de atuar ali junto àquela população. À época, a crise da água se aprofundava em São Paulo, e a região estava sem abastecimento, intensificando um problema crônico, pois para os usuários de crack é muito importante o consumo de água.

Com isso criou o Água Para Irmão de Rua, projeto que leva água para os usuários, primeiro na Praça Júlio Prestes, e depois dentro do fluxo. É um método de redução de danos, ou seja, de fazer com que, mesmo a pessoa usando drogas, reduza os danos à sua saúde.

A política de redução de danos, para Dani, deve ser adotada pelo estado na Cracolândia, e não métodos repressivos. “Prender uma pessoa por causa de uma pedra de crack pode satisfazer a população, mas está acabando com a vida de uma pessoa. Nós defendemos outra forma de tratamento, que dê lazer, cultura e mostra para ela que tem valor. É o que a Craco Resiste vem fazendo”, conta.

A Prefeitura, no entanto, age de maneira oposta. Na gestão anterior, apesar de políticas mais abertas nesse sentido, havia a retirada de pertences dos moradores de rua com a limpeza diária. Na atual, por outro lado, há semanas não há limpeza na região. Para protestar contra isso, eles realizaram o ‘CarroçAto’, manifestação em que fizeram um mutirão de limpeza na Craco e levaram o lixo para a prefeitura.

As vigílias na região têm acontecido diariamente, sob a ameaça constante de uma ação da PM na Cracolândia. Confira abaixo o vídeo do militante Escobar falando um pouco sobre a situação: