Ucrânia em Disputa

Entrevistamos o fotógrafo Maxim Dondyuk, que fala sobre as perspectivas na relação com a Rússia e mostra algumas das imagens mais fortes dos conflitos no país.


Uma revolução transformada em um golpe que se tornou, por fim, um conflito de interesses. Não existe melhor definição para o que aconteceu na Ucrânia. A disputa entre o Right Sector (ou Setor de Direita), os Eurocentristas, os Pró-Rússia e os nacionalistas tomou conta das ruas. O início de tudo, entretanto, foi uma revolta estudantil.

O NINJA e a Rede Guerrilha conversaram com um dos mais brilhantes fotógrafos ucranianos, Maxim Dondyuk. Ele nos contou como foi registrar momentos de violência entre a polícia e manifestantes em Kiev e suas expectativas sobre o futuro. Seu ensaio possui algumas das imagens mais impressionantes das ruas do século 21.

Em tempo, fica evidente na entrevista o sentimento e opinião dos que estiveram presentes lutando pela queda do presidente Yanukovich: para eles, a Rússia não é mais bem vinda.


Foto: Maxim Dondyuk

Maxim, muitas de suas fotos são na linha de frente, nas barricadas construídas pelos protestantes antes da queda do presidente Yanukovych. Levando em conta o confronto surreal entre a polícia e a oposição do governo, como foi a sua experiência trabalhando em meio a essa situação?

Foi a primeira vez que eu fotografei numa condição tão extrema. Eu até fui atingido na perna por uma granada, não pude andar por um tempo. Uma experiência ótima e importante para mim, porque queria estar nesse tipo de situação. A gente costumava ter cuidado com nossos desejos, apesar de achar que a nossa revolução foi a mais bonita do mundo. Era uma visão inacreditável, tipo filme de Hollywood. E eu tentei mostrar isso nas minhas fotos.

Como foi pra você registrar um momento tão histórico e se preocupar em continuar vivo ao mesmo tempo?

Essa foi a experiência mais importante de aprender: equilibrar esses dois aspectos rapidamente.

Foto: Maxim Dondyuk

Reprimir jornalistas durante os protestos era “moda” entre os policiais no Brasil. Foi parecido, ou pior, durante o Maidan, na Ucrânia?

Os fatos mostram que o batalhão de choque agride cruelmente jornalistas e fotógrafos. Graças a Deus eu não fui um deles. Mesmo quando eu pensava que iria morrer, dizia que era fotojornalista e eles não me tocavam. Talvez tenha tido muita sorte, talvez entre eles houvessem boas pessoas. Fotografei do lado dos manifestantes e da polícia de choque, nada aconteceu comigo.


“Eu espero que não haja uma guerra com a Rússia, todos meus pensamentos estão focados nisso.” — Maxim

Agora que Yanukovych deu um passo pra trás e o movimento se legitimou qual é a rotina em Kiev? O quanto as coisas mudaram depois disso?

Nesse momento o problema mais importante é relacionado com a Crimeia,
e enquanto não resolvermos isso a Ucrânia não terá uma vida muito boa.
É muito importante também não deixar que Yulia Timoshenko se torne presidente da Ucrânia, porque ela é exatamente o que Yanukovich foi.

Nosso país precisa de novos líderes.

Foto: Maxim Dondyuk

Ouvimos que há múltiplos grupos fascistas envolvidos nos protestos em Kiev, incluindo grupos de direita. Também ouvimos que atualmente não há policiamento na capital da Ucrânia, permitindo que os grupos armados de direita assumam a responsabilidade pela segurança do território. Isso está realmente acontecendo?

Se sim, o quão profundo é isso?

A mídia ocidental exagerou na situação da Ucrânia, que é conectada com Sector Pravy. Eu passei 3 meses com eles em Maydan e não percebi nenhuma atitude fascista vindo deles. Eles tem uma visão disciplinar bem restrita. Nosso país precisa de mudanças radicais. Mas eles não são os mesmos radicais da Criméia onde cresce o fascismo embaixo das bandeiras Russas. Lá existe anarquia e caos.

Foto: Maxim Dondyuk
Foto: Maxim Dondyuk

E a situação da Criméia? Entendemos que uma grande porção da população local está muito chateada com o que ocorre nos últimos meses. O que você pensa sobre isso?

Eu estou na Criméia agora. Infelizmente os cidadãos traíram a Ucrânia.
De forma aberta eles fazem de tudo o que podem para afugentar todos os ucranianos e mantêm a mídia ucraniana trabalhando para eles, acreditando que a Rússia vai salvá-los. Muitos Ucranianos falam que o povo de Criméia não merece lutar por eles e que é melhor uma Ucrânia sem a Criméia, mas na Europa. Há uma grande possibilidade de um conflito de Guerra. E a maioria da população quer a separação da Ucrânia. Neste momento os ucranianos estão preocupados se Putin pode tentar obter toda a Ucrânia. Devemos evitar isso.

Foto: Maxim Dondyuk
Foto: Maxim Dondyuk

Se a Rússia invadir as regiões onde a população russa é a maioria, o governo provisório Ucraniano anunciou que vai reagir com força militar, trazendo de volta um confronto semelhante com o que aconteceu durante a Guerra Fria.

Como é a rotina diária em seu país, sabendo que isso pode realmente acontecer?

Felizmente o Sul e Leste da Ucrânia perceberam finalmente qual será o fim da situação que se desenrola hoje e não querem ficar com a Rússia.
Os protestos quase pararam. É muito importante resolver o problema com a Criméia e se livrar desses militares que estão cercados por russos sem nenhum embate cruel. Tenho certeza de que o governo ucraniano não lutaria pela Criméia. Cidadãos traíram a Ucrânia e mostraram que eles querem ficar com a Criméia. Melhor deixar Criméia para a Rússia do que começar uma 3ª Guerra Mundial.

Foto: Maxim Dondyuk

Você pretende continuar fotografando nesse novo ciclo?
Quais são seus projetos atuais?

Estou na Criméia agora e não penso em novos projetos para este momento. Nós não sabemos no que a situação pode se tornar.

Quero terminar meu primeiro documentário sobre Cossacks, que eu fotografei na Crimeia um ano atrás. Foi um ótimo acidente. Alguns deles ocupam a Criméia agora. Para montagem do filme eu preciso de muito tempo, espero terminá-lo num futuro próximo.

Foto: Maxim Dondyuk

Entrevista: Rede Guerrilha em colaboração com Mídia NINJA
Tradução: Mídia NINJA
Fotos: Maxim Dondyuk