Dedicated to wherever music lives
Breve tributo e um agradecimento a Chester Bennington

Eu tinha dez anos. Estava na quinta série e naquela altura pouco tinha acesso à música atual que vinha de fora. O que chegava a mim era material dos anos 90 pra trás através de minha mãe, fiel roqueira e popzeira dos 80.
"I want to heal, i want to feel...", cantarolava um amiguinho, num pretenso e pueril inglês, perguntando se eu já tinha escutado. Não. Nunca. Era perto de dezembro, e já ouvia conversas em casa de que a partir do ano seguinte eu me mudaria da escola onde havia estudado a vida toda até então.
Estava tristonho, eu que já não era possuidor de muitos motivos para sorrir naquela época. Sofria um pesado bullying naquele lugar - físico, verbal e emocional -, era execrado por minha aparência e era extremamente retraído em consequência disso. Mesmo assim, relutava contra a ideia de ir embora. Havia crescido naquela escola. Todos os meus poucos amigos estavam lá. Os professores, eu os adorava. Era o lugar ao qual eu pertencia. Mas eu "não tinha o que querer".
Voltando àquele momento em que tive o primeiro contato com Linkin Park, bem... eu acabei ignorando e esquecendo aquilo pelo menos até fevereiro. Cheguei ao novo colégio, maior, mais tradicional, com mais recursos, um outro universo para um pré-adolescente. Minha abstração em relação àquela breve cantoria do colega teve fim quando tive minha primeira aula de inglês na nova escola.
Cara professora, mil perdões. Eu realmente esqueci seu nome, mas de você não. Dedico meu eterno carinho. Ela levava seu sonzinho boombox stereo para toda aula, e em toda aula ela tocava uma música do Linkin Park, em especial do disco Meteora, lançado no ano anterior. Tínhamos que ouvir com atenção e tentar completar os espaços em branco da letra, que ela escrevia no quadro e nos fazia escrever no caderno.
Uma das músicas me chamou a atenção em especial. Uma tal de Numb. Eu ainda não tinha dimensão do que representava a banda mundialmente. Internet ainda era um negócio bem incipiente para mim, aquela conexão discada bem complicada... Enfim. A aula terminou e eu perguntei à professora se ela me deixava levar a folha com a letra para casa. Saí contente.
Estava encantado com a banda, em especial com aquela faixa. Hoje, o Last.fm, que funciona como uma biblioteca musical e armazena estatísticas de tudo o que você ouve, possui uma ferramenta chamada "definir faixa como obsessão do momento", que dura uma semana. Claro que naquela época eu não tinha a menor noção disso, mas foi o que eu fiz. Decidi que Numb era minha música preferida dentre todas no mundo. Virou minha obsessão por bem mais que uma semana.
Eu não tinha grana para comprar os CDs e DVDs originais, mas sabia me virar. Um dia, já no ano seguinte, um colega levou um Live in Texas pirata para a escola. Pedi emprestado e, em casa, fiz uma cópia em uma fita K7, que mantenho com sincero carinho até hoje. "Que show incrível", eu me extasiava com a energia da banda ouvindo aqueles sons. Em outra oportunidade, meu pai chegou em casa com um DVD também pirata do Collision Course, em que os rapazes dividiram vocais com o rapper Jay-Z. Aquele disco nem deve funcionar mais, tão riscado que tá por tanto ter assistido.

E assim se seguiu. Fã incondicional da banda, ouvia o Hybrid Theory, o Meteora e os outros discos o máximo que dava durante o dia. Hábito, sem quebrá-lo. Vício. 2007 chegou. Um sábado frio de março, seis e pouca da manhã. Fone no ouvido, plug num discman Lenoxx fuleiro, mas que era meu companheiro para todas as horas. Liguei na Jovem Pan e... "ATENÇÃO PARA O LANÇAMENTO DO MOMENTO, A NOVA DO LINKIN PARK". Eu me tremia todinho na cama, empolgadíssimo ouvindo What I’ve Done, primeiro single do Minutes to Midnight. Penúltimo grande disco dos caras, sempre achei...
Os potentes e arrepiantes gritos de Chester Bennington, aquele rap de meu xará Mike Shinoda, os instrumentais adolescentemente agressivos... porra, eu ficava louco com qualquer coisa que a banda lançasse. E isso me ajudou a aguentar um período bem complicado da vida, quando dela eu quase desisti diversas vezes. Ajudou porque nas letras eu encontrava reflexo. Porque em Chester e em sua história eu enxergava um espelho. Eu não tava só. Foi um de meus vetores de força e jamais serei grato o suficiente.

Chester deixou este mundo nesta quinta-feira (20). Se foi um ícone da minha adolescência. Aquele cara que foi a ponte para eu conhecer um universo musical muito mais amplo. Aquela voz que tanto me foi importante. Ainda que ultimamente meus ouvidos tenham ouvido bem menos LP, expandido-se para outras bandas e outros gêneros, Chester e companhia sempre terão aquele espaço VIP guardado no meu peito.
Jamais questionarei os motivos de um suicida, quem sou eu, mas consigo imaginá-los. Chegar a esse ponto depois de aguentar por tanto tempo mostra o quão grande era seu martírio interno. Ele sofreu um inferno antes de ficar conhecido - drogas, abuso sexual -, e depois da fama, não sei bem, deve ter encarado seus demônios também. Seus filhos e uma multidão de fãs que cresceram se entorpecendo com sua música estão órfãos agora, mas desejando que ele enfim encontre sua paz.
E dá um tempo, dona Morte. Só desde 2015, você me levou embora B.B. King, Scott Weiland, Lemmy Kilmister, Leonard Cohen, George Michael, David Bowie, Chuck Berry, Chris Cornell e, agora, Chester. Tá bom, já.
