Hoje eu tive um sonho

Hoje eu tive um sonho. Sonhei que ia ao colégio onde estudei quase toda a vida, acompanhado de pessoas das quais não recordo agora.

Passava pelos corredores encantado com as paredes que não haviam mudado muito mesmo após tantos anos. Surpreso por subir as escadas e sentir um pouco de cansaço, algo que não acontecia em tempos atléticos - ou quase. Feliz por encontrar velhos rostos que sempre me foram referências pelos ensinamentos.

Deixei um recado naquele novo mural, com meu nome e o período durante o qual lá estudei - desde sua fundação até minha formatura no ensino médio, vale destacar. Desde aquele primeiro jardim de infância, já se vão 20 longos anos.

Encontrei outro mural, desta vez com as placas de formaturas que a diretora, muito amiga de meus pais, mandava encomendar. Ah, a diretora... segurou a barra de minha família quando esta se encontrava em dificuldades, não cobrando as já não tão elevadas mensalidades, minha e de meu irmão, e pagando do próprio bolso nossos lanches na cantina. Uma santa mulher a quem muito devo. Gostava muito de mim por causa das boas notas.

Lembrei da primeira paixãozinha, ainda lá no Jardim, para quem nunca me declarei. Entrei na sala de aula que conservava o aspecto de antigo quarto que costumava ser antes da velha casa se tornar uma escolinha e depois crescer. Veio à mente toda a cena: o grandalhão da turma machucando aquela que julgava ser o amor de minha vida, o que me enfureceu ao extremo, e eu sem fazer nada pois era muito retraído e porque ele media dois de mim. Pobre menino de cabelo de cuia.

Foi então que, saindo da tal sala, dei de cara com o parquinho onde tanto brinquei. A surpresa maior ficou por conta do encontro com o mesmo garotinho. Sim, eu mesmo, minha própria versão de 19 anos antes. Carrancudo como sempre, mal me olhava nos olhos, característica que levei um longo tempo para apagar de mim.

Mas, de alguma forma, ele veio se aproximando, como se puxado por um forte magnetismo. Facilitei a vida do menino rechonchudo e caminhei em sua direção. Quando estávamos a poucos centímetros de distância, ele me olhou fundo nos olhos. De repente, me deu um abraço. Eu adulto me mantinha estupefato. Ele me soltou e continuou me fitando.

Foi aí que me deu um estralo e senti o rosto esquentar. Sentei num degrau, puxei o eu criança de volta e o sentei no meu colo. Comecei a perceber lágrimas se formando em meus olhos adultos, sem entender o porquê. Notei, então, que precisava lhe dizer algo. E o fiz, com os olhos já ensopando o rosto e a voz embargada.

- Olha, você precisa entender uma coisa muito séria. Você vai passar por um momento muito ruim daqui a uns anos. Vai sofrer um bocado. Vai doer muito e você vai sentir vontade de usar de um jeito mais fácil para acabar com tudo isso quando cair a última e mais pesada gota d’água. Não vá por esse caminho. Se mantenha forte. Não se feche e permita que te ajudem. Você vai conseguir, menino, e sua vida vai dar uma grande guinada. Mas seja forte. Entendeu?

Não ouvi o "sim" em resposta, mas percebi vagamente a imagem dele balançando timidamente a cabeça pra cima e pra baixo, enquanto o sonho se esvanecia. Acordei chorando muito, com o travesseiro todo molhado, e repetindo entre soluços: "você vai conseguir, menino".