O entortador de rivais

É muito complicado escrever sobre o falecimento de um ídolo. Ainda mais quando ele envergava a armadura de uma gigantesca instituição que você ama acima de muita coisa. Alguns até acima de tudo. Eu, tal qual fizeram e disseram alguns milhões de uma mesma massa, senti. Acusei o golpe. É curioso, entretanto, não ter derramado alguma lágrima. Muito provavelmente porque Leonardo quase sempre me fez sorrir.
Não sei quantos gols, dos 134 marcados com a camisa do Sport em três passagens entre 1992 e 2004, eu comemorei e quantas vezes bendisse o nome daquele atacante baixinho e raquítico. Para a criança que eu era na segunda metade dos anos 90, pareciam ter sido muito mais do que os lendários mil de Pelé. E Leo foi meu Pelé - apesar de que, pelas características, estava mais para Garrincha. Enquanto Bosco foi a primeira identificação como ídolo por ser goleiro, Leonardo me garantia o esgoelamento apaixonado em três letras, esticadas ao máximo que a garganta aguentava para comemorar o “detalhe” máximo do futebol.
Nas brincadeiras de criança, jogando bola na pracinha ao fim da rua, eu era dois nomes certos: se atuava no gol, Bosco. Se ia para a linha, apesar da minha eterna falta de intimidade com a redonda nos pés, eu queria incorporar o camisa 7 leonino.
Tudo isso a partir de 1998, quando passei a frequentar estádios. Não lembro a razão, provavelmente alguma lesão, mas Leonardo não atuou no meu primeiro jogo na Ilha do Retiro - um frenético 2x1 em cima do Botafogo de Vágner, Túlio, Bebeto e Gonçalves, gols de Valdomiro, Jackson e Maravilha. 40 mil pessoas. Calor. Bombeiros jogando jatos de água na torcida. Um show. Apesar disso, outras poucas lembranças daquele ano, muito infante, ainda. Na volta do duelo contra a Estrela Solitária, segurando a mão de um tio, passo por dois bebuns, que alegremente comemoravam a vitória numa calçada, a ponto de derrubar os copos. "O Sport é o melhor time do Brasil, porra!". Como discordar das palavras de um ébrio e sábio senhor rubro-negro? Sempre fui ensinado a respeitar as opiniões dos mais velhos e com aquela eu me identificava completamente.
Mas o esquadrão de 2000 é o mais inesquecível para mim. Bosco, Russo, Sandro Blum, Érlon, Dutra, Leomar, Sidney, Adriano Gerlin, Nildo, Taílson e ele, Leo. Comandados por Celso Roth e posteriormente por Emerson Leão. Um time que era uma bela e potente máquina. Um infernal ataque. Os seis gols em cima do Atlético-MG em pleno Mineirão, cinco só dele. Memórias indeléveis daquela João Havelange, um campeonato que deixou um amargo gosto de “poderia ter sido mais”.
No ano seguinte, uma tragédia de time. O de 2000 fora praticamente todo desmontado e um caminhão de perronha capotou na Praça da Bandeira. Mas ele ainda esteve lá. Fez uma boa dupla com Rodrigo Gral, mantendo sua idolatria perante a nação rubro-negra. Mesmo com a lanterna na JH e o rebaixamento abraçado aos rivais do Arruda, seguimos. Leo não. Foi embora para o Cruzeiro para novamente tentar a sorte no Sudeste. Foi minha primeira tristeza com aquele atacante desavergonhado em campo - um tanto quanto tímido fora dele -. Vida que continua, afinal o Club é maior que qualquer atleta.
Mas Leo não era atleta qualquer. Foi um herói artilheiro. O responsável por muitas das grandes alegrias proporcionadas pelo Sport à sua torcida nos últimos 25 anos. O gol após o passe de Gral e a tabelinha de cabeça entre Leomar e Sidney contra o Ceará. A dancinha que fez Zé do Carmo estrilar. A caneta em Mancuso ("A E I O U, Mancuso é vira-lata, Leonardo é pitbull", provocavam as arquibancadas da Ilha contra o Santinha). Fez história contra os rivais tricolores. Inclusive sua própria vinda para Pernambuco, egresso do Picos do Piauí, após uma disputa com os corais, em 1992. Apesar de não ter conseguido acompanhar por causa da tenra idade, tem também o jovem time de 1994, que comeu a bola, batendo de frente contra esquadrões experientes, fortes e vencedores, como o 5x2 em cima do São Paulo campeão mundial. Leonardo, Juninho, Chiquinho e companhia deram um show.
Leonardo chegou a voltar em 2004, vindo de sua única passagem no exterior - no Belenenses de Portugal - para ser a solução do ataque rubro-negro, que vinha dando lacinantes dores de cabeça a Hélio dos Anjos, cujas opções eram nomes como Alecsandro, Jailson e um Valdir Papel em má fase, além da perda de Adriano Chuva. O retorno não durou mais de três meses, indo embora de novo, desta vez pro Paysandu. Aquele ano, como lembram, foi trágico para os olhos e corações leoninos.
A partir daí, o ponta driblador e corredor virou andarilho. Passou pelo Santa em 2005, contribuindo para o acesso, mas pouco jogando e marcando. A idade começou a pesar em sua velocidade, suas fintas e suas finalizações. Jogou no interior da Paraíba e do Ceará. Chegou a voltar para o clube que o revelou, o Picos. Seu último título profissional foi o estadual pelo Cametá, do Pará, em 2012. Em Pernambuco, também vestiu as camisas do Central, do Salgueiro, do Sete de Setembro e do Afogadense, onde encerrou a carreira, aos 38 anos.
Não chegou a ter uma partida festiva de despedida. Muito se discutia entre a torcida, pessoalmente ou nos fóruns da internet, sobre um jogo que contasse com a participação de monstros sagrados como Bosco, Russo, Dutra, Juninho, Chiquinho, Leomar, Nildo e Adriano. A diretoria não o organizou. Triste, pois ele se foi sem uma homenagem digna de seu tamanho real, que ia muito além de seus 1,64m de altura física.
Um cara tão enorme que fez um ídolo de dimensões semelhantes do rival de Rosa e Silva se acabar em choro, já que era sua referência em Pernambuco, além de amigo. Fica o conselho para os rivais alvirrubros. Homenageiem Kuki ainda em vida. Encham os Aflitos pra uma grande festa como todo herói de um clube merece. A vida é frágil e a morte, severa. Tanto que levou embora meu super-herói nessa cruel terça-feira de 2016. Fica a gratidão.
Obrigado por tudo, Leo.