A crise e a mão imaginária que nos puxa para cima

Rio, 05/07/17

Alto Paraíso de Goiás — GO — Brasil.

Às vezes, quando eu escrevo, é como se outra pessoa surgisse e se comunicasse comigo através de mim. Talvez seja por isso que escrevo tanto: para conseguir me comunicar com ela de forma direta e com frequência.

Esses eventos se dão especialmente quando me sinto um trapo, sem chão. Já chorei, já comi doces, já dormi e nada adiantou. Então escrevo, escrevo, escrevo desesperadamente, listando os sentimentos e pensamentos que mais me incomodam e assustam no momento. Com um pouco de sorte, depois de já ter escrito algumas páginas, as palavras que antes saíam de mim e se dirigiam para a folha de papel, resumindo minha vida, passam então a se dirigir a mim, através da folha. Eu passo a ser o sujeito e o objeto.

Eu começo a escrever usando “você”, falando comigo mesma. As palavras fluem e ao longo deste processo, vou recuperando minha confiança e calma. As palavras sempre referem-se às minhas habilidade e características positivas, aos meus sonhos, minhas paixões e interesses. O texto fica confuso, mas então meus dois objetivos ao começar a escrever são alcançados: colocar meus sentimentos para fora a fim de compreendê-los melhor e ser consolada por uma força maior que vive dentro de mim. É uma forma de terapia poderosa que sempre funcionou muito bem para mim.

Com tudo isso dito, quero me aprofundar no tema que mais tem destruído meu emocional recentemente: carreiras. Digo isso pois para mim carreira está intimamente relacionada a trabalho e dinheiro. Tenho pensado obsessivamente em como seguir minha vida agora que estou prestes a me formar na faculdade depois de pouco mais de 4 anos completos de estudo das Relações Internacionais.

É a primeira vez na minha vida (exceto, é claro, quando eu era apenas uma criança) que estou em casa sem estudar e trabalhar e isso me causa um mal-estar estranho. Nas férias do começo do ano, me sentia bem. Depois, em março, planejei uma viagem que fiz no final do mês. Retornei no final de abril sentindo-me mais forte e ainda mais certa de que viajar é uma das grandes razões da minha vida. Não apenas viajar como forma de lazer, uma vez por ano, em hotel, para cidades grandes etc. Mas viajar especialmente em busca de inspiração e conexão com a natureza, quando eu sentir que preciso fazê-lo. No entanto, voltei com pouco dinheiro. Comecei a procurar trabalhos, que por alguma motivo ainda não se manifestaram na minha vida. Talvez tenha a ver com a crise que assola o Brasil. O fato é que desde meados de junho, a obrigação de voltar a fazer dinheiro vem me engolindo pois não sei lidar bem com ela.

Árvores do cerrado na beira da estrada (para quebrar o texto com uma bela paisagem)

Desde que retornei de viagem, no final de abril, tive dois meses somente para mim e agora estou entrando no terceiro. Pude voltar a devorar livros como fazia na minha infância e início de adolescência. Também estou voltando a desenhar, coisa que eu raramente fiz ao longo da minha adolescência pois não me permitia. Estou me dedicando a criar contos. Não somente começá-los, como vinha fazendo ao longo dos anos, sem concluí-los. Mas realmente sentar e me dedicar a um conto até ele finalmente nascer. Eu até mesmo me dediquei a um projeto que planejo desde o ano passado: escrever um pequeno livro especial. Em junho eu consegui organizar praticamente o livro todo e ele está pronto. Me deixou muito orgulhosa, mas agora penso sobre o que fazer com ele, rs. Só que eu me sinto culpada por estar me dedicando a essas atividades pois é como se eu “não estivesse fazendo nada”. Como se essas atividades não pudessem me trazer dinheiro e por isso, não servem. É o que sempre ouvi, que ócio = preguiça, que não é uma coisa boa.

A grande questão é que eu, jovem criada para ser parte do sistema capitalista — neoliberal, para ser mais exata -, não fui influenciada a desenvolver meu lado criativo. A partir dos dez anos, qualquer coisa relacionada à arte foi deixada de lado a fim de me aprofundar no meu lado racional, mergulhando de vez nos estudos. Passando em concursos, tirando notas altas, estudando e não fazendo praticamente mais nada além disso. Desde então, eu lembro que comecei a viver com um monstro ao meu lado, um monstro chamado Vazio. Eu sentia seu peso em qualquer lugar que eu frequentasse. Nunca me sentia boa o suficiente para nada e nada nunca era o bastante para mim. Em 2014, o Vazio alcançou seu auge quando eu comecei a estagiar em uma multinacional. Não me identificando com o curso que eu fazia e muito menos com o trabalho que eu estava exercendo, eu me encontrava em um buraco fundo e assustador. Acho até mesmo que estava deprimida naquele ano. Não frequentava a terapia ainda, então não tenho como confirmar.

Mas como toda crise traz a oportunidade de crescimento, eu consegui tirar lições valiosas daquele ano tão difícil. A primeira foi que, apesar de estar fazendo um curso que eu não gostava e me ver “obrigada” a terminá-lo, eu não precisava trabalhar naquela área quando me formasse. A segunda e mais importante foi a constatação de que o modelo de trabalho atual não me agradava nem um pouco e que eu não tinha como me adaptar a ele sem ir contra a minha essência. Entendi então que minha “carreira” seria autônoma e freelancer, de modo a não me ver presa a trabalhos que sugavam minha energia em uma cidade que me coloca para baixo. Essas lições se enraizaram em mim de uma forma muito profunda.

Agora, com a conclusão oficial do curso há poucos meses de distância e tendo que lidar com a necessidade de dinheiro para continuar dando meus próximos passos, me deparo com um muro gigante à minha frente. Me vejo presa à obrigação de “ganhar a vida”, ainda que por pouco tempo, através de trabalhos que sugam minha energia em uma cidade que me coloca para baixo. Mal consigo conceber a ideia de como começar a trabalhar no mercado de redação freelancer. Muito menos no mundo de criação, arte e cultura no qual eu quero viver. Simplesmente porque não tenho experiência nessas áreas que me agradam, pois me dediquei por anos a coisas que me desagradavam por não enxergar nenhuma outra saída. Tudo isso me apavora e me faz querer desistir muitas vezes.

Por isso eu escrevo, para conseguir conversar com aquela parte dentro de mim que sabe das coisas, que enfrenta os medos e que segue mesmo quando a grande vontade é a de ficar parada, letárgica. Quando eu rezo eu também consigo conversar com ela, mas nesses momentos fica bem mais difícil me concentrar para uma oração. Eu consigo perceber que estou em crise, mas não sei direito o que fazer para melhorar. Estou aqui escrevendo essas palavras a fim de me conectar com essa frequência à qual me referi antes. Mas não é sempre que ela aparece. Então só o que me resta é respirar fundo e seguir, que uma hora ela surge.

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