A escrita como terapia e paixão

Rio, 20/06/17

00h04. Começou a chover agora de noite. Faz frio e tudo está quieto. O silêncio só é interrompido pelos chuviscos e pingos que ainda caem.

Há muitos anos escrevo para mim em diários, cadernos simples comprados com esse intuito. Também em cadernos velhos abandonados ou até mesmo nas últimas folhas dos cadernos da faculdade. Muitos textos foram perdidos mas uma boa parte deles eu consegui achar. Por sorte, alguns até mesmo digitados.

Reuni esses textos em uma coletânea e pude perceber os padrões. Muita angústia havia ali, não há como negar. Mas havia também escritos de anos atrás afirmando e reafirmando a minha vontade de ser artista. Essas anotações repetiam-se muitas vezes. Eu diria que ser artista é conseguir se expressar. De preferência bem, com clareza. Mas não sei a quem cabe esse julgamento. Imagino que somente a nós, cientes da ideia original.

O problema é que é como se houvesse várias mentes dentro da minha e elas conversam entre si e muitas vezes não chegam a um acordo. Nem sempre vivem em harmonia. Eu escrevo para poder dar conta, para conseguir lidar com tanta gente habitando uma só cabeça. Enquanto escrevo, é como se voltasse à minha essência de observadora, percebendo que aquelas palavras no papel ou na tela não são o que eu sou. Elas apenas precisam de um meio para deixar a sala escura que minha mente pode se tornar às vezes. Precisam da luz do mundo. E essa é a parte mais difícil, sempre foi. Mostrar o que escrevo. Eu não queria de forma alguma que alguém lesse minhas coisas, ainda não sei bem se quero. Mas pra expressar alguma coisa, alguém precisa estar do outro lado para receber, não?

Esse ano eu li dois livros que falavam sobre a importância de mostrar o seu trabalho, um da Clarissa Pinkola Estés e outro do Austin Kleon. O que a gente escreve, desenha, pinta e cria em geral pode e deve ser compartilhado. Talvez não importe a aclamação, mas sim saber que alguém se identifica com o que você escreve de coração.

Me pergunto quem se importa com o que uma jovem mulher brasileira e portanto latino-americana de classe média baixa tem a dizer. Mas não importa quem liga! Se escrevo é porque sinto necessidade e mostrar o que produzo é apenas o passo seguinte.

Não precisa ter medo. Apenas siga em frente.