3 maneiras descomplicadas de contatar os mortos que você pode fazer no conforto da sua casa.

Qual dia melhor que hoje para mexer com o inexplorado? Qual hora melhor para abrir as portas do oculto que agora?

Você passou toda sua vida ouvindo sobre fantasmas, vendo filme de espíritos, ouvindo gente falar de aparições, programa do Ratinho, Chico Xavier e aquela foto da garota num corredor com urso ao lado, que quando o jornal foi imprimir saiu toda borrada. Dê logo o salto e protagonize uma cena dessas você mesmo.

Parar lhe ajudar, listarei as maneiras mais simples de entrar em contato com o outro lado.

Jogo do Copo

Para essa você vai precisar de mais algum amigo que também tenha o dedo indicador. Se você não tem mais nenhum amigo ou caso seu único amigo não tenha o dedo indicador, você pode pular para o número 2. Como meus únicos colegas de apartamento são as próprias assombrações e exus com quem eu tentava falar, precisei convidar um primo de terceiro grau mentindo que faria risoto e jogaria Wii.

No Jogo do Copo, você precisa escrever o alfabeto numa extremidade de uma folha ou cartolina, depois números de 0 a 10 na outra. No centro, SIM e NÃO. Você também vai precisar de um chakra aberto e uma sensibilidade clarividente que absorva a energia paranormal do cômodo. Tudo em ordem? Ainda bem. Vamos lá então: perguntei “Você quer conversar agora?” e esperei. O copo começou a se mexer lentamente, uma atmosfera densa tomando conta do cômodo inteiro, uma névoa parecia cobrir meus pé. O copo, finalmente, repousou sobre esse símbolo:

E nenhuma outra resposta chegou. O Jogo do Copo é tipo um WhatsApp sobrenatural e, como no Whats mundano, a rejeição é recorrente.

Psicografar:

As instruções são básicas: esvaziar a mente e deixar o espírito guiar sua mão. Na execução, fazer a posição “Chico Xavier” não é tão fácil. Mesmo imitando a pose e cobrindo os olhos, sua mão fica presa ao mundo terreno e você acaba escrevendo apenas um trecho da letra de Hotline Bling ou desenhando todos os membros do ‘N Sync sem perspetiva.

Visitar um local assombrado:

Uns anos atrás, meu avô morreu e eu passei a semana seguinte fazendo companhia para minha vó. Eu dormia na sala, uns 30cm da poltrona onde tinha ele feito a passagem. Pelo terceiro dia, decidi simplesmente apagar a luz e sentar na poltrona, mentalizando um contato com o pós-vida.

Escolhi entrar em contato com meu vô um pouco pela saudade e luto, mas um pouco também pela segurança de saber que meu vô seria um espírito com quem eu conseguiria interagir tranquilamente, não um fantasma zombeteiro bagunçando a sala e quebrando a TV. Foi ele mesmo que pagou todas prestações da TV, ele não ia ficar de palhaçada com a TV.

Fiz uma forcinha e nada. Me concentrei, quase meditando. Nada. Tentei mais um pouco. Nada. Então desisti e fui assistir televisão. Embora abatido pelo luto, os hormônios do corpo do jovem adulto continuam bombeando para cima e para baixo e eu, ao me deparar com um canal erótico na TV a cabo da casa dos avós, inicializei você-sabe-o-que-quando-estamos-solitários.

Então uma espécie de portal se abriu na sala e o fantasma do meu vô apareceu:

— “Meu neto, eu demorei porque tava uma filO QUE É ISSO? — Eu pensei que não tinha dado certo! — Eu me atrasei CINCO minutos. — Eu tava só limpando ele! — Eu morri ANTEONTEM. Vamos esperar o corpo esfriar antes de gozar na sala toda? Vamos? Olha, nunca mais, viu”. — “Como é do outro lado, vô?” — “Tu ainda não guardou “ele”, Milton” — “ Desculpa.” — “ Nunca mais.”

Então meu vô bufou mais umas vezes e falou da vida após a morte mais ou menos do mesmo jeito que, em vida, falava sobre a viagem que fez para Cancún: a vista é “uma loucura”, as coisas são meio caras e os italianos continuam mal educados. Eu tenho sangue italiano, então não me ofendi com isso.

No fim, entrar em contato com o outro lado, mesmo quando bem sucedido, é um empreendimento perigoso e irreversível. Existem portas que não devemos abrir.

Nota: 1/2 Ratinho com crucifixo, de cinco possíveis.