365 comprimidos pra voltar a ser feliz

Faz um ano, já. Em junho de 2016, minha mãe me arrastou até o consultório de um psiquiatra e foi um dia cheio de choro e raiva. Ele me receitou uns comprimidos, me deu duas cartelas de amostras grátis e me disse que eu tomasse se e quando quisesse. Eu, maníaca por controle, passei uma semana lendo a bula, calculando as possibilidades, escolhendo o dia perfeito e a hora exata para tentar aquelas cápsulas.

Era a minha última tentativa do que eu achava que era “controlar sozinha” a minha vida.

Então comecei com os antidepressivos depois de anos lidando com a depressão, algo que todos a minha volta sabiam que não era fácil — apesar de poucos saberem tratar minha doença pelo nome. Finalmente tinha começado a tomar os remédios que, eu temia, me transformariam numa “zumbi alegre”, mas me fariam deixar de sentir a vontade diária de não sentir mais nada.

A primeira coisa que mudou, depois que os efeitos colaterais passaram, foi conseguir separar a depressão do que eu sou. Após iniciar o tratamento, eu tive momentos de pensar com clareza e nada nunca foi tão prazeroso quanto isso. Nenhuma zumbificação. A partir daí, comecei a reconhecer a névoa mentirosa da doença e a entender como ela embaralhava sentimentos, pensamentos e reações. Ela sempre esteve ali, aguardando, mas a combati por muitos meses (felizes). Voltei a estudar, conhecer gente, sair. Descobri quem eu era quando e Dedê, minha depressão de estimação, não me manipulava.

Mas, né, não é uma história de “felizes para sempre”. Apesar de ter passado muito bem, tive momentos ruins. As crises de ansiedade, de diárias, passaram a ser mensais, mas existiam. Meus dias de depressão eram dias, não meses. Quis deixar de existir com menor frequência, mas quis. Em um ponto, quase seis meses depois de começar os remédios, senti que a depressão começava a se arrastar de novo, trazendo a amiga Ansy, a ansiedade, pela mão. Eu começava e abandonava acompanhamentos psicológicos conforme convinha e encarava pressões no trabalho e na faculdade, mas achava que ia passar. Até que um dia, em fevereiro, tive uma crise enorme. A maior em anos. Andei pela rua sem saber aonde ia e acabei pedindo demissão a minha chefe direta via Facebook, enquanto chorava — urrava — largada num banco da praça de alimentação de um shopping, minutos antes de um encontro com um rapaz. Acho que ninguém ficou muito feliz com o desfecho disso.

Por aqueles dias, não entendi o que acontecia. Oras, eu estava me medicando direitinho, comendo bem, até engordei… O que bexiga tinha me dado? Levou um tempo (e muitas consultas com a nova psicóloga, uma que ria abertamente das minhas piadas ruins) até que descobrisse que depressão e ansiedade são doenças, sim, mas se ligam diretamente a quem sou. Elas nascem e se enrolam em cada pedacinho do que somos, feito mato intrusivo. A gente tem que capinar com frequência — e com as próprias mãos — pra aprender a identificar direito o que deve ou não deixar no jardim. O tratamento da depressão é um pacote completo: o remédio te dá a oportunidade de voltar a pensar claramente, mas você vai ter que fazer um esforço pra decidir o que faz mal ou não.

E aqui estou, contando um ano de psicotrópicos e de CONTROLE. Eu finalmente entendo o que é controlar a minha vida, não da forma que achava que fazia (tentando estar sempre um passo a frente de todo mundo, num eterno jogo de xadrez megalomaníaco). Trezentos e sessenta e cinco comprimidos depois, aprendi que o processo principal é tentar uma conexão profunda com quem sou, entendendo os meus limites e observando-os com atenção enquanto se movem. Sou eu quem faz a maior parte nesse tratamento. Eu e minha vontade de continuar a ser quem sou todos os dias.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated C.’s story.