nós

o relógio fazia aquela dança engraçada, girando para todos os lados e nunca estacionando na hora certa. no meio da confusão que era seu corpo cansado e uma mente pedindo aconchego, apenas o coração não queria descanso e se atirava contra o peito, fazendo escândalo, ensurdecendo.

ele queria as ruas escuras, o vento frio, o metal na pele e o barulho da buzina.

queria a silhueta distante, o piso gelado, o tranco da chave e os passos mudos.

o coração não diminuiu o ritmo e o batuque continuou. mal deu para ouvir os pneus do carro esmagando as pedras, a porta se fechando, o boa-noite simpático. em vez disso, os dedos sentiram o cheiro do pescoço, a língua vislumbrou o céu escuro da boca e o sangue reagiu à quentura da pele.

aconteceu exatamente assim. ou não. a ordem já não importa mais.

não importava quando a porta fechou, não importou quando a cama rangeu, não importará quando o cheiro sair dos lençóis.

o que houve com certeza foram as pernas, todas as quatro, espalhadas por toda parte. se alguém pudesse observar de fora, pensariam que estavam os dois na cama, mas seria terrível engano. estavam, todas as quatro pernas, por todos os lados. abraçadas. intercaladas. misturadas. elas pulsavam.

os braços também não tinham lugar exato e explicação científica alguma os convenceria de que estavam apenas enlaçados. os braços haviam decidido viver como um só. as veias nos pulsos de um eram o mapa para a pele da outra. as mãos se tornaram montanhas e os pelos, riachos.

os dedos, vivos, eram os maiores exploradores do novo mundo que nascia sobre aquele colchão. só eles reconheciam o que um dia fora lábios, pescoço, peito, quadris. eles conheciam o áspero, o calo, o duro. eles visitavam o suave, o íntimo, o úmido. os dedos sabiam de coisas que mais ninguém, naquele emaranhado, naquele amontoado, jamais daria conta.

um sussurro no pescoço, um arrepio. a total consciência de cada partícula do próprio corpo, que estava grudado contra o outro.

o estremecimento.

o beijo molhado na nuca, um nariz vagando entre os cabelos.

Adormeceu.

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