Como começa essa história

Ideias criativas para as aulas de redação

Selma Vital

Tenho um amigo escritor obcecado com a primeira frase dos livros de ficção. É algo que ele observa com uma atenção quase científica. Sua favorita, não por acaso, é a maravilhosa abertura de Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez. Você se lembra?

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aurélio Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou para conhecer o gelo

Não é para menos, tanta coisa dita e sugerida apenas numa frase…Quando iniciam uma história, os escritores nos lançam uma pequena isca, ou melhor, um convite sutil que nos leva à próxima frase, à página seguinte, até que nos tenham cativos dentro do seu pequeno universo. García Marquez era mestre nessa arte.

Claro que nem sempre acontece assim, mas além de convite à leitura, nós, como professores, podemos usar essa ideia, essa sugestão do que há por vir, como um exercício para incentivar nossos alunos à escrita.

Muitas vezes, o tema da redação tem grande influência na qualidade do texto que seus alunos vão produzir. Pense que ao sugerir um tema interessante, que também lhe dê mais prazer de ler, pode tornar a atividade melhor e mais produtiva pra todos os envolvidos. Até porque o ENEM e os vestibulares mais concorridos geralmente apresentam temas relativamente complexos.

Então aqui vão ideias de atividades, inspiradas nas aberturas de romances ou contos, para a próxima redação de seus alunos:

Na biblioteca…

Pexels/CCO License

Para quem tem uma biblioteca decente em sua escola (isto é, com uma oferta razoável de títulos e um espaço adequado, ou minimamente convidativo) esta atividade funciona também como uma forma de levar os alunos para trabalhar em um ambiente diferente da sala de aula convencional.

Idealmente, reserve um período para seu grupo. Lá, cada aluno teria alguns minutos (cerca de 15 ou 20) para explorar o acervo e escolher um só livro.

Como desenvolver a atividade:

  1. Livro de ficção nacional e/ou traduzida (biografias e livros técnicos forgem um pouco ao espítiro da atividade).
  2. O ano de publicação do livro pode ser aberto ou, se preferir, caso esteja trabalhando em literatura ou história com um período específico, pode-se também delimitar as datas.
  3. Cada aluno deve escolher uma frase de abertura que tenha gostado ou que lhe tenha chamado a atenção.

Em seguida, depois de copiar essa frase, deve dar a referência, ou seja, nome do(a) autor(a), título do livro, ano e local em que foi publicado, incluindo o nome da Editora, número da página em que aparece.

Nessa versão da atividade, cada aluno deve escrever uma redação de um número de páginas que você designar dando a melhor sequência para aquela abertura.

Variações da mesma atividade

Na sala de aula:

No caso de sua escola não contar com biblioteca ou caso tenha uma não suficientemente equipada para a atividade, pode-se pedir para que cada aluno traga pelo menos um livro atendendo os mesmos critérios acima (você pode levar alguns seus também!). Agora, todos os livros podem ficar empilhados sobre a sua mesa e os alunos podem selecionar uma abertura. Todo o resto da atividade pode ser praticamente o mesmo.

Em grupos:

Uma outra forma de desenvolver a dinâmica, é fazer com que a seleção seja feita em grupo. Isso quer dizer que seja na biblioteca seja na sala de aula, pequenos grupos de 4 ou 5 alunos escolheriam juntos uma abertura sobre a qual todo o grupo teria de escrever. Esse modelo é divertido porque ao final todos do grupo podem ler também a versão dos colegas. Ou cada um pode ler sua versão em voz alta para os demais. É sempre surpreendente ver como as histórias tomam rumos diferentes, a partir do mesmo princípio ou ideia disparadora.

Toda a classe:

Nesta versão, sobretudo para classes grandes, pode-se iniciar com a seleção feita em grupos. Um representante de cada grupo deve escrever sua abertura no quadro e a classe pode votar ou chegar ao consenso sobre qual abertura preferem escrever. Ao final, todos terão a mesma tarefa e depois de concluídas as redações, você pode convidar alguns alunos a lerem suas versões. Neste caso, o mais produtivo é que você selecione para a apresentação as redações que chegaram a conclusões mais diversas umas das outras e as mais interessantes também.

Informações complementares importantes:

  • É preciso estabelecer regras para que os alunos componham o texto?

Isso depende do seu currículo e da forma como você normalmente conduz as atividades de escrita. Eu pessoalmente sempre adotei algumas regras tais como a necessidade de que o texto tenha um título, um ponto claro e que, obviamente, tenha sentido. Dependendo do que você julga mais importante avaliar naquele momento, essas regras podem ser aumentadas ou modificadas. É recomendável que os alunos escrevam textos livres da história original, ou seja, que criem suas próprias sequências independentemente do que o autor fez.

  • Como avaliar essas redações?

Novamente, isso vai depender do que se pretende obter com a redação. Alguns critérios que sempre usei, com pequenas variações: clareza, qualidade do texto em termos gramaticais (grafia, construção adequada das frases, uso correto dos tempos verbais…), criatividade, apresentação. Note que a avaliação, o nível maior ou menor de exigência, deve como em qualquer outra atividade levar em conta o nível do curso e a experiência dos alunos com a escrita.

Lembre-se que além de prática da escrita, em si, esta atividade é excelente como motivadora de leitura. O simples fato de encorajar a manipulação de livros, o contato com histórias e seus autores, é um bônus considerável que não deve ser subestimado.

Este texto foi publicado pela primeira vez no blog da Claraboia Educação Criativa, Colaborativa e Humana. Visite e saiba mais claraboiacursos.com

Edição comemorativa (2017) da Editora Record dos 50 anos de publicação do clássico de García Marquez,com tradução de Eric Nepomuceno.
Selma Vital

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Sou jornalista, professora e no caminho de ser empreendedora. Conheça meu mais novo projeto https://claraboiacursos.com/

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