De tragédias anunciadas que sufocam a leveza de viver

Selma Vital
Pexel/CC0License

Todo mundo sabe da imperfeição das coisas… A alça do sutiã que sempre escorrega, o sapato mais bonito que pega no calcanhar, celular descarregado, ônibus atrasado... O que a gente talvez não perceba é que esses pequenos impasses parecem a anos luz de distância quando um grande mal oprime o peito.

Alguns fatos colocam tudo em perspectiva. Disso sabe quem recebeu um diagnóstico de uma doença fatal, quem perdeu um ente querido sem aviso, quem teve de ir às últimas consequências para sobreviver. Com o perdão dos clichés sempre à espreita, é nessas horas que pentear o cabelo , ter a casa arrumadinha, as toalhas bem dobradas, o colarinho alinhado caem milhares de posições na lista de coisas importantes.

Do ponto de vista político-social, regimes como o nazista e o fascista, ditaduras opressoras e sangrentas, equivalem a este peso que fazem nossas agruras cotidianas no mínimo risíveis.

Desde que o Brasil entrou no noticiário mundial como a bola da vez de um governo fascista, sério candidato a voltar a ser uma ditadura militar, ando um pouco nessa pegada. Tenho dificuldade de entrar em conversas engraçadinhas no Facebook e sofro com baixa concentração.

Mesmo meu projeto profissional, no qual invisto meu tempo com uma paixão que há tempos não me movia, foi deixado meio de lado.

Meu filho diz que eu não ouço mais os comentários que ele faz sobre música e sobre futebol. O marido se aflige com minhas insônias corriqueiras. Nem tive espírito para lamentar a derrota do meu Timão do coração.

E isso, antes mesmo da catástrofe se confirmar. E isso, mesmo vivendo bem longe da pátria amada, salve, salve, onde a barbárie já deixa seu rastro.

Os governos opressores, alardeados e facilitados por seus seguidores ferrenhos, além de roubar o futuro e o presente de tanta gente, — especialmente dos pobres, dos vulneráveis, das minorias, dos artistas — tem essa característica sinistra: eles nos roubam o direito de nos ocuparmos sem culpa das nossas minúsculas mazelas.

Parece que tudo fica frívolo quando você sabe que numa rua qualquer do país alguém pode ser assassinado por defender seus ideais, ser agredido por ter um comportamento fora de algum padrão, ser atropelado por usar um boné do MST ou ter a barriga marcada a faca por ter determinada camiseta.

Aos que insistem que política é bobagem, que político é tudo igual (mas que votam exatamente em alguém que nega os princípios democráticos) e que nunca se colocam no lugar de quem sofre , imagino que a vida seja mais leve e tenha poucas alterações. Na cabeça dessas pessoas, política não faz parte da vida delas.

Nesse sentido, já ouvi muito conselho para ser mais leve, cuidar da minha família, relaxar, afinal, 'você nem mora no Brasil'. Faz tempo que não respondo mais. Agora que já me permito ser uma senhora com momentos explícitos de ranhetice, nem perco tempo dando de ombros. Agradeço os cuidados e sigo.

Sigo pensando, teimosa, nos cidadãos de Ruanda que se deixaram levar pelo ódio e mataram a machetadas seus amigos, cônjuges, desconhecidos. Lembro da guerra da Bósnia em que motivado por discursos de divisão étnica e religiosa um vizinho amável estuprou a vizinha diante dos filhos dela. De iranianos que denunciavam mulheres cujos véus não lhes cobrissem inteiramente o cabelo, enquanto caminhando no passeio público.

E antes que você deixe escapar um sorrisinho cínico, achando tudo exagero, tente primeiro conhecer os fatos ligados a estas tragédias que lhe parecem tão distantes. Antes de cada uma delas, incluindo o nazismo, pouca gente julgava que o pior realmente chegaria.

Você pode dizer que para uma tragédia dessas proporções se concretizar, em uma nação, precisa do apoio de poderosos. Verdade. Todo o nosso retrocesso atesta isso. Sempre esteve apoiado e lado a lado com o financiamento e os interesses maiores, sejam do Estados Unidos sejam das empresas nacionais e estrangeiras sem escrúpulos que ganham com a miséria e a desigualdade.

Mas nenhuma catástrofe política se deu sem a cumplicidade dos apáticos, dos que silenciaram, dos que por se sentirem fora de perigo jamais pensaram naqueles que estavam na linha de fogo.

Quando ao invés de se juntar aos que querem o direito de ser quem são e usarem a roupa, o adesivo, a cor que quiserem você aconselha que simplesmente os evitem, você já aceitou que no Brasil de hoje um grupo de pessoas pode atacar, ferir, humilhar e até matar por motivos aleatórios. E se o suporte institucional hoje, visto que em mais de um caso a Polícia se mostrou conivente ou insensível, já é assustador, imagine quando os fascistas chegarem de fato ao poder.

Como li agora a pouco, entre todas as prévias que demonstravam que já trilhávamos por um caminho perigoso, nada foi mais sintomático do que um deputado homenagear em pleno Congresso Nacional um torturador abominável e não ser sequer advertido.

Eu que não sou de rezar, se rezasse hoje pediria tão e somente para que tenhamos força o bastante para romper a hipocrisia alimentada pela ignorância, pela falsa moral de costumes e por uma mídia sem compromisso com o povo a que serve.

Mas também Deus, assim como a bandeira e os nossos símbolos, tem sido apropriado. Como refém de um sistema escuso. Como a entidade manipulável em nome da qual, mais uma vez na história, se escondem o horror e o ódio.

Selma Vital

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Sou jornalista, professora e no caminho de ser empreendedora. Conheça meu mais novo projeto https://claraboiacursos.com/

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