À tua imagem e semelhança

Oosterpark , monumento dedicado ao fim da escravidão, Amsterdã. Arquivo pessoal

Ontem foi um dia triste, dentre tantos dias tristes que temos tido no Brasil. Talvez essa tristeza se veja em mim exacerbada pelo inverno dinamarquês, com o qual às vezes convivo às turras. O que sei por certo é que a morte de Marisa Letícia, esposa de Lula, ex-primeira dama, acentuou o sentimento de derrota, de desânimo, de falta de fé na humanidade. Sentimento aliás que tem sido recorrente no último ano, mas que, eu supunha, dificilmente seria mais intenso. Pois foi bem intenso ver o ódio, o descaso, a ausência de qualquer empatia e senso de respeito à vida e à morte de outros em vários episódios ocorridos nesses dias.

Trocando e-mails com amigos queridos que vivem tudo isso in loco, no Brasil, um deles, muito sabiamente, me diz que o acontecido é o que se espera. Diz ele: não são os políticos profissionais que são ruins é a nossa sociedade. É a nossa classe média e alta ou quase média e quase alta, que exibe agora mais do que nunca seu egoísmo, seu rancor, sua falta de decência, sua face mais abjeta, sem disfarces.

Admito que mesmo muito consciente da existência desse grupo de pessoas e das que cegamente as seguem, nas redes sociais da vida, nas manchetes das revistas mais asquerosas, nos canais de TV que dominam a sala de visitas há anos, mesmo sabendo de tudo isso, eu nunca tinha visto a questão desta forma. Por isso, sou grata a meu amigo. Graças a ele, vejo que os monstros que vimos regurgitando ódio em rede nacional na votação pelo impeachment, pastores mercantilistas, ruralistas assassinos, coronéis urbanos, capitães do mato, togados sem escrúpulo e seus iguais são um reflexo do país. São maus porque refletem uma sociedade má.

É a nossa classe média e alta ou quase média e quase alta, que exibe agora mais do que nunca seu egoísmo, seu rancor, sua falta de decência, sua face mais abjeta, sem disfarces.

Isso me fez lembrar, nesse momento em que tanta gente que se declara cristã enquanto simultaneamente propaga o ódio, de minha própria visão religiosa. Em meu agnosticismo, entendo que não somos feitos à imagem e semelhança de Deus. Muito ao contrário: creio que Deus seja feito à nossa imagem e semelhança.

Entendo que nosso ‘eu’ espiritual se junta em comunhão numa dimensão superior para criar um Deus/Deusa. Assim não temos de nos preocupar em parecer com Deus, mas nos esforçar todo dia para termos um bom Deus, que reflita a nossa bondade, uma vez que se parece conosco. Um Deus diverso, complexo e acolhedor que tenha a cara e o gênero de todos e que vai, dependendo do nosso esforço, reunir em si nossa jornada como seres humanos.

Em meu agnosticismo, entendo que não somos feitos à imagem e semelhança de Deus. Muito ao contrário: creio que Deus seja feito à nossa imagem e semelhança

Não é responsabilidade de Deus cuidar de nós, mas é nossa tarefa ser melhores para criar uma entidade realmente divina e maravilhosa. Se não formos solidários, empáticos, íntegros estaremos criando uma força poderosa, sem dúvida, mas feia e cruel. Afinal, quem não respeita a dor do outro, quem não pode se colocar em seu lugar, menos ainda pode protegê-lo e jamais será capaz de amá-lo.

Às vezes tenho profunda pena de Deus.