Pra dizer adeus sem chorar

Ir e vir é uma delícia, chato é se despedir…

Imagem: CCO License/Fabrizio Verrecchia

Eu disse pra minha mãe (quanto tempo atrás! ) que o bom das separações era o reencontro. Agora lembro, foi um ano depois de ter saído do Brasil, minha primeira volta. Ela foi nos buscar no aeroporto e comentou que era tão gostoso poder finalmente me abraçar.

De lá pra cá fui me treinando em despedidas, o que não quer dizer de maneira nenhuma que aprendi a gostar delas. Quem sofre de dor crônica talvez possa compreender a analogia. Não é que a gente se acostume à dor, simplesmente aprendemos a duras penas a administrá-la. São pequenas, quase imperceptíveis estratégias. Ainda dói, só que dá na gente um sentimento de ter algum controle, de não estar totalmente abandonada à própria sorte, ou à própria dor.

Não desiste da leitura, não. Prometo não falar de dor. Pelo menos não hoje. Porque ando com uma vontade danada de teorizar sobre a dor, mais como forma de exorcizar a minha, de tentar fazer uma limonada doce com esse limão todo. Dizem que a escrita tem desses poderes e com poucos efeitos colaterais.

Mas hoje eu quero falar é de despedida. E pra não ficar muito triste pus de fundo as canções da Tulipa Ruiz, que eu recomendo.

Meu filho diz que é possível, sim, escrever com música ao fundo e eu quero tentar. Nem que seja pra provar a ele que estou atenta ao que ele me ensina e que nada me encanta mais do que aprender com ele.

Você já deve ter percebido que eu estou enrolando pra caramba até entrar no assunto. O fato é que estou me preparando pra mais uma despedida e depois de tantas ao longo da vida confesso que ando meio cansada.

Levo no currículo um número considerável de despedidas. Hoje em dia não aceito mais família e amigos no aeroporto. Quem me dá carona até lá tem de se contentar em nos deixar no desembarque com abraço apressado, depois de parar o carro e descarregar as malas. Festas de despedida também são altamente perigosas. Caí em algumas no passado, admito…

Tenho, em geral, um certo orgulho de escapar com maestria das situações mais piegas, embora umas vezes já tenha tomado uns tombos dignos de telenovela mexicana.

Uma vez, isso tem aí no mínimo uns 15 anos, depois de ter passado 11 meses no Brasil, era hora de voltar. Fui fazer as unhas, acho. Só faço unha no Brasil. Então, na hora de dizer adeus pra moçada do salão de beleza ensaiei um discursinho básico e quando vi já estava chorando em bicas e cabeleireiras, manicures, senhoras de bobs me olhando sem compreender patavina. Saí em disparada e borrei as unhas.

Minha explicação pra o deslize é que eu estava desarmada. Não tinha nenhuma ligação mais profunda com ninguém do salão de beleza, então a armadura estava meio que pendurada no meu cabide emocional; baixei a guarda, senhoras e senhores… Como canta a Tulipa Ruiz, “Era pra ser só nuvem e precipitou”…

Da outra vez o lance foi meio que ‘crônica de uma choradeira anunciada’. Sem querer, preparei o cenário perfeito para uma despedida bem dolorida e haja pranto! Imagine a cena: eu e meu único filho nos despedindo do meu marido numa estação de trem. Nós íamos ficar nos Estados Unidos, e ele viria pra cá, Dinamarca, por um semestre inteiro. Detalhe: ficávamos numa cidade com nenhuma família e pouquíssimos amigos e ele partia pra um lugar sem nenhuma família e nenhum amigo. Daí rolou aquele abraço de família pequena e uma vontade de nunca desabraçar. Foi hard core total e absoluto. Estação de trem, gente, é pior que aeroporto. Estejam avisados! Acho que é imagem de filme demais na cabeça.

Hasta la vista, baby!

O clássico adeus de Casablanca, em avião particular, e com toda essa neblina ao fundo, tem glamour e tristeza. Então para fins de não chorar, fique longe dessa opção…

Em alguns meses, partiremos pra uma nova aventura em mais um país. E mesmo evitando os climas, os triggering points mais manjados, tem me batido uma certa deprê. De um lado tem meu espírito aventureiro, viajante e curioso que chega a essa idade ainda saltitante. De outro tem esse ‘bode cavalar’ (que me perdoem os linguistas do mundo inteiro por essa metáfora animalesca e monstruosa!) de despedida, esse desconforto de mais uma vez ter de sair de cena, mandar meu descontraído hasta la vista, baby para os poucos amigos que temos aqui.

Sinto também a nostalgia antecipada ao me despedir desse céu, que mesmo nos dias tristes e chuvosos é tão generoso que o olho nunca cansa de enxergar.

Assim como ‘ensinei’ minha mãe no aeroporto conturbado, tanto tempo atrás, digo hoje ao meu menino que as despedidas nos fazem valorizar as pessoas que ficam; quando partimos levamos um tanto do que vimos e vivemos e, mais importante, levamos um tanto do que compartilhamos com as pessoas que conhecemos e nos relacionamos. E se deixamos algo de bom pra elas, a despedida fica mais levinha, macia feito cetim.

Nostalgia de céu…. Sabe o que é isso?

Por isso é legal que a gente, do nosso lado, invista em criar laços, mesmo sabendo que logo vai lançar voo. Parece loucura, né? Mas juro que não é.

Nas despedidas de amor e de amizade, seja quem parte seja quem fica, cada um pode guardar as memórias que quiser, e elas vão ser pra sempre suas, sem medo de excesso de bagagem, de turbulência, de alfândega, de fuso horário.

Se mesmo assim você ainda chorar, não vai botar a culpa em mim…