No More Heroes e a arte de não se levar a sério

Logo após apertar o botão Start, Travis Touchdown sai de seu quarto de motel, desce a escadaria assobiando o tema principal de No More Heroes e entra em sua moto, portando apenas uma personalidade descolada e repugnante, além de seu sabre de luz que comprou no eBay. Talvez nenhum outro jogo resuma tão bem sua totalidade em questão de segundos como No More Heroes faz: mostrar que a única coisa a ser esperada dele é talvez não esperar nada. Mais ainda: logo após a punchline inicial, somos introduzidos à “história” do jogo. Mais claro que isso, impossível.

Fato é que escrevi história entre aspas no parágrafo anterior para realçar o que No More Heroes se trata: de um jogo com certa trama, mas sem nenhum tipo de pretexto ou compromisso, sem algo que faça nexo ou que preze pelo bom senso. Resumindo o essencial, Travis está completamente zerado depois de pagar bebidas para Sylvia, uma garota que conheceu há pouco em um bar. Sua solução foi aceitar uma oferta da própria — faturar na vida como assassino profissional de assassinos profissionais devidamente ranqueados. Genial. O tom do jogo mostra as caras na primeira frase que sai da boca suja de Travis:

“Eu sei que muitos jogadores não tem tanta paciência.”

Pronto. É a desculpa perfeita para que No More Heroes, ao caçoar do intelecto do jogador, proponha nada além de um conceito batido, ambientes esquecíveis, história ridícula que desmorona frente aos seus olhos e jogabilidade questionável em certos momentos. Algo que encontramos aos montes por aí, mas que nesse caso significa mais sobre passar uma mensagem do que se pode retirar de bom naquilo que é exagerado e ruim, mesmo que forçado. Por mais que a mensagem se resuma em “não leve tudo a sério”.

Mesmo assim, o jogo me fez enxergar outro ponto de vista além de sua declarada falta de compromisso.

Suda 51, o Quentin Tarantino dos games™ como é chamado às vezes, não recebeu esse título à toa. Ele é o tipo de artista que entende sobre as possibilidades da mídia em que trabalha lhe proporciona e costuma usá-la de maneira bem característica dos demais. Seus jogos, cheios de piadas que parecem feitas para o prazer próprio, tem aquela identidade única e apresentam ideias que poderiam até ser executadas num cinema, mas que fazem um pouco mais de sentido, ou pelo menos tentam, em um videogame.

No More Heroes não é muito diferente da receita pronta de Suda com sua ambientação berrante, brega, violenta, exagerada e que foge à expectativa padrão, principalmente quando ele preza e muito por suas ideias bizarras (e às vezes machistas, fica o alerta), sempre cunhadas como “coisa de japonês”. O ponto é que a arte de Suda claramente não é o tipo de conteúdo agraciado por todo mundo, mas que no meio de muito humor pastelão com piadas escatológicas e momentos que beiram o conceito do ridículo e sexista — visão claramente japonesa e que infelizmente parece ainda continuar forte por lá, alguma mensagem está esperando ser extraída, nem que seja algo simples ou que contrarie as suas expectativas. No caso de NMH, trata-se também de um statement da cultura pop/nerd, que de lá pra cá evoluiu, mas não amadureceu tanto assim em comportamento, ao que me parece.

Pra recarregar a energia do sabre você precisa literalmente “punhetar” o controle.

O jogo foi publicado inicialmente em 2007 para o Nintendo Wii e depois recebeu versões no Playstation 3 e Xbox 360 com pequenas melhorias e extras, além da adaptação para um controle tradicional. Pude experimentar as duas versões e acredito que o No More Heroes faz mais sentido por inteiro no Wii, o que explica a fama do jogo já que o console carece bastante de títulos do tradicional gênero de “andar e bater”, repaginados como os hack n’ slash de hoje em dia — o único que recordo além dele é o grotesco e igualmente divertido MadWorld, enquanto o PS3 e o X360 apresentam diversos jogos no mesmo estilo com mecânicas refinadas que são de maior agrado do público em geral. Além disso, as texturas mais simples e desbotadas da versão do Wii combinam mais com o estilo que o Suda 51 criou inicialmente em contrapartida com as versões de PS3 e X360.

A métrica de No More Heroes é propositadamente simples e repetitiva, desde o gameplay até as musicas, em sua maioria, variações do tema principal. Como Travis, sua rotina é andar pela cidade, arrumar trabalho fazendo missões de assassinato e mini-games de qualidade duvidosa, conseguir dinheiro o suficiente para quitar a dívida do contrato e acertar as contas com o próximo assassino do top 10. Por último, dar aquela ida caprichada no banheiro para salvar o seu progresso. O procedimento acontece do início ao fim do jogo, com certas ressalvas: às vezes é preciso derrotar vários inimigos (que não possuem relação alguma com o seu alvo real) antes de chegar ao chefe; outras vezes você chega no chefe em minutos; em outras nem enfrentá-lo é necessário; em certo momento você deixa de controlar Travis para entrar em um jogo de nave.

No More Heroes não faz questão alguma de querer se explicar em uma narrativa completamente despretensiosa da “história”, onde o principal motivo de Travis é a promessa de fazer sexo com a garota que encontrou no bar, caso alcance o topo – algo que se subverte no final em um dos clichés mais batidos da história, subvertido minutos depois por outro cliché tão batido quanto. Os personagens, cientes do ridículo, chegam a caçoar do próprio roteiro. É com esse ritmo compassado e ao mesmo tempo imprevisível que o jogo virtualmente urra não se importar com nada, aponta o dedo na sua cara e ri de suas expectativas e do que você pensa sobre ele. Tudo obra dele mesmo, o Quentin Tarantino dos games™.

Os inimigos derrotados explodem em um banho de sangue e moedas, igual em Scott Pilgrim (tirando o sangue).

No geral, NMH remete aos clássicos dos 16-bits que não vão muito além de um motivo básico para que o jogo tome forma e contexto, porém com a implementação de mecânicas recentes, como um mundo aberto para ser explorado, coletáveis, upgrades e controles de movimento, o que para a época ainda era novidade, principalmente no Nintendo Wii. Os personagens são marcantes mais pelo seu visual do que tem a oferecer de personalidade e no enredo. Travis, a mistura do nerd com um tradicional babaca americano, inclusive influenciado em sua aparência pelo Johnny Knoxville do Jackass, não possui carisma algum além de seu estilo.

Foi após esboçar um sorriso depois do final completamente desprovido de sentido e começar a jogá-lo de novo em seguida que eu parei para processar algumas coisas: Travis, de certo modo, é o retrato super estereótipo do nerd consumidor ferrenho da cultura pop. Seu pequeno quarto de motel é lotado exclusivamente por action figures de personagens de anime, as mesmas que estampam sua camiseta e um dos pôsteres de sua parede, que fazem alusão a filmes como Star Wars; até mesmo uma almofada com estampa de personagem de anime ele tem. Céus, eu já disse que Travis comprou um sabre de luz pelo eBay?

No MOE Heroes

Presenciamos através de Travis a “épica saga” de um nerd que gasta todo seu dinheiro com estatuetas, se apaixona por uma garota que o desdenha e encontra nela o principal desafio de provar sua “masculinidade” para impressioná-la. Como prova disso, vai à academia e inclusive aluga fitas de “Como agradar sua mulher na cama 101 — Parte 2”. Em seus pormenores, o pretexto do jogo soa tão parecido quanto Scott Pilgrim, que assim como NMH, é um pastiche da cultura Pop.

O exagero de No More Heroes, apesar de ser super estereotipado, não é tão intangível da realidade quanto deveria. É ridículo, desconfortável e certas vezes sexista no jogo porque também se encontra assim na realidade. Quase 10 anos depois de seu lançamento, NMH ainda serve como um exemplo prático do quão exagerado e desnecessário é levar esse tipo de cultura a sério e ser cúmplice de tais exageros. Do quão ridículo é sentir-se ofendido e incomodado com gostos, opiniões, preferências, raças e gêneros dos outros, quando todos podem ter o espaço de consumir aquilo que realmente curtem. Internet serious business.

Se o próximo 007 for negro ao invés de branco ou se o Deadpool é realmente gay, você não deveria estar se importando com isso tanto quanto deveria, pois o mais provável é que isso não mudará o que a obra realmente significa. O contexto como um todo é o mais importante, seja em No More Heroes, seja em qualquer outra obra. A cultura pop/nerd cresceu e atinge mais pessoas hoje em dia, o que permite algumas franquias optarem pela diversidade, pois enxergam nela uma forma de representação e adaptação de seu público, seja na criação de obras novas ou já estabelecidas. Aos que se sentem “proprietários” daquilo que consomem, certamente a opinião dos outros não será diminuída em detrimento da sua.

Tem gosto pra tudo mesmo.

Em um dos momentos-chave de No More Heroes, uma personagem aparece no último minuto da “história” para contar o motivo real de Travis estar assassinando ondas de inimigos, sem antes chegar a conclusão que tal explicação seria muito grande e um tanto quanto violenta para o jogador. Travis sugere então acelerar a fala da personagem para solucionar o problema. Como se estivéssemos assistindo uma fita cassete correndo, a personagem explica a parte mais importante do jogo, completamente incompreensível para o jogador — ficamos apenas com as reações incrédulas de Travis. É nesse momento que você entende o grande dedo do meio que No More Heroes dá para si mesmo e o quanto você deveria fazer o mesmo às vezes.

No More Heroes não é para ser levado a sério. E certamente, nem tudo na vida é. Certas coisas são feitas para ligar o “botão de foda-se”. Começando por esse texto.

PS: No More Heroes se passa em uma cidade americana. Detalhe que, assim como nos Estados Unidos, ela é cheia de pessoas de diferentes nacionalidades. Cada personagem que vende itens ou oferece missões possui um sotaque diferente, fora a Sylvia que tem um sotaque francês muito acentuado.

PS 2: Se você arrumar uma forma de diminuir a velocidade da cena em que a personagem conta sua história de maneira acelerada ao Travis, é possível ouvir tudo o que ela fala. Meio tenso por sinal. Pra quem tiver curiosidade clica aqui.