
Para Clementine
Aviso: Contém spoilers da 1º temporada de The Walking Dead — A Telltale Game Series
Olá, Clementine. Fazia quase 2 anos sem tinha notícias suas, mas quando a vi, logo pude perceber o quanto você cresceu. Crianças geralmente tem dessas coisas: em questão de meses elas espicham, já tem opiniões próprias e acham que sabem de tudo um pouco — às vezes até sabem mesmo. Com você não poderia ser diferente. Aliás, foi diferente porque a sua realidade é diferente e cobrou vezes mais do que muita gente já passou na vida. Mais que o seu “tio” Lee.
Com o Lee eu aprendi a superar aquilo que já passou. Infelizmente a maior parte das coisas que você absorveu não foi com os seus pais. Mesmo sendo difícil encarar todo esse caos sem eles, menos complicado foi ao lado de Lee. Lembro de você até mesmo ter questionado sobre o passado dele na prisão, mas em momento algum deixou de amá-lo como se fosse a sua família (e foi). Criança também tem disso, essa inocência que faz a gente sentir um pouco de vergonha de certas atitudes que tomamos, das concepções que temos de pessoas que mal conhecemos. A situação em que viveram exigiu algum relacionamento entre ambos. De qualquer forma ele teve a chance de abandoná-la. Ele não é nada seu, apenas te conheceu por um devido infortúnio. Ao invés disso, ele te ensinou a viver e a confiar mais em si própria e nem tanto assim nos outros. Ainda ensinou que mesmo nessas situações, ajudar ao próximo se torna algo ainda mais valioso. Chega a ser irônico.

Mas tem horas que coisas ruins acontecem. E como você presenciou coisas ruins: viu crianças de sua idade morrerem, conhecidos serem devorados vivos por infectados, mortos por fatalidades e até mesmo por outras pessoas. Ora, Clementine, você perdeu justamente quem mais te ensinou a viver no meio de todas essas adversidades. Claramente não foi fácil, ainda mais porque não importando a forma como Lee agia com os outros para te defender, o destino dele era o mesmo. Suas escolhas infelizmente não o salvaram no final. Tudo parecia premeditado, como se fosse um jogo de vídeo game.
Foi assim que você continuou a viver com a ajuda de outros e eu não tive mais notícias suas. Até que um dia eu te vi novamente e notei aos poucos que havia crescido, amadurecido.
De repente você se viu sozinha e teve de lidar com os perigos de estar perdida. Além de muita responsabilidade, a sorte te presenteou por diversas vezes: foi resgatada e conheceu pessoas que aprenderam a gostar de você justamente por demostrar ser tão madura quanto os adultos que os cercavam. Você não foi apenas “mais uma criança para se tomar conta” – soube fazer a diferença, a dizer o que queria e como agir quando as coisas pareciam não fazer mais sentido. Isto com apenas 11 anos.
Não tenho muito a dizer sobre as pessoas que encontrou depois de perder Lee, confesso. Diferente dele, você não era muito de conversar com os outros, até porque raras foram às vezes que seu tempo era livre. Tudo aconteceu de repente e sua jornada foi rápida demais, direto ao ponto, o que me fez simpatizar com a sua causa, mas não compreender muito sobre os seus companheiros. Todos eles pareciam carregar em si algum objetivo concreto, mas a sua falta de intimidade com os mesmos tornavam suas histórias vagas ou secas demais para mim. Algumas pessoas tinham nervos bastantes alterados, sendo estranhamente agradáveis em alguns momentos e completamente rudes em outros sem motivo muito aparente. Posso estar parecendo um tanto quanto fofoqueiro e entendo que a convivência é algo difícil por conta da situação em que as coisas se encontram por aí, mas essa falta de interação me deixou confuso em relação aos meus sentimentos sobre seus companheiros e suas escolhas. E provavelmente deve ter feito você se perguntar se realmente poderia confiar em alguém.
Sobrevivência por muitas vezes é um sonho distante. Desconfiança e egoísmo são sentimentos padrões de todas as pessoas que desejam se manter vivas em um mundo à beira do colapso. Não os culpo, já que a morte parece certa a qualquer minuto. Curioso é o sentimento de iminência que reside no “amigo” próximo. O desejo de um infectado não é segredo para ninguém, enquanto um ser vivo pode ser a sua ameaça constante. As brigas entre grupos, os saqueamentos e assassinatos entre humanos não me deixam mentir, não é mesmo? Por acaso alguém já te falou sobre Thomas Hobbes? O homem é o lobo do homem, ele disse. Provavelmente você compreenda mais do que ele sobre esse assunto.

Mesmo à beira da incerteza, por vezes é seguro estar em algum grupo, levando em conta a sua idade. E em vários você esteve, até mesmo contra a sua vontade. Nessas situações é difícil ganhar a confiança alheia, mesmo sendo uma garotinha. A diferença é que os outros passaram a te enxergar cada vez menos como uma criança e mais como um membro indispensável para sobrevivência coletiva. Certas vezes, você foi mais útil e prestativa do que qualquer um ao seu redor.
Por outro lado, isso me causou certo incomodo: a dependência de sua presença era tanta que os outros não enxergavam o óbvio, aquilo que estava debaixo de seus narizes. Sua opinião tinha a maior validez do grupo — todos consideravam apenas ao que você dizia. Tudo era resolvido somente quando você estava lá. É um tanto de responsabilidade para uma pessoa só, não acha? Nessas horas você deve entender como o Lee sentia-se.
Acabei de realizar uma coisa e tenho de pedir desculpas: por diversas vezes falei que você é uma criança, uma garotinha, enquanto exaltei o peso da sua responsabilidade e maturidade diante tudo o que presenciou. Me dei conta que em seu cotidiano as relações enrijecidas entre o significado de ser um adulto e ser uma criança são tão abaladas quanto a diferença entre bom e mau. Mesmo rotulada de criança inicialmente e sendo questionada como incapaz de se defender e argumentar, você lidou de se medicar sozinha quando foi ferida, teve de cuidar de pessoas feridas, empunhando uma arma que usou com certa frequência. Inclusive pediu para tragar um cigarro e tomou um gole de uma bebida alcoólica (não pense que eu não conheço sobre essas histórias). Talvez essas suas atitudes sejam uma forma de provar um ponto, para mim e para todos, mostrando ao mundo que não estamos lidando mais com uma criança. Mas acredito que isso não te faça exatamente uma adulta. Talvez você, assim como todos os outros, são apenas humanos buscando, acima de tudo, a sobrevivência.
A última vez em que a vi foi indo embora, com objetivos e rumos diferentes do que havia previsto. Ao contrário de Lee, você teve opções – pode escolher sobreviver por conta própria ou em companhia de quem lhe inspirasse confiança. Mesmo sendo otimista, não sei se ainda te encontrarei posteriormente, pois entendo que o seu destino é um tanto quanto complicado. Mas espero que a decisão que você tenha tomado seja a certa para o seu futuro. O seu futuro… isso sim é bastante responsabilidade para lidar.
Clementine, acredito que você seja um exemplo, sabia? Atualmente, muito se debate por aqui sobre poder feminino, sobre espaço e representatividade de minorias no entretenimento, no mercado de trabalho, na sociedade. Você é mulher e negra. Esses detalhes por si só não fazem diferença alguma na forma como eu a enxergo e como você precisa lidar com a sua realidade, mas certamente faz gente por aqui se inspirar e gostar ainda mais de como são. Se pudesse olhar a internet agora, veria como elas falam de você com muito orgulho, mas entendo que isso não seja uma prioridade sua no momento. Há coisas muito mais importantes, como por exemplo, sobreviver.
Lembro de uma foto sua com os seus pais, há alguns anos atrás. Infelizmente eles não puderam vê-la novamente, mas tenha a certeza que além de mim, muita gente acompanhou a Clementine indefesa metamorfosear em uma garota amadurecida, por vezes enfrentando o mundo por conta própria. E estamos orgulhosos. Lee estaria orgulhoso.
Como você cresceu, Clementine.
