I tought the future would be cooler

Hoje em dia, existe uma profissão nova que muito teria a agregar para o nosso mundo — a do futurista. Uma mistura de antropólogo, filósofo e potencialmente viciado em ficção científica que teoricamente tenta explorar e entender sistematicamente as previsões e possibilidades sobre o futuro e como elas podem emergir no presente, seja da sociedade humana em particular ou da vida na Terra em geral.

Em geral, ‘grande parte’ dessa discussão de futuro do trabalho, máquinas e automação, inteligência artificial, realidade virtual e renda mínima universal vem sendo capitaneada e discutida por futuristas.

E uma das grandes questões que vieram na minha cabeça esses dias — junto com um convite pra um evento de futurismo que eu não posso pagar e com certeza metade das pessoas da minha idade também não — é se esse pensamento exponencial realmente resolve algum problema ou só serve pra vender livro?

Querendo ou não, uma grande verdade é que enquanto estamos discutindo criptomoedas, blockchain e carros autônomos temos ~4.4 bilhões de pessoas sem acesso a internet. Essa é uma das múltiplas sociedades que [co]existem dentro da nossa sociedade, do nosso mundo e eles têm problemas que para muitos de nós não existem mais, e nós com isso?

E pra sistematizar toda essa reflexão de futuro, passado e essencialmente o presente, gostaria de começar falando de uma música — I Tought The Future Would Be Cooler , do YACHT .

A música fala sobre violência policial desnecessária, empresas de mídia social que exploram nossas emoções, a ascensão do conteúdo sobre a arte, prazer como um fim teleológico, drones como brinquedos e armas de matar além de passar por drogas entre outras coisas, mas, antes de falar sobre isso tudo, I Tought The Future Would Be Cooler é uma música sobre o presente.

Crowdsourced cults, all lit up on LED:
Next thing you know, you’re sipping on a battery
Infinitely scroll through a SWAT team on the sidewalk
Serving death by remote control and unrestricted sidearms

1 — ‘Crowdsourced cults’ , uma referência a maneira desenfreada de como o crowdfunding tem crescido em países do ‘primeiro-mundo’ , afinal, por que todo mundo se sente tão intitulado a pegar o dinheiro da sua rede para tentar fazer mais dinheiro?

2 — ‘Infinitely scroll’ , o feed : um fluxo massivo de contéudo aleatório no qual somos esperados a participar diariamente. E esse fluxo nunca pode ser totalmente consumido.

3 — ‘Serving death by remote control’ : máquinas aéreas não identificadas distribuem a morte pelo céu, ilegalmente, em lugares onde o corpo militar dos EUA não consegue alcançar. É um horror quase impossível de conceber, e ainda assim ataques de drones são uma rotina. Tecnologias quais nos aproximam da morte são as mais perigosas de todas.

Pesquisa e desenvolvimento militar é uma parte intrínseca da nossa vida moderna, então muitas tecnologias usadas no nosso dia a dia são originadas do uso militar. Somos todos cúmplices.

I thought the future would be cooler
I thought the future would be cooler
I thought the brave world would be newer
I thought the future would be cooler

4 — Brave New World — ou Admirável Mundo Novo, do escritor Aldous Huxley conta sobre como uma ditadura se sustenta por causa de um desânimo sistêmico do pensamento crítico em conjunto com um encorajamento do hedonismo e uma superabundância de bens materiais. A intenção do livro era ser uma espécie de paródia dos romances distópicos do século 19 e não um livro profético apesar do estado atual da sociedade estar 100% de acordo com o livro.

Loving comes easy (nothing new)
But liking it ain’t free (underneath the sun)
We save our face in public (I can’t save you)
While we erase each other privately (you’re already gone)

5 — O amor é livre, mas invisível e por si só impossível de quantificar; o “like” é uma forma de capital além de ser a métrica pelo qual medimos o quanto somos amados.

6 — ‘We save our face in public’ : uma refêrencia da disfunção entre vida pública e privada. As pessoas constantemente mantém relações online que não existem na “vida real” enquanto algumas relações existem na “vida real” e são invisíveis online. A maior parte delas é um pouco das duas.

Para as intimidades experienciadas totalmente, ou parcialmente pela web, o registro cronológico (a timeline) para todos os intúitos, pode virar o próprio relacionamento itself.

Got my broken heart — 
I got it sold right back to me — 
By an algorithmic social entity!

7 — A economia das midias sociais é totalmente construida na monetização das nossas relações. Elas vendem mapas demográficos das nossas conexões para publicitários que em troca nos vendem produtos e serviços baseados no que eles conseguem inferir daquela informação. Para esse sistema funcionar, ele depende das conexões: grupos, ao invés de individúos, são a commodity sendo vendida.

Essas e todas as outras ideias contidas dentro da música podem ser lidas aqui. Porém, muito mais do que dar uma imagem do nosso estado presente, I Tought The Future Would Be Cooler é um desabafo intímo, ou até mesmo um grito sussurante daqueles que esperavam que o agora fosse muito diferente do que é hoje , talvez mais perto de Jetsons e menos próximo de 1984.

E para onde a gente vai ?

Tudo que a música retrata, sobre o estado atual da sociedade é apenas uma imagem de uma das camadas, dos muitos mundos que existem dentro do nosso.

A grande questão é que , o estado do mundo para o cidadão do primeiro mundo é muito diferente daquele do cidadão do terceiro mundo. E as questões que a gente ta refletindo aqui não importam para muita gente que divide esse planeta azul.

Eu posso, e espero estar errado quanto a minha visão de que pouco está sendo feito para aproximar todos os mundos que vivem nesse mundo do que o nosso inconsciente coletivo pensa ser o que tem que ser.

Enquanto eu vejo que estamos caminhando para dar vários step-ups em questões de tecnologias cognitivas é engraçado e curioso pensar que existem partes da nossa sociedade global ainda vivendo como vivíamos há 20 anos atrás. E sim, existem claro aquelas tribos que nunca vamos conseguir fazer serem o que estamos sendo agora, mas como tratar de disponibilizar tudo que podemos ser para quem, dentro do nosso pequeno universo, ainda não tem nem acesso a Internet.

Pensar os desafios do futuro do trabalho, mas como garantir o primeiro trabalho para quem ainda não sabe ler. Discutir o futuro dos bancos vs a disrupcão do Blockchain mas também como garantir bancarização barata, segura e fácil para pessoas excluídas tecnologicamente. A inteligência artificial vai crescer e destruir a raça humana? Como impedir que a gente se destrua antes disso. A realidade virtual vai ser a droga da sociedade do futuro? Mas e o bando de gente [‘invisível’] morrendo agora por causa de guerra as drogas?

E a renda básica universal? Do que adianta sem educação básica, econômica e aberta para todos? São tantas questões primeiro, tantas coisas para agir.

O diálogo está muito elitizado e não é sobre pessoas muito ricas, nem sobre as pessoas que pagam caro para fazerem seus cursos de futurismo e que fecham ainda mais a discussão para dar valor ao seu ativo, e principalmente também não é sobre os futuristas.

É tudo sobre a importância que damos a coisas erradas, sobre a falta de importância que damos a nossa própria cegueira e claro a idolatria que reside dentro de cada um de nós.

É, eu também achei que o futuro seria mais legal.

PSI : A música I Tought The Future Would Be Cooler é da banda YACHT , no qual um dos membros é a Claire Evans , uma das futuristas que eu mais respeito e recomendo muito uma leitura crítica do seu trabalho.

PSII : Esse texto antes de ser sobre lados da moeda, é sobre ver o todo.

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