(Fonte da imagem: Reprodução/Facebook)
Minuto Produtivo
Mar 9, 2015 · 8 min read

Em primeiro lugar uma boa noite a todos. Antes de mais nada, gostaria de dizer que resolvi antecipar para hoje meu post semanal por aqui em função do pronunciamento à nação da presidente Dilma Rousseff, o primeiro após sua posse neste ano. Como de costume (ver meus dois posts no blog oficial — aqui e aqui), irei transcrever alguns trechos do discurso e farei pausas para comentários. Segue abaixo:

Mas todos sabemos que há um longo caminho entre sentir e entender plenamente. É preciso, sempre, compartilharmos nossa visão dos fatos. Os noticiários são úteis, mas nem sempre são suficientes. Muitas vezes até nos confundem mais do que nos esclarecem. As conversas em casa, e no trabalho, também precisam ser completadas por dados que nem sempre estão ao alcance de todas e de todos.

Já começou mal. Se os mensageiros trazem informações desagradáveis, devem ser atacados. É isso mesmo, produção? Além do mais algumas informações repassadas pelos notíciários, como a dos resultados das contas públicas, dos índices de desemprego e de inflação tem como fonte órgãos pertencentes ao…Governo federal. Podemos dizer então por tabela que o governo está disposto a nos confundir ainda mais do que a nos esclarecer? Francamente…

Vamos começar pelo mais importante: o Brasil passa por um momento diferente do que vivemos nos últimos anos. Mas nem de longe está vivendo uma crise nas dimensões que dizem alguns. Passamos por problemas conjunturais, mas nossos fundamentos continuam sólidos. Muito diferente daquelas crises do passado que quebravam e paralisavam o país.

Nosso povo está protegido naquilo que é mais importante: sua capacidade de produzir, ganhar sua renda e de proteger sua família. As dificuldades que existem — e as medidas que estamos tomando para superá-las — não irão comprometer as suas conquistas. Tampouco irão fazer o Brasil parar ou comprometer nosso futuro.

Não, imagine…Temos nosso maior déficit de contas públicas desde as primeiras medições em 1997. A balança comercial possui o maior déficit desde 1980. O dólar ultrapassou os R$ 3,00, patamar alcançado pela última vez em 2004. E a inflação atingiu o maior valor desde maio de 2005, e analistas já esperam o maior índice de preços desde 2003 para o final deste ano. Ah sim, o ajuste fiscal no qual Joaquim Levy precisa fazer é o mais difícil da história do Plano Real. Tem certeza que o cenário não é tão assustador assim? Alguém realmente tem certeza que os fundamentos de nossa economia continuam sólidos?

E as dificuldades que existem, bem como as medidas que estão sendo tomadas para superá-las não irão comprometer às conquistas para a população. Já comprometeram. Não que algumas dessas medidas não fossem importantes (algumas, como o maior prazo de carência para o seguro-desemprego foram importantes e necessárias), mas o fato é que alguns direitos que a Dilma disse em campanha que não iria mexer “nem que a vaca tussa” foram mexidos. Não há contorcionismo verbal que mude os fatos.

A questão central é a seguinte: estamos na segunda etapa do combate à mais grave crise internacional desde a grande depressão de 1929. E, nesta segunda etapa, estamos tendo que usar armas diferentes e mais duras daquelas que usamos no primeiro momento.

Como o mundo mudou, o Brasil mudou e as circunstâncias mudaram, tivemos, também, de mudar a forma de enfrentar os problemas. As circunstâncias mudaram porque além de certos problemas terem se agravado — no Brasil e em grande parte do mundo -, há ainda a coincidência de estarmos enfrentando a maior seca da nossa história, no Sudeste e no Nordeste.

Oh, really? Qual foi a primeira etapa então? A da nova — e pavorosa — matriz macroeconômica (que consiste, basicamente, em juros artificialmente baixos, câmbio enfraquecido e incentivos fiscais)? A mesma matriz que entregou ao país quatro anos de crescimento pífio em relação aos colegas sulamericanos (com exceções ainda mais pífias de Argentina e Venezuela), inflação acima da meta (sim, a meta é de 4,5%. A banda de cima de 2 p.p. tem a função exclusiva de amortecer choques econômicos) e contas públicas em frangalhos? Genius! Se houvesse um incêndio na floresta e Dilma fosse bombeira, ela escolheria o que para apagar o fogo? Álcool, gasolina ou querosene?

Sim, o mundo mudou. Sim as circunstâncias mudaram. E sim, Dilma Rousseff precisou esperar QUATRO anos para perceber isso. A China, maior parceira comercial do Brasil, está em desaceleração. Os EUA se recuperaram da crise e cresce a patamares inclusive superiores ao Brasil. Mesmo alguns países europeus caminham para um cenário econômico mais alentador.

Entre muitos efeitos graves, esta seca tem trazido aumentos temporários no custo da energia e de alguns alimentos. Tudo isso, eu sei, traz reflexos na sua vida. Você tem todo direito de se irritar e de se preocupar. Mas lhe peço paciência e compreensão porque esta situação é passageira. O Brasil tem todas as condições de vencer estes problemas temporários — e esta vitória será ainda mais rápida se todos nós nos unirmos neste enfrentamento.

Só esqueceu de dizer que quanto ao setor energético o colapso iminente, tanto no sentido econômico (prejuízos às distribuidoras, que terão que ser cobertos com fortíssimos reajustes na conta de luz) como no sentido operacional (um sistema majoritariamente atendido por hidrelétricas, porém cada vez mais dependente de termelétricas, que deveriam operar apenas em casos extremos, mas atuam de forma permanente desde 2013), possui o “dedinho” dela. E sim, a situação é passageira. Só não me peça (e não peça ao povo) mais paciência, até porque esperamos um tanto demais.

Minhas amigas e meus amigos,

A crise afetou severamente grandes economias, como os Estados Unidos, a União Europeia e o Japão. Até mesmo a China, a economia mais dinâmica do planeta, reduziu seu crescimento à metade de suas médias históricas recentes. Alguns países estão conseguindo se recuperar mais cedo.

O Brasil, que foi um dos países que melhor reagiu em um primeiro momento, está agora implantando as bases para enfrentar a crise e dar um novo salto no seu desenvolvimento. Nos seis primeiros anos da crise, crescemos 19,9%, enquanto a economia dos países da Zona do Euro, caiu 1,7%.

Dilma falou muito bem: afetou. Os Estados Unidos (um dos epicentros da crise), já voltaram a crescer. A União Europeia (outro epicentro da crise) também voltou a crescer, inclusive com alguns países (como Alemanha, Reino Unido e até mesmo as falimentares Espanha e Grécia) dando sinais mais vigorosos em relação ao Brasil. Nosso país não foi o epicentro da crise (na verdade, os emergentes foram os maiores beneficiados, uma vez que os fluxos de capitais passaram a ser mais generosos para cá), portanto não fez mais que a obrigação em crescer mais que países já desenvolvidos (que por padrão crescem a taxas mais modestas) que foram os mais atingidos pela crise.

Pela primeira vez na história, o Brasil ao enfrentar uma crise econômica internacional não sofreu uma quebra financeira e cambial. O mais importante: enquanto nos outros países havia demissões em massa, nós aqui preservamos e aumentamos o emprego e o salário. Se conseguimos essas vitórias antes, temos tudo para conseguir novas vitórias outra vez. Inclusive, porque decidimos, corajosamente, mudar de método e buscar soluções mais adequadas ao atual momento. Mesmo que isso signifique alguns sacrifícios temporários para todos e críticas injustas e desmesuradas ao governo.

Na tentativa correta de defender a população, o governo absorveu, até o ano passado, todos os efeitos negativos da crise. Ou seja: usou o seu orçamento para proteger integralmente o crescimento, o emprego e a renda das pessoas. Realizamos elevadas reduções de impostos para estimular a economia e garantir empregos. Ampliamos os investimentos públicos para dinamizar setores econômicos estratégicos. Mas não havia como prever que a crise internacional duraria tanto. E, ainda por cima, seria acompanhada de uma grave crise climática. Absorvemos a carga negativa até onde podíamos e agora temos que dividir parte deste esforço com todos os setores da sociedade.

Ou melhor dizendo: ainda não sofreu, até porque a crise econômica continua, como ela mesma disse. E repetindo: é evidente que os estragos seriam menores aqui porque a crise não foi aqui, e sim lá. Não custa repetir a pergunta: essa preservação do emprego e salário no passado foi feita a custa de que para o futuro? Dilma parece não responder…

Quanto ao fato de o governo ter tentado absorver todos os efeitos negativos da crise (sim, a mesma crise que agora permite aos EUA e mesmo alguns países europeus terem um desempenho razoável nos últimos dois ou três anos) por meio de seu orçamento, não é preciso perguntar sobre quem pagará a conta desta absorção, até porque a resposta parece óbvia (ela está ao final do trecho destacado). E não é preciso lembrar que ao comparar os resultados com os de outras economias emergentes e na própria América Latina, as medidas não deram tão certo assim.

As medidas serão suportáveis porque além de sermos um governo que se preocupa com a população, temos hoje um povo mais forte do que nunca. O Brasil tem hoje mais qualificação profissional, mais infraestrutura, mais oportunidades de estudar e mais empreendedores. Somos a 7a economia do mundo. Temos 371 bilhões de dólares de reservas internacionais. 36 milhões de pessoas saíram da miséria e 44 milhões foram para a classe media. Quase dez milhões de brasileiras e brasileiros são hoje micro e pequenos empreendedores. E continuamos com os melhores níveis de emprego e salário da nossa história.

Para começo de conversa: somos hoje a sétima economia do mundo, mas já fomos a sexta (e, por pouco tempo, a quinta), ou seja, perdemos fôlego até neste ranking (que não quer dizer muita coisa, dado que a China é hoje a segunda força econômica mundial e possui indicadores de desenvolvimento humano piores em relação ao nosso). Mesmo admitindo que houve melhoras em nossa qualificação profissional e em nossa infraestrutura, nossa produtividade (relacionada ao primeiro item) continua em patamares ridículos (um sexto da americana e uma das piores da América do Sul) e nossa infraestrutura é pífia mesmo se comparada apenas aos BRICS. Quanto às reservas internacionais em dólar, não é preciso dizer que a Rússia também tinha grandes reservas internacionais (maiores que a nossa, por sinal) e nem isso foi suficiente para evitar a pior crise econômica naquele país desde 1998. E não se dá para levar a sério essa retirada de pessoas da miséria e entrada de pessoas para a classe média, quando, neste último caso, fala-se em classe média alguém que possui renda entre R$291 e R$1.019 por mês. Aliás, por esse critério, a minha bolsa de estagiário faz de mim alguém de classe média. E certamente digo que não tenho nem de longe um padrão de vida que lembre o de uma classe média (não o que imaginei).

Por último, quero anunciar um novo passo no fortalecimento da justiça, em favor de nós, mulheres brasileiras. Vou sancionar, amanhã, a Lei do Feminicídio que transforma em crime hediondo, o assassinato de mulheres decorrente de violência doméstica ou de discriminação de gênero. Com isso, este odioso crime terá penas bem mais duras. Esta medida faz parte da política de tolerância zero em relação à violência contra a mulher brasileira.

Bem, eu não podia encerrar minha fala sem comentar sobre mais uma das medidas de “dividir para reinar” de nossa presidente: sim, a morte de uma mulher é mais horrível que a morte de um homem, homossexual ou transgênero (apenas uma concessão para xs amiguinhxs que se irritam com a existência de apenas dois gêneros, ok?). E antes que alguma feminista resolva mostrar sua fúria — e suas tetas — contra mim, friso o seguinte: uma discussão de trânsito ou situação tão banal não seria igualmente estúpido para um assassinato? Isso já não seria coberto pelos agravantes do Código Penal?

Enfim, só posso concluir uma coisa de forma clara e inequívoca: existem duas palavras que definem o discurso da presidente Dilma. E estas palavras são pífio e patético.

Por Marcos Jr.

P.s.: o autor detesta usar “x” para ficar neutralizando gêneros (uma bobagem). E este se reserva ao direito de gostar mais das tetas exibidas nos protestos em países europeus do que por aqui. Deal with it.

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