Charge utilizada na campanha #SomosTodasVerônica. (Fonte da imagem: Divulgação/Vitor T./Facebook)

O “Somos Todas Verônica” é a urubologia do bem elevada ao nível gore

Para quem é leitor assíduo do Minuto Produtivo, bem como do espaço de meu blog aqui no Medium, o assunto será familiar, praticamente uma continuidade do último post, em que eu criticava a tática urubóloga de alguns formadores de opinião da esquerda em criar sensacionalismo em cima de desgraças ocorridas com pessoas pertencentes a grupos “minoritários” (coloco aspas pois o conceito de minoria para esse pessoal não necessariamente quer dizer minoria numérica, e para ser bem honesto quer dizer absolutamente qualquer coisa, inclusive nada) na sociedade, mesmo à revelia dos fatos. Tão logo eles são elucidados e esses mesmos “formadores” colocam a viola nas costas e simplesmente desaparecem, como se o caso não tivesse acontecido.

Até aí, por mais lamentável, pífia e patética que seja a prática de tais formadores de opinião, essa descrição que fiz não é nenhuma novidade. O problema agora é que eles resolveram dar uma “inovada” — ou nem tão “inovada” assim — nessa estratégia. Basicamente, se a pessoa pertencente a um grupo “minoritário” for supostamente vítima de algum ato que se enquadre como repugnante para seus defensores, esta deve ser protegida a qualquer custo, mesmo que ela tenha feito anteriormente alguma atrocidade igual — ou mesmo pior que tenha levado essa mesma pessoa à última situação. E é aí que entra o caso da travesti Verônica, que gerou todo um quiproquó nas redes sociais pelo fato de ter sido supostamente agredida após ser presa.

A comoção em torno do espancamento da travesti (sim, o caso só não passou batido pelo fato de ter sido alguém, digamos “oprimido” pela sociedade), infelizmente, ocultou uma história macabra, para se dizer o mínimo. Segue trecho da matéria do Portal R7:

Segundo Dona Laura, ela estava trabalhando no sofá de casa quando Verônica, que mora no mesmo andar, bateu à porta.
— Eu estava sentada trabalhando quando ele bateu na porta. Ele disse “você é o Satanás e vou te matar”. Depois começou a me dar socos.
Uma outra travesti que mora no mesmo andar, conhecida como Beatriz, foi quem entrou no apartamento para ajudar a idosa. Segundo o boletim de ocorrência, ela também apanhou de Verônica, assim como uma terceira vizinha, Lívia.
Laura conta que, no momento em que a Beatriz interviu na briga, as duas saíram do apartamento. A idosa então trancou a porta, mas Verônica conseguiu arrombá-la para uma nova agressão, dessa vez com mais violência.
Com uma bengala nas mãos, Verônica quebrou diversos móveis e objetos do flat. Ela ainda teria jogado uma cadeira contra Dona Laura.
— Se não fosse a Bia [travesti], eu estaria morta. Ela salvou a minha vida. Eu nunca tive problema nenhum com a Verônica, pelo contrário, todas as vezes que nos víamos pelo corredor nos cumprimentávamos. Eu nunca reclamei de barulho e nunca briguei. Ele simplesmente invadiu a minha casa e quase me matou.

Resumindo: a “travesti mártir” atacou uma idosa de mais de setenta anos de idade, e teria a matado se não tivesse interferência de outra travesti (que acabou sendo agredida neste meio-tempo). Com muita “sorte”, Dona Laura ficou com vários hematomas no corpo e teve dentes quebrados. Verônica foi presa e indiciada por vários crimes (entre eles, a evidente tentativa de homicídio contra Dona Laura). Enfim, só este caso seria motivo suficiente para se pensar duas vezes antes de sair por aí postando hashtags #SomosTodasVerônica e coisas do tipo. Mas obviamente não para por aí a saga (trecho da Folha de S. Paulo):

De acordo com a polícia, Veronica Bolina (nome social), 25, apanhou dos outros presos, com quem dividia cela, após masturbar-se no local, no domingo (12). Ela ainda mordeu e arrancou a orelha de um carcereiro que entrou sozinho na cela para ajudá-la.
Segundo o delegado titular do 2º DP, Luis Roberto Hellmeister, o carcereiro foi responsável por parte dos ferimentos no rosto de Veronica, pois precisou se defender.
Outra parte dos ferimentos teria sido causada pela briga em que Veronica se envolveu na sexta, motivo pelo qual foi presa.
“Quem lesionou a cara dele no soco foi a vítima [carcereiro] que perdeu a orelha. Não foi porque era travesti”, disse o delegado.
Hellmeister disse não saber quem fez as fotos de Veronica desfigurada, seminua, algemada e com os pés amarrados no chão do corredor externo da delegacia. Segundo o delegado, a foto foi tirada enquanto policiais a levavam ao hospital, após as agressões.

Recapitulando: Verônica quase matou uma idosa de 73 anos (esta salva por outra travesti), resolveu bater punheta na cela na frente de outros presos (que se irritaram e resolveram agredi-la por isso), atacou um carcereiro arrancando um pedaço da orelha, que precisou de se defender (e provavelmente a travesti deve também ter se machucado no confronto) e, sabe-se lá como (e por quê, na verdade até imagino o porquê) a história ganhou contornos de uma agressão gratuita contra uma presidiária que só apanhou pelo fato de ser travesti. O fato de ela ter quase assassinado uma idosa e de ter atacado violentamente um carcereiro foi completamente ignorado na narrativa, e de uma surtada que quase virou assassina, Verônica foi, de uma hora para outra, elevada à condição de “mártir” na luta contra “a sociedade conservadora, opressora, machista, sexista, tudoísta e patriarcal”, que tolera que minorias apanhem e morram (neste caso foi só o primeiro, o que não muda a narrativa nem o discurso de reação). Prova disso foi a criação de uma página no Facebook intitulada “Somos Todas Verônica”, e um post do deputado federal Jean Wyllys (ele, como sempre) em repúdio à “terrível” situação da travesti.

Não, não estou dizendo que travestis devam ser gratuitamente espancadas em lugar nenhum, mesmo que elas cometam crimes (o que é coerente com minha oposição ao discurso de justiça com as próprias mãos, que é uma consequência da falência do Estado em garantir a segurança pública e a justiça para os cidadãos comuns), e se houve arbitrariedades por parte de quem deveria zelar pela segurança e integridade física dos presos, estas devem ser punidas, e ponto. O que não dá para conceber e que se forjem uma imagem de “santa mártir” de alguém que quase assassinou uma idosa a pancadas e atacou um carcereiro arrancando a sua orelha. Não mesmo. Muito menos que haja uma defesa enfática à travesti supostamente agredida (não, não houve confirmação de que os responsáveis pela segurança da delegacia a bateram) como se a velhinha espancada (e quase morta, não custa reiterar) e o carcereiro sem orelha tivessem sido meros detalhes. Numa comparação um tanto forçada, seria como se criticassem a ação das forças de defesa norte-americanas que levaram à morte de Osama bin Laden pelo fato de ter sido sumariamente executado (e não levado a julgamento) e ignorassem completamente o fato de que ele foi o mentor de um atentado terrorista que matou quase três mil pessoas.

Sendo muito sincero, a reação em torno deste caso não merece nem ser enquadrada como “urubologia do bem”, como dito no título. Trata-se de urubologia, pura, simples e no aspecto mais gore da prática. E essa “martirização” de Verônica não é tão somente pífia e patética (antes fosse só isso), mas também beira à sociopatia. Vou mais além: se você conhece um amigo que, mesmo assim, fica de hashtag #SomosTodasVerônica, vai um conselho meu: retire essa pessoa de suas amizades. Vai que se alguém fazer alguma maldade contra você o seu amigo não resolva defender essa pessoa apenas pelo fato desse alguém ser algum ser “oprimido”…

Por Marcos Jr.

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