O charme da Sicília com todos os motivos para conhecê-la

A Sicília está à altura de todos aqueles clichés que nos veem à cabeça, alimentados por Hollywood e embalados pelas trilhas de Enio Morricone.

São 25 mil quilômetros quadrados de incrível beleza natural e grande quilometragem histórica: primeiro vieram os gregos, depois os fenícios, os árabes, os romanos, visigodos, bizantinos, normandos, franceses… até 1860, quando finalmente (ufa!) a Sicília se torna parte da Itália moderna. Cada povo sobrepôs sua cultura à anterior, camadas que juntas se sedimentaram numa paisagem única na maior ilha do Mediterrâneo. Os indícios estão na cozinha, na arquitetura e nos dialetos, que tornam o italiano da ilha virtualmente indecifrável para ouvidos estrangeiros.

A 38 graus da linha do Equador, a Sicília tem um clima ameno — mínimas de 10ºC e máximas de 30ºC — o que a torna visitável o ano inteiro. Mas é no verão que a ilha revive temporadas de invasões bárbaras, com gente vindo de tudo quanto é canto para experimentar dias de praia que acabam só às 8 da noite, tomar o famoso spremuto d’arancia (de fato o melhor suco de laranja que já tomei na vida), o aperol spritz e curtir o dolce far niente, ou far tutto, porque o que não falta por lá é coisa pra ver e fazer. Por isso, antes de mais nada, para ir à Sicilia é preciso ter tempo. Uma semana é o mínimo pra quem quer ter mais do que um cheiro e meia dúzia de fotos sensacionais pra postar.

Percorrer a ilha de carro ainda é a melhor pedida, não apenas porque a rede ferroviária siciliana é ínfima, mas porque é nos trajetos a beira-mar e fora das vias expressas que se tem uma visão mais aproximada do dia-a-dia da região. E se à primeira vista o trânsito pode parecer bastante caótico, sobretudo em certos entroncamentos dos grandes centros ou na estreiteza das ruas construídas em tempos medievais, saiba que o siciliano não traz seu sangue quente para detrás do volante: eles esperam pacientemente pelas manobras e desvios dos demais condutores, dão ré e passagem quando a rua comporta a circulação de apenas um carro, e são extremamente solícitos em dar orientações sobre as melhore rotas.

Mercado La Pescheria, à beira do Cais, tem o frescor, os aromas e os ruídos da autêntica feira frequentada por locais e turistas. Foto: Mônica Charoux

A Sicília possui duas grandes cidades nas quais se pode chegar de avião — Palermo e Catânia — a segunda também é o principal porto para a travessia de ferry entre a ilha e a parte continental da Itália. Catânia não é especialmente bela — parece mais uma grande cidade portuária com ares industriais. Mas merece pelo menos meio dia dos viajantes dispostos a conhecer seu centro antigo, cuja principal praça, a Piazza del Duomo, com a famosa Fontana dell’Elefante, fica a poucos metros do Mercado La Pescheria. Nele, além de ver a riqueza e o frescor dos produtos locais, é possível almoçar num dos restaurantes do entorno, ouvindo os gritos vigorosos dos feirantes em busca da atenção tanto dos moradores quanto dos turistas.

A verdadeira joia da coroa fica a pouco menos de 55 quilômetros ao norte dali: Taormina, cujo nome faz referência a palavra grega Tauromenium — lugar construído em cima do monte Tauro, mas também evoca a lenda do Minotauro. Poderia justamente ser classificada como a Santorini da Sicília.

Teatro Antico Taormina — Com mais de dois mil anos, o Teatro Antico de Taormina ainda hoje ganha vida com agenda de espetáculos intensa, como a apresentação da ópera Madame Butterfly. Foto: Mônica Charoux

Suas principais atrações são o Teatro Grego Antigo, ainda hoje em atividade e tendo como pano de fundo uma espetacular vista do mar, seu centro histórico pequeno e acolhedor.

Além de, claro, um litoral incrível:

Visão Geral Litoral Taormina. Foto: Mônica Charoux

Não à toa Taormina é destino turístico internacional do jet-set desde o século 17, tendo sido visitada ou habitada por intelectuais e artistas do quilate de Goethe, Tennesse Williams, Jean Cocteau e Truman Capote.

Mais cara do que a média dos demais destinos da ilha, Taormina fica congestionada com cruzeiros trazendo turistas abonados, dispostos a gastar mil Euros num par de rasteirinhas nas famosas butiques da Corso Umberto, a Rodeo Drive da cidade.

“Taormina vale quanto pesa: é cara, mas visitá-la é obrigatória. É como ir a Grécia e não conhecer Santorini”

Há espaço de sobra, no entanto, pra quem quer apenas admirar as paisagens por mar (há várias operadoras de mergulho) ou por terra, se abandonando numa espreguiçadeira (letino em italiano) pagando 10 euros por dia, com direito a guarda sol e razoável conexão de wifi. A pedida certeira é fazê-lo na pequenina Isola Bella, compreensivelmente a mais disputada faixa do mar Jônico, com águas cristalinas cujo azul é evidenciado pelo contraste com os seixos cinza-claro (não se esqueça nunca de usar chinelos ou sapatilhas de borracha para caminhar no verão, a temperatura das pedras chega às raias vulcânicas). Para chegar lá, vá de teleférico (ou funicular, como eles chamam), e curta a vista panorâmica por apenas 6 Euros ida e volta.

IsolaBella — A mais disputada das praias do litoral Iônico, Isola Bella é tão linda quando pequena, por isso, na alta temporada, é preciso ir cedo para garantir seu lugar ao sol.

Depois de curtir pelo menos uns dois dias por lá, você pode usar Taormina como base para pequenas incursões a lugares pitorescos como Savoca.

Savoca- O vilarejo de Savoca ainda hoje vive da glória de ter sido cenário das filmagens de O Poderoso Chefão, e o bar Vitelli funciona como museu informal desse período.

Trata-se de um povoado no topo de uma cadeia de montanhas, cortada por uma estradinha em ziguezague e com estonteante vista do mar. As principais atrações são o convento dos frades capuchinos e, principalmente, o Bar Vitelli, que em 1972 serviu de cenário para as filmagens de O Poderoso Chefão. Refugiado na Itália, Michael Corleone (Al Pacino) se apaixona pela filha do dono do bar, que hoje conta com um pequeno museu que documenta o impacto causado pelas filmagens no pacato vilarejo. A inconfundível trilha da trilogia, composta por Nino Rota, é transmitida pelos autofalantes da praça central — ainda que piegas, é irresistivelmente emocionante — e evidencia o quanto a história de Savoca está entrelaçada ao clássico de Francis Ford Coppola.

Outro passeio curto imperdível a partir de Taormina é Castelmola, uma comuna com ares feudais de apenas mil habitantes que fica no topo de uma montanha, com visão de 360º do entorno, e uma praça pitoresca onde se pode provar uma das redondas fininhas e crocantes da Ciccinos Pizzeria.

” Com apenas mil habitantes, Castelmola vale pela sua visão panorâmica e pelas redondas crocantes do Ciccino”

Menos glamurosa que Taormina, mas tão encantadora quanto, a ilha de Ortigia, no extremo sul da Sicília é ligada ao continente por curtas pontes rodoviárias, o que na prática a caracteriza como o centro antigo da cidade de Siracusa. Vale certamente um pernoite: durante o dia pode-se fazer um passeio de barco (15 Euros por pessoa, 1 hora de duração) pelo entorno da ilha e por grutas nas encostas do continente, com direito a parada estratégica para mergulho nos dias muito quentes. Uma boa pedida considerando-se que Ortigia não tem praia.

Complete a jornada com um almoço num dos restaurantes do mercado popular, quase à beira mar. À noite, as ruazinhas estreitas, salpicadas de lojinhas e restaurantes charmosos que conferem um colorido especial ao casario cor de palha, são invadidas pelos mais diferentes estilos musicais que ecoam das apresentações ao vivo nos bares lotados. Se estiver de carro, deixe-o num dos estacionamentos pagos, pois no fim do dia o trânsito por Ortigia fica restrito aos moradores, e as multas por estacionamento indevido são bem salgadas.

“Ortigia para todos os gostos: Passeio de barco, vida noturna gastronômica agitada misturada com a tranquilidade de uma ilha que restringe a circulação de carros em seu centro histórico.”

Praça Ortigia. Foto: Mônica Charoux

Se a Sicília litorânea é descaradamente linda, a parte interiorana não deixa por menos, ainda que exija um pouco mais de exploração para se revelar. Entre as atrações mais impressionantes certamente está a chamada Villa del Casale, uma prova arquitetônica ímpar das riquezas da era romana no século IX, preservada das subsequentes invasões sofridas pela Sicília por ter sido totalmente soterrada num deslizamento de terra no século XII. Graças ao acidente, a maior coleção de mosaicos da era romana resistiu, se convertendo num dos 49 sítios arqueológicos da Itália proclamado patrimônio da humanidade pela Unesco. Sobre a área de aproximadamente 3 mil metros quadrados da vila foi construída uma estrutura com uma grande cobertura e passarelas suspensas, que permitem o passeio sobre a planta baixa da Vila. Assim se oferece uma ótima perspectiva dos modos e costumes da época, uma vez que os mosaicos retratam com riqueza de detalhes cenas cotidianas da vida social e as grandes conquistas do império romano.
 
 Vale ressaltar o extremo preparo e profissionalismo dos guias e a estrutura de primeiro mundo. Reserve pelo menos três horas para o passeio, e termine o dia pernoitando na belíssima Piazza Armerina, cidade de tons alaranjados a poucos quilômetros de distância, fundada pelos árabes e dona de uma imponente catedral que domina a principal praça do lugar.

A 23 quilômetros de lá, Caltagirone, o centro por excelência da produção da famosa cerâmica siciliana, vale um pit stop para admirar sua emblemática escadaria revestida de azulejos coloridos, a Scala Santa Maria del Monte. Principalmente entre maio e junho, na festa em homenagem a padroeira da cidade, ela recebe um tapete de flores.

“Antes de chegar a Vila del Casalle não deixe de admirar a arquitetura de Piazza Armerina, nem a interessante escadaria de azulejos de Caltagirone, centro da produção cerâmica da Sicília”

Rumo ao norte, um pouco antes de chegar ao litoral tirreno e sua mais famosa atração — Céfalu — vale uma parada em Castelbuono, e conferir a cidadezinha nascida no sopé de um castelo, hoje transformado num museu que mistura acervo arqueológico e artístico.

Apenas 15 quilômetros separam a pacata e interiorana Castelbuono do agito alucinado de Céfalu, que entra fácil na categoria dos balneários mais saturados de atrações comerciais que se possa imaginar. São centenas de estabelecimentos grudados um no outro, margeando ruas fechadas ao trânsito, mas que ainda assim ficam completamente congestionadas de turistas, de tudo quanto é tipo — desde o combo família da avó ao netinho, até grupos de adolescentes (ou nem tanto) em busca de pura pegação. E nem pense em chegar lá em plena alta temporada sem ter uma reserva de acomodação, porque a probabilidade de ter que dar meia volta é enorme. Céfalu provavelmente foi deslumbrante umas boas décadas atrás, mas fica evidente o maltrato que a cidade sofre pela exploração indiscriminada do turismo, o que a tornaram um dos lugares menos autênticos da Sicília.

Maior cidade da Sicília, com pouco mais de 1 milhão de habitantes, Palermo, usando parâmetros paulistas de comparação, parece um misto de Bela Vista com Zona Leste e Santos. Estão lá os comércios de bairro com seus proprietários atendendo a clientela com a barriga no balcão, gente simples nas varandas dos prédios ou sentada na calçada, tomando uma brisa e vendo a vida passar, as construções barrocas, a transição muito marcada entre os bairros mais privilegiados e os mais proletários, e aquele ar marítimo bagunçado das cidades portuárias.

O legado artístico-arquitetônico impressiona pela mistura dos estilos árabe, romano, normando e barroco, e o que não falta são palácios e catedrais para visitar. Mas tudo isso é envolto por uma certa decadência urbana, uma sujeira acima da média da zona do Euro, o que pode incomodar alguns, mas paralelamente traz uma sensação de maior autenticidade, de vida como ela é.

Muitas em uma, Palermo têm o caos e a beleza de uma capital onde muitas culturas se sobrepuseram a outras, formando uma trama autêntica cheia de pequenos nós.

Um clima notívago, com restaurantes servindo a clientela até depois das 23hs, relembra a São Paulo boêmia. O mercado de rua Ballaró remete à riqueza humana e gastronômica das feiras livres, e o ainda que breve percurso de 8 quilômetros até a praia de Mondello — de um mar azul turquesa que parece photoshopado — traz à memória o suplício dos que decidem enfrentar as estradas brasileiras em feriadão. O tão desejado paraíso cobra o alto preço da absoluta falta de espaço, desde a calçada até a areia. Para fugir da muvuca e apaziguar os sentidos depois de tantos estímulos, nada melhor do que um fim de tarde em Monreale, comuna assentada sobre o Monte Caputo, 15 quilômetros ao sul da capital.

Famosa por sua catedral normanda de um dourado cintilante, o pequeno município oferece vistas de tirar o fôlego da capital siciliana, se é que até lá você já não o tenha perdido em alguma outra das inúmeras paisagens acachapantes da ilha.

Texto e fotos de Mônica Charoux — Paulistana, viciada num passaporte carimbado, jornalista e RP, atuando há mais de 15 anos no mercado publicitário. As sardas evidenciam a alta carga horária passada debaixo do sol nos quatro continentes (só falta pisar na África). Vai do programa mais urbano ao mais bucólico numa boa, o que importa é a autenticidade da experiência e da qualidade da companhia, e adora viajar sozinha. Se der pra fazer tudo isso com uma taça de vinho na mão, fica melhor ainda!


Originally published at chickenorpasta.com.br on August 31, 2016.

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