Estudantes de psicologia precisam de psicólogos.

Amaterasu

Eu sei. Sim, eu sei. O título é (um pouco) absurdo. Aliás, a intenção é justamente chamar sua atenção. Consegui? Ótimo. Agora podemos ignorar o título sensacionalista e seguir com meu texto.

Recentemente um acriano de 24 anos, estudante psicologia sumiu. O jovem está desaparecido desde a última segunda feira (27) e os familiares estão bem preocupados. Mas a cereja do bolo se deve a todo um misticismo por trás do ocorrido, afinal de contas, como se não basta-se dar no pé o distinto indivíduo deixou 14 livros escritos a mão e uma quantidade de símbolos e escritos nos cômodos e nas paredes de seu quarto. Segundo sua mãe, o quarto permaneceu fechado durante um mês e quando conseguiram entrar no recinto se depararam com uma estátua orçada em 7 mil reais de Giordano Bruno — aqui os detratores do catolicismo já começam a ovular! — e aquela “obra de arte” — hoje em dia qualquer coisa é uma obra de arte mesmo -espalhada pelo ambiente. O que mais me encabula em tudo isso é como foi possível alguém conseguir ficar um mês sem entrar em um determinado cômodo de uma casa. Como uma mãe fica 30 dias ou quatro semanas ou mais de 700 horas - enfim, como preferir — sem entrar no quarto do próprio filho?

Comovida pela situação a mãe diz que seu filho era muitíssimo inteligente. Disseram que o guri só conseguia conversar com desembargadores, intelectuais e pessoas com um conhecimento vastíssimo. Nós, meros mortais, não conseguiríamos nos comunicar com este ser iluminado, obviamente. E no fundo fico até feliz em saber disso. Já pensou que chatice só conseguir conversar com intelectuais, desembargadores e juízes? Qualquer um enlouqueceria e fugiria. Se esse pessoal for amigo da humanidade então, vixe maria! Lasca-se é tudo!

Não vou me dar ao trabalho de ficar descrevendo toda a noticia. Se quiser ler tudo isso, clique aqui.

Já leu? Ótimo. Agora podemos prosseguir.

Na realidade o meu foco não é nem o rapaz em si, mas a repercussão. Percebi que algumas pessoas que flertam com o ocultismo — esse pessoal que costuma falar de energias, karmas e essas coisas e que na terceira linha dos seus textos você já está querendo que um soco acerte sua cara — começaram vomitar as teorias malucas para explicar o fato. “Esse cara é foda!”, “Esse cara é um gênio!”. Só faltou colocarem em um pedestal.

Geralmente quando vejo esse pessoal muito alucinado fico curioso em ver como estes lidam com as coisas rotineiras da vida, se conseguem resolver coisas básicas e levar a existência de maneira razoavelmente tranquila. Até hoje nunca encontrei um que consegui-se. Tenho uma convicção cientificamente embasada no par ou ímpar — que por sinal acabei de tirar com o meu irmão e venci, por isso minha teoria se comprava - de que essa “vibe” e essas loucuras desse pessoal servem apenas para mascarar a vida de merda que levam — assim como em muitos outros casos.

Não duvido que este garoto tenha uma capacidade cognitiva avantajada. Mas ser inteligente vai muito além disso. No final das contas uma hora ele volta para a vidinha dele, a coisa se resolve e tudo segue como se nada tivesse sido tocado — o pai e a mãe bancando o rapazote, gente batendo palma para doido dançar e assim vai.

Fico imaginando se fosse minha mãe vendo algo deste tipo no meu quarto — Bom, isso jamais aconteceria por dois motivos. Primeiro que não tenho capacidade nem para escrever isso aqui direito, quanto mais fazer o que esse cara fez. Segundo, que se eu deixo uma toalha encima da minha cama já escuto um sermão de meia hora, imagine largar o quarto todo rabiscado daquele jeito. Provavelmente minha véia me buscaria nos confins do inferno e ao chegar dentro do quarto teria uma buchinha, um balde e um pano me esperando.

“Moleque, limpa isso aí agora!”

“Mas mãe, eu acabei de provar com essa teoria que na realidade tudo está interligado…”

Meu pai estaria olhando no fundo em silêncio. No menor sinal de descaso da minha parte o caldo engrossaria ainda mais, então, por fim, era melhor garantir que só minha mãe continuasse brigando comigo.

“Azar o seu. Limpa isso aqui agora porque não sou sua empregada!”

“Mas…”

“Olha, não me faz perder a paciência com você!”

E assim eu limparia tudo em silêncio para não levar uns bons tabefes no pé do ouvido.

“Eu tô criando hômi nessa casa ou um moleque?”

“Tá criando um hômi, mãe”.

“Tá vendo, fulano? — diria ao meu irmão — se você aprontar algo assim eu te meto a mão na fuça também. Isso serve de exemplo para você, rapaizinho. Não tô criando vagabundo em casa não!”.

Sei pouco da vida, quase nada. Mas uma das coisas que eu aprendi é que, no final das contas, nada melhor do que ter algumas coisas que te coloquem um limite. A responsabilidade, os problemas e as dificuldades nos mantém mentalmente sãos.

O mundo é assim mesmo. Já perdi as contas de quantos caboclos que se achavam o Steven Tyler acabaram descobrindo a duras penas que no final das contas não passavam de um Serguei. O pior é que hoje em dia se você for em um psicologo formado em alguma Federal para desabafar sobre os seus problemas, tentar resolver algo que está meio fora do eixo, periga dele te deixar mais perdido ainda.

Atualmente todo mundo é genial, ninguém mais tem culpa de nada — só a religião, o capitalismo, o fascismo(?) e o patriarcado. Esses são sempre o problema para tudo. Outro dia mesmo fui no dentista reclamar de uma dor no meu canino e ele olhou, olhou, cutucou e disse: “Um caso claro de catolicismo exacerbado com um pouco de fascismo. Leia durante uma semana as colunas da Carta Capital que fica tudo certo.”

Nunca houveram tantos gênios no mundo como agora. Cada vez mais existe uma galera que deixa de raspar os pelos do próprio corpo por motivos de #descubra, começa a ouvir umas músicas chatas para caralho, vão em protestos quinzenalmente e fazem cosplay de mendigo para lutar contra as opressões do mundo enquanto se acham na vanguarda de uma nova geração de pensadores revolucionários. Sim, esse pessoal mesmo que na tentativa de ser tão diferente acaba sendo igual a todos os outros.

Se você está se achando um gênio incompreendido pare e pense comigo. Às vezes você não é nem gênio e muito menos incompreendido. Pode ser que sua vida seja tão indiferente, você seja tão chato e igual a todo mundo que te rodeia que ninguém além de você mesmo se coloca neste patamar. O mundo está cheia de gênios. E, quando todos são gênios, ninguém mais é porcaria nenhuma. A vida segue, meu caro!

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