Das prisões mentais

Estamos todos bailando em um tango de ilusões


Você briga, xinga, discute, se desespera, clama pelo seu Deus para tudo melhorar, mais nada muda.

Levanta cedo todos os dias, trabalha até a completa exaustão, sente o gosto do amargo na boca. Olha o relógio a cada instante, esperando pelo sagrado momento de ir embora e se livrar de tudo aquilo, nem que seja por apenas algumas horas.

Sua mente até pensa em desistir, mas você se lembra da sua folga que se aproxima, do seu final de semana em que combinou beber uma cerveja com os amigos, da sua tão sonhada férias do trabalho. E isso te faz criar coragem para enfrentar todo santo dia esse enorme dragão — quase que dom quixotesco — agora transmutado em forma de rotina.

Você chega em casa cansado, desejando não ter levantado da cama. Pensa em dormir, mas as dores nas costas não deixa. Senta no sofá, assiste a novela das oito a fim de passar o tempo, come algo, suspira como se esse fosse seu último suspiro, lustra sua armadura de nobre cavaleiro, e se prepara para a batalha que virá no dia seguinte, enquanto adormece aos poucos em sua poltrona favorita. Sonolentamente esperando o sol nascer. Para amanhã começar tudo de novo outra vez.

E enquanto esperamos, esse ciclo vai se repetindo infinitamente em nossas mentes, cada vez mais e mais. Incontáveis segundos, horas e dias se dissolvendo através do tempo.

E então, sem qualquer razão ou motivo aparente, um dia você acorda em uma simples manhã e passa a enxergar tudo o que antes não conseguia ver. E percebe que já é tarde demais, e que se encontra preso dentro de um calabouço mal-assombrado que você próprio construiu. Preso a uma vida que você nunca quis, preso a companhias que você nunca desejou, preso a sentimentos e responsabilidades que você nunca pediu.

Talvez a vida passe tão rápido que nem percebemos a tempo o rumo indesejado que ela acaba tomando. E quando finalmente percebemos, descobrimos que já é tarde demais, que somos todos fracos demais, e que não podemos mais mudar os fatos, pois já nos tornamos escravos de nossas próprias ambições.

Não existe capataz pior do que se olhar no espelho e ver, refletidos em uma imagem incompleta e distorcida, nossos próprios olhos de reprovação.

É nesse momento que começamos a sentir o peso do tempo caindo sobre nossos ombros, dia após dia, enquanto apenas seguimos acreditando e rezando para alguém — se é mesmo que existe alguém nos ouvindo — nos tirar desse sufoco. Mas não importa o quanto a gente se ajoelhe e clame, tudo em nossa volta ainda continua do mesmo maldito mesmo.

Mas afinal, qual é o peso de uma decepção?

O tempo passa cada vez mais depressa. A gente perde tempo, e ganha rugas. E de repente, sem nem percebemos, nos vemos cansados do mundo.

Cansado da rotina, do trabalho, das pessoas, da falta disso ou excesso daquilo, cansado da cidade, do barulho, do stress, das regras impostas, cansado dos próprios sentimentos.

E que por mais que evitemos, haverá um pensamento que sempre circulará pelas nossas mentes. Em algum momento em nossas vidas, seja por medo ou por leve descuido, deixamos de tomar alguma atitude ou ação que agora, como um gigantesco dominó enfileirado, foi o fator chave que desencadeou tudo o que estamos vivemos agora.

Somos os únicos responsáveis por todo esse inferno que explode segundo após segundo sobre nossas cabeças.

A gente demora tempo demais pra perceber que a vida não é sobre ter fé em alguém ou algo e esperar pelo bendito dia em que nossas almas serão salvas. Não é sobre amor, muito menos ódio. Não é sobre felicidade e nem tristeza.

Como eu disse, a vida não se trata de sonhos e nem pesadelos. A vida se trata apenas de o quanto você consegue aguentar.

E nos perguntaremos então se tudo poderia ter sido diferente…