O que aprendi calando a depressão

É preciso que as pessoas saibam de uma coisa: quem tem depressão nem sempre sabe que tem; se sabe, nem sempre quer se expor; se se expõe, nem sempre faz tratamento; se faz tratamento, nenhuma melhoria imediata é garantida.

É preciso que aprendam a lidar com pessoas que têm depressão.

Durante muito tempo, eu, que sempre fui meio palhacinho e sempre adorei fazer as pessoas darem risada, fiquei sem entender o porquê de ficar tão triste, tão abatido do nada. Havia momentos em que eu estava sozinho (sempre sozinho, nunca na frente dos outros, é claro) e eu me sentia meio vazio, meio oco, sem saber direito o que estava acontecendo. Lembro de me sentir assim desde que eu tinha uns 12 anos.

Nunca falei pra ninguém que me sentia dessa forma pois nunca quis incomodar ninguém. Sempre esteve muito claro na minha cabeça que as pessoas já têm os próprios problemas com que se preocupar. Não precisaria enchê-las com frescurinhas e pequenas crises.

Depressão não é frescura. Não é uma crisezinha adolescente que passa com uma ida ao cinema ou a uma festa.

Mas quanto mais eu entendia que, sim, eu tinha depressão, mais eu queria mascarar. De alguma forma bizarra, eu acreditava que, mascarando-a, eu a faria sumir. Acreditava que poderia esconder a doença tão fundo, tão fundo, que eu mesmo deixaria de notá-la. Bem, isso funcionou com os outros. Comigo, piorava cada vez mais que eu percebia que ninguém mais percebia minha condição. E eu já não podia falar, já não podia me expor. Lembro de uma vez em que eu deveria estar com uma cara horrível, porque um menino se aproximou e perguntou “tá tudo bem?”, e eu, tentando enfiar um sorriso no rosto, “sim, sim, só uns probleminhas”. A resposta dele me machucou como se ele tivesse me dado um murro no escuro, sem eu nem saber de onde veio: “probleminhas? Mas, nossa, você é o Gabriel! Pensei que você não tivesse problemas nunca!”

Quis mandá-lo ir se foder.

Depois quis chorar porque não entendia o motivo de ter sentido raiva dele. Depois fiquei com raiva de mim por querer chorar sem motivo. Depois só fiquei quieto, entorpecido, sem sentir mais nada. Eu aprendi isso: a depressão te isola das emoções. A depressão te joga numa espiral turbilhonante de dez mil sentimentos ao mesmo tempo, e quando você se pega tentando entendê-los, você já não sente nada. Só torpor.

Então, finalmente chegam os dias em que fica impossível esconder tanto vácuo, e você decide ficar em casa; decide abandonar atividades; decide faltar no trabalho, na escola, na faculdade; decide pular aquela festa; aquele filme vai acabar passando na tv, tudo bem se não for ao cinema com os amigos; decide não ligar para os amigos, pois, afinal, é noite de sábado e ninguém nos seus 20-e-poucos quer ouvir um garoto chorão ligando às 23h pra dizer que se sente vazio e não sabe o motivo.

Os poucos amigos que notam essa mudança no seu comportamento começam a se preocupar. Mas, claro, nem todos sabem lidar com a doença. Não que sejam culpados: talvez só nunca tenham tido que lidar com a doença. Vão tentar te animar, vão te dizer para vestir uma roupa bonita e ver o mundo (o que quer que isso signifique). Vão falar que você precisa se esforçar, que não pode se deixar afundar. Vão, enfim, sem que saibam, exigir de você um esforço que você já se cobra todos os dias, e pelo qual você já se pune todos os dias por não conseguir atingir. Vão te pressionar sem querer.

E você vai se calar. Porque sabe que só querem ajudar, e que, se você disser “não é assim que funciona”, arrisca um “mal agradecido!” ou “foda-se, só tava tentando ajudar” ou ainda “ok, eu desisto”.

Por favor, não desistam. Alguém que tem depressão vive todos os dias na beiradinha da desistência de si mesmo. Não falo aqui necessariamente de suicídio, mas de entregar-se de vez, de largar-se na cama até algo acontecer, de se deixar engolir pelo monstro.

Quem tem depressão faz um esforço colossal para levantar da cama todos os dias. É muito importante que todos saibam disso, pois, se você conhece alguém que tem depressão, é vital que você reconheça esse esforço. E não só para levantar da cama, mas tarefas mínimas podem se tornar trabalhos hercúleos, cujo cumprimento deve, sempre que possível, ser valorizado.

Mas eu aprendi que nem sempre vão me dar parabéns por ter ido na padaria comprar pão; por ter sobrevivido a mais uma festa engolindo choro a noite toda; por ter ido às aulas, ao trabalho; por ter conseguido ler um livro; por arrumar o quarto, a casa.

Não que não haja dias bons, pelo contrário! Ao contrário do que novelas e filmes possivelmente mostrem, nós, que temos depressão, passamos às vezes dias inteiros dando risada, dançando, cantando, fazendo tarefas domésticas/acadêmicas/escolares, curtindo a companhia dos amigos ou da família etc. O problema é ninguém conseguir entender que, quando se tem depressão, os dias bons apenas permeiam uma longa linha de dias terríveis, cujo começo nós já nem lembramos mais e cujo fim só podemos esperar que venha breve.

Por fim, aprendi também que a depressão não age de maneira igual para todos. Foi assim que ela me atingiu, é assim que ela ainda me afunda pra dentro dela. É importante que nós não nos escondamos, é importante que façamos as pessoas perceberem que temos uma doença tão séria e tão real quanto qualquer outra. De resto, seguimos nossa luta diária contra nós mesmos, e cada pequena vitória conta.

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