Sobre o teto da dívida

OBS: Iria postar no facebook, mas ficou muito grande…

Reinaldo Azevedo (sim, é uma das minhas principais fontes de informação diária, justamente porque noticia ao mesmo tempo que opina, o que já dá margem para concordar ou discordar) ao falar do projeto do Teto de gastos e dívida pública, comparou o Brasil aos EUA e explica, por alto, porque estamos sufocados com uma dívida de 72%/PIB, enquanto os EUA estão tranquilos com uma dívida de 104%/PIB (que, na prática, é quase 5 vezes maior que a do Brasil).

Ok, talvez me alongue um pouco mais do que desejaria, mas o assunto me interessa muito, então vou explicar um pouco mais.

A diferença entre os EUA e o Brasil é o juros. Lá o juros é de 0.5%, aqui é 13.75%. Ou seja, o custo/PIB de rolagem de lá é o equivalente a uma taxa nominal de 3.5%. Então podemos simplesmente baixar a taxa de juros? NÃO IDIOTA!

O juros nominal do Brasil foi, no ano passado, de 12,64%, com inflação de 10,67%, o que dá juros real de 1.97%. Nos EUA a inflação foi de 0.7% e o juros foi de 0.5%, ou seja, taxa real de juros de -0.2%.

Os números ficaram bem menores, não?

E o que explica as pessoas comprarem títulos americanos em taxa negativa e exigirem uma taxa real alta do brasil? Seriam 3 os principais fatores: CDS,Balança comercial e a moeda. Vamos do final ao começo.

O dólar é uma moeda internacional e é usada como lastro. Isso quer dizer que tanto faz se existem 100 milhões ou 100 trilhões de dólares, um dólar continua sendo um dólar. Por outro lado, o Real é uma moeda lastreada em reservas internacionais (aka, dólar). Numa economia circular, se há 100 dólares para 100 reais, o dólar é 1 real. Se houver 1000 reais, será 10 centavos de dólar. De forma simplista, os EUA podem imprimir dinheiro e repassar aos outros países.

Se os outros países também imprimirem dinheiro, o dólar continuará se valorizando porque também tem mais dinheiro para dólar. O que quer dizer que mesmo injetando bilhões de dólares por ano, os EUA continua com uma moeda deflacionária. Isso quer dizer que ele não precisa aumentar o juros (na verdade, no momento ele precisa aumentar o juros mas não pode, porém isso fica pro final).

Por outro lado, nossa moeda é extremamente inflacionária. Bastou um mero descuido fiscal para irmos de 5% de inflação para 10%. Temos instituições ainda novas e que estão aprendendo seus lugares no país e isso tudo exige uma taxa maior de juros. Dito isso, vamos ao próximo ponto.

Os EUA possuem uma balança comercial negativa ao mesmo tempo que ele continua enriquecendo. A razão é a mesma da anterior: Ele importa produtos industrializados, exporta dinheiro. Sabe quando aquele seu amigo liberal repete em sequência que “imposto é roubo” e “inflação é imposto” ao mesmo tempo que defende o fim do banco central e o bitcoin? Os EUA é basicamente um banco central internacional.

Isso quer dizer que quando ele imprime dinheiro e, ainda assim, continua com uma inflação baixa, basicamente todo cidadão americano (ou qualquer pessoa que possua dólares) pode comprar coisas do exterior de graça. Isso explica porque o país continua rico ao mesmo tempo que tem uma balança comercial: Na prática, ele está exportando dígitos eletrônicos, criados absolutamente do nada.

Por fim, o CDS, sigla que significa (Credit Default Swap). É uma espécie de contrato que serve, na análise de mercado, para medir a taxa de confiança de um governo. O CDS do Brasil em fevereiro de 2016 estava na casa dos 400, agora está nos 200, o que significa que o mercado considera Temer mais confiável que Dilma na estabilização da economia brasileira. No caso dos EUA, a confiança é muito alta (na casa dos 20) e por causa do que disse antes, um calote dos EUA é extremamente improvável, o que significa dizer que o dólar é um seguro, o real é um investimento.

O título americano é o que você compra quando quer uma garantia, o brasileiro quando quer um lucro. E tudo isso completa um ciclo: Como os EUA é confiável, todo mundo compra em dólar. Como todo mundo compra em dólar, os EUA consegue estabilizar sua economia. Como os EUA consegue estabilizar sua economia, ele é confiável.

O Brasil, por sua vez, tem o ciclo contrário: Ninguém confia, é instável e tem um histórico longuíssimo de brincar com inflação, calotes, confiscos, protecionismo, controle de divisas e as regras do jogo mudam todos os dias. Como dizia um grande filósofo do direito penal, é muita facaltrua, com um pouco de vadiagem.

Percebam: Os EUA estão numa condição excepcional da teoria econômica: Imprime dinheiro sem gerar inflação, gasta mais do que ganha de forma continuada e a confiança internacional é o que define seus indicadores — e não o contrário. Poucas vezes na história do mundo tivemos países nesse tipo de situação e normalmente eles não duram por muito tempo.

Se falo tanto da situação dos EUA é por uma razão simples: Lá eles estão numa situação infinitamente mais confortável (eles decidem, nós reagimos às decisões deles) e mesmo assim, eles estão desesperados para conter o déficit. Porque o Brasil, numa situação muito pior, não o faria?

Ou por outra: Está mais fácil os EUA precisarem agir como o Brasil do que o Brasil poder agir como os EUA…