Memórias.
Memórias eram as únicas coisas que me restavam.
Memórias de um feto que cresceu em meio a sujeira de Westminster no ano de 1882. De uma criança que cresceu em um lar com uma mãe que era agredida diariamente pelo marido e com um pai que a educava na base de tapas. Lembranças de um menino pequeno, magricela, de cabelo bagunçado e olheiras profundas, que mendigava por um punhado de moedas que garantiriam um jantar desumano para aquela noite. Recordações de uma criança que não tinha chance alguma de sobreviver aos anos, mas que de alguma forma fez sua vida em meio a imundice e pobreza dos becos de Londres.
Recordo-me do colégio, mas não do que aprendi lá. Do meu primeiro amor me lembro, assim como os primeiros beijos e luxúrias escondidas nas vielas, onde minhas mãos invadiram pela primeira vez as vestes femininas. Logo na adolescência, lembro de ter conhecido os sabores do álcool e do cigarro, e que tinha um pequeno cantil cheio de absinto de um amigo veterano, que apaziguava meu sono quando não conseguia dormir devido as gritarias dos meus pais. Apesar da alta ingestão de líquidos inebriantes, lembro que as brigas ficaram cada vez mais feias lá em casa, com tapas e socos sendo trocados por ambos os lados. Um dia aquilo se tornou demais para mim. Decidi juntar alguns trapos em uma mala velha e fugi de casa, sendo salvo das sombras das ruas de Westminster por uma idosa dona de um albergue e por sua filha, que tornaria-se uma das minhas companheiras de leito durante a vida.
Alistei-me no exército ao completar a maioridade. Conhecia o poder de uma arma e desejava-o para mim, para me defender da sujeira da qual havia vindo. Quando fugi de casa, também fugi de todo meu passado, almejando o luxo e riqueza da parte alta da cidade. Dentro do quartel, lembro-me de ter crescido rápido de patente, passando de um pequeno soldado para capitão, comandante e rumando cada vez mais rápido ao posto de general. A cada escalonamento, um alojamento mais belo e luxuoso do que o outro, cada vez mais longe do berço com cheiro de esgoto do qual havia surgido.
Não demorou para que eu chegasse em escalões tão altos a ponto de ter contato direto com a nobreza britânica. Condes, Sirs, Duques e Duquesas. Até mesmo a própria princesa chegou a me cumprimentar. E no momento daquele primeiro toque eu já pude ter a certeza: eu a desejava. Acima de qualquer promoção, acima de qualquer riqueza do mundo, meu desejo era de ter a princesa da Inglaterra em meus braços.
E, para a minha sorte, ela desejava o mesmo.
Começamos a nos encontrar as escondidas, pois milady já era prometida a um velhaco da nobreza. Não ligávamos para isso. Em meio aos jardins reais, nos perdíamos em beijos acalorados e sensuais, em carícias rebeldes e lascivas. Nosso amor era a coisa mais perigosa que já havia feito em minha vida, mais do que escapar de meus pais, mais do que entrar no exército, mais do que todos os confrontos que havia participado durante aqueles anos. A princesa envolvia minha língua com seus lábios que faziam-me mais ébrio do que doses incessantes de absinto e suas coxas prendiam meu quadril ao seu de forma intensa.
Em uma noite, que seria mais importante do que eu poderia imaginar, milady concedeu-me acesso aos seus aposentos privados e naquela noite eu experimentei com ela o ápice dos prazeres mundanos. Nossas roupas foram largadas ao chão e na cama nossos corpos se encaixaram perfeitamente. Montada sobre mim, a luz do luar brilhava sobre os seios nus de minha princesa e sua pele emanava um místico tom esmeralda, como uma aura mágica que a rodeava. Passei com minha língua por todo o corpo de minha amada e não senti nenhum pelo sequer em sua epiderme. Naquela noite, cedemos ao pecado maior, ao completo orgasmo e selamos os destinos de nossas vidas com nosso amor.
Nos dias seguintes, lembro que milady se tornou estranhamente fria. Nunca mais nos encontramos nos jardins e não houveram mais convites para seus aposentos. Estranhei essa mudança de comportamento e acreditei que poderia ter ultrapassado algum limite proibido naquela noite. De longe ela parecia mais tensa, mas também mais larga, com o seu quadril e peitos inchados. A curiosidade trespassou minha mente e decidi eu mesmo me convidar para o quarto da princesa. Naquela noite, aos prantos, ouvi milady me contar que havíamos gerado um filho na nossa noite de carícias.
“Ele é diferente de qualquer outra coisa neste mundo”, ela dizia, acariciando a barriga. Um misto de emoções passaram pela minha mente: a sujeira de Westminster, o albergue que foi minha segunda casa, o quartel, as batalhas, os primeiros beijos trocados com milady. Tudo se enevoou em minha visão e então…
Memórias.
Memórias são tudo que me restam agora. Mas até mesmo algumas delas eu perdi.
Não me deixaram trazer nada para a cela da prisão, nem mesmo minhas próprias roupas. Assim que me encontraram no quarto da princesa, lançaram-me direto aos calabouços.
Não me recordo do que aconteceu. A última memória que guardei de minha amada foi o carinho na barriga. Tudo enevoou após isso, e quando restaurei a visão, ela já estava morta na minha frente. Seus olhos arregalados olhava para o teto e seu ventre estava aberto por diversos cortes. Não apenas minha amada havia sido assassinada ali, mas meu futuro filho também não andaria sobre estas nossas terras.
O mais assustador foi olhar o corpo mutilado de milady e perceber que seu interior não era nada humano. Em minhas batalhas já havia visto muitos homens dilacerados por bombas e tiros, mas nenhum deles sangrava um liquido esverdeado como minha amada. Nenhum deles possuía os mesmos órgãos que o interior de minha amada possuía. Ela não era humana. Em minha mente, apenas a sua última frase ecoava acima de tudo: Nosso filho era diferente de qualquer coisa neste mundo. Pois não era humano e nem… nem…
O que eu poderia dizer aos familiares quando entraram no quarto e encontraram aquela cena, emitindo gritos sobrenaturais e impossíveis de serem reproduzidos por gargantas humanas? Meu corpo estava paralisado de medo e indignação. Ninguém acreditaria em minha história e jamais poderiam comprová-la, já que sabiamente a família real queimara o corpo de sua princesa para que ninguém soubesse do segredo que eles escondiam. Nem sequer tiveram a coragem de me conceder um julgamento para que me defendesse, sentenciaram-me diretamente a guilhotina, sem mais. Acusaram-me de matar milady, mas eu sabia que quem havia feito isso eram eles próprios, com medo do que estávamos dispostos a criar como filho.
A execução foi marcada para o dia seguinte ao qual escrevo esta carta, mas não darei para estas criaturas o prazer de assassinar o outro cúmplice deste crime inter-racial. Com os trapos que me cobriam, fiz um laço bem firme com o qual irei me sufocar. Me encontrarei com minha amada e nosso querido filho nas terras de nosso bom senhor Cristo, se este aceita também as criaturas a qual minha amada pertence. Que esta carta fique escondida nesta cela para que o próximo condenado leia e saiba da verdade, de que não somos donos de nós mesmos e que todos corremos perigo. Que um dia esta carta voe para além desta cela e revele a verdade aos quatro cantos do mundo, trazendo um dia, para mim e para minha amada, assim como para tantos outros, nossa bem merecida vingança.
Assinado,
General Collins,
Com as últimas forças de um condenado.
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Assumi minha identidade como escritor aos 20 anos de idade, e fazem dois anos que venho escrevendo contos e histórias relacionados ao fantástico, fictício, esotérico e místico.
Possuo alguns contos e poemas postados no blog Pintando o Infinito
