
Passadista
Minha avó tinha o costume de me contar histórias sobre meu pai, quando criança, em suas mais diversas aventuras. O modo como ele sempre chegava em casa em sua pose heroica, como se ele houvesse feito algo que mudaria o curso do universo. Por mais pequena que tenha sido sua ação ele sempre agia como se fosse a coisa mais importante do universo.
Não me impressiona que quando adulto ele tenha servido o exército e podido, então, servir para um bem maior. Ser o herói que sempre sonhou…
Parecia que o universo sempre encontrava um modo de te colocar no rumo certo. Te prendendo aos trilhos por ele construídos.
Gosto de pensar que ele foi um herói desde criança até o dia de sua morte. E ele gostaria que eu pensasse assim. Mas, por que diabos ele tinha que ser assim? Por que é que no fim de seus dias ele teria que continuar agindo como se fosse um herói e abrir mão de sua própria vida pelo meu bem e de minha mãe?
Ele foi herói o bastante para abrir mão de tudo, mesmo esse tudo sendo seu paraíso particular.
Agora que minha mãe desapareceu, eu passo cada segundo do meu dia pensando nele. Mesmo nove anos depois, eu continuo acreditando que ele fez errado, escolhendo deixar-se morrer.
Se ele soubesse como eu me sinto…
Se ele soubesse que eu passei todos esses anos desejando tê-lo ao meu lado. Contando-me histórias antes de dormir, me colocando de castigo por ter feito algo errado, implicando com meus namorados…
“Por que tinha que acontecer comigo?” Era tudo o que eu não conseguia entender.
“Por que não podia ser tudo diferente?” Era tudo que eu conseguia pensar.
Trecho do livro “Duas Partes de Um Agora” — Por Eduardo Ferreira