MILLENNIALS: A ROBOTIZAÇÃO E A LIQUIDEZ DA GERAÇÃO SOCIAL MEDIA

Thayane Maria
Sep 6, 2018 · 10 min read

“Mas agora, todo imbecil passa por gênio ou poeta, em cada esquina um pseudo — profeta”. Esta frase sintetiza muito bem o que seria quase uma premonição — entre muitas — que Raul Seixas profetizou através de suas letras e canções, compostas e cantadas na sua maioria durante a década de 1970 e 1980, sobre o presente em que a sociedade está vivendo. Nas últimas décadas, acompanhamos o “boom” da era digital. As redes de computadores se espalharam pelos continentes de forma tão veloz, que atualmente pode-se até — metaforicamente — comparar o fenômeno com a velocidade da luz, de tão rápido que a cyber cultura avançou nos últimos dez anos, até o momento atual que, literalmente, a rapidez em que dados e imagens são compartilhados podem assemelhar-se à uma pequena fração do que é realmente a velocidade da luz. Resumidamente, os dados são transmitidos “full-time”, todo o tempo, que, tal como a tradução da expressão americanizada, é todo o tempo que pode ser metido dentro da nossa capacidade humana de se medir o mesmo.

Exageros à parte, os fatos provam a grandeza da cultura digital nos últimos anos. Em 2004, a Web 2.0 surgia — primeiramente vista como uma estratégia de marketing -, que tinha como conceito principal uma nova geração de usuários e desenvolvedores de internet, na qual a visão estreita que era vivenciada até o momento no cyber espaço seria deixada para trás. Por ironia ou não do destino, no mesmo ano surgia o Orkut, que foi um dos pioneiros na mudança do comportamento online de milhares de pessoas no Brasil e no mundo. No mesmo ano houve a criação do “The Facebook”, que junto com o MySpace realizaram um tipo de ruptura histórica, no qual ajudaram a construir e incentivar um novo padrão comportamental que começou a ser massificado poucos anos depois e que se encontra sólido até hoje, com raízes profundas, porém passíveis a metamorfoses, de acordo com o padrão que for unânime entre as massas do amanhã.

Neste sentido, o padrão comportamental que começou a ser esculpido através destas redes sociais de grande alcance, foi o chamado “O Show do Eu”, ou a Intimidade como espetáculo, no qual a autora Paula Sibilia realizou um estudo com o mesmo nome sobre este episódio da história no qual vivemos. Através dessas redes sociais, nós mesmos, cidadãos comuns, passamos a ser o personagem principal da vida cotidiana de nós mesmos, paradoxalmente, tirando significantemente o espaço das celebridades da mídia tradicional — cada dia mais rompida — e levando todo o spotlight para nós mesmos, criando uma espetacularização do ordinário, da imperfeição e do dia-a-dia.

De um ponto de vista antropológico, uma ode ao imperfeito e ao comum nos traria humildade e crescimento intelectual como seres humanos, ao perdermos a ilusão e a romantização de nossos relacionamentos pessoais e nos darmos conta da nossa limitação, generalizada, factual e vã existência. Porém, a complexidade das razões e reações desse fenômeno comportamental não nos deixa apenas analisar o lado aceitável e até mesmo positivo da situação, pois trata-se de uma tendência que obtém semelhanças com a megalomania.

Neste contexto, o autor Guy Debord lançou em 1968, no auge da efervescência política e juvenil na França, o estudo chamado “A Sociedade do Espetáculo”, no qual faz uma análise crítica ao estado mais avançado de alienação que a sociedade comandada por um modelo sócio econômico capitalista pode alcançar, que é a substituição de verdades e valores por imagens, ou a desvalorização do ser e a grande valorização do parecer, ao invés de ser. Neste livro, Debord aborda o que ele chama de “uma relação de pessoas mediadas por imagens”, imagens seriam representações imediatas que adquirem uma autonomia e fazem das pessoas meros espectadores contemplativos. Neste caso, não é difícil criar um paralelo ao que vemos e participamos no nosso dia-a-dia em redes sociais como o Instagram, Facebook, Twitter ou até mesmo o WhatsApp, o aplicativo de mensagens instantâneas — ou uma transposição do provecto MSN para os dispositivos móveis.

“Tudo é tão simples que cabe num cartão postal.”
— Cartão Postal, Cazuza

Em sua introdução, Guy Debord cita que “Toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação”. Nesse aspecto, a assimilação mental de um novo padrão comportamental pela sociedade pode ter sido subestimado por ela própria. Passamos do compartilhamento de nossos gostos, hobbies e amigos em redes “sociais”, no qual o título mostra o intuito do uso das mesmas, para a total abominação da mínima demonstração de interação humana — como o uso da voz nas longínquas ligações telefônicas — para nos comunicarmos, socialmente, de forma tão minimizada que é resultante em um Emoticon, ou emoção na tradução livre, no qual desenhos de pequenas faces imitam ou transmitem a, ao que pode ser visto, tão substituível expressão humana.

Do ponto de vista econômico, a sociedade do espetáculo atual em que vivemos, começa e encera-se nela mesma. Ou seja, o espetáculo é o principal meio de produção da sociedade atual. Temos provas disso na monopolização de vídeos autorais no YouTube, nos quais os vídeos que detém a maioria de visualizações são os chamados Vlogs, ou seja, aqueles onde os youtubers (como são chamadas as pessoas que criam e mantém canais de vídeos atualizados no site) passam minutos contando sobre sua própria experiência de vida, dando conselhos ou apenas falando sobre algum assunto que é de seu interesse. Além disso, a popularização dos Blogs como um meio de fácil e rápido de obter reconhecimento e dinheiro na web, o patrocínio de grandes marcas privadas para publicidade em fotos no Instagram e no acúmulo de visualizações ou alcance de posts no Facebook.

Cartaz utilizado no movimento estudantil de maio de 1968, na França

Desse modo, o capitalismo, como era esperado, tornou o fenômeno da espetacularização da vida cotidiana — que já era por si só um resultado da equação formada e analisada por Guy Debord em seu livro — uma mercadoria e uma das opções mais lucrativas da geração atual, na qual inclusive a mídia tradicional teve que habituar-se. O que pode ser visto claramente entre todas as mídias sociais mais utilizadas atualmente é que, apesar de suas diferenças midiáticas, o tópico abordado é o mesmo, seja de forma amadora ou profissional (visando o capital alcançado com as visualizações ou likes) — a nossa própria vida.

Neste intuito, O Show de Truman, um filme de 1998, sintetiza em seu roteiro uma crítica melancólica ao padrão social que estava começando a ser dominante na época. No filme, a vida do protagonista Truman, é transmitida via satélite para todo o mundo, ou seja, um programa vinte e quatro horas, nos sete dias da semana — uma crítica bem direcionada aos primeiros Reality Shows dos anos de 1990 -, entretanto ele mesmo não tem ciência disso e vive seu cotidiano acreditando ser real. Porém, toda a “realidade” que Truman crê não passa de uma representação: a sua cidade, sua esposa, seus amigos, seu emprego. O filme faz um paralelo com diversos filósofos, entre eles Jean Baudrillard, que enxerga a cultura da atualidade como uma realidade construída a partir dos valores simbólicos impostos pelo sistema capitalista. Desta forma, cria-se uma realidade dentro da realidade — ou a substituição do ser pelo parecer — em que os valores reais e essenciais são sobrepostos pelos valores concretos e de mercadoria, no qual na sociedade de consumo tudo é visto como uma mercadoria, inclusive nós e as singularidades ordinárias de nossas vidas.

“Era feito aquela gente honesta, boa e comovida
Que caminha para a morte pensando em vencer na vida
Era feito aquela gente honesta, boa e comovida
Que tem no fim da tarde a sensação
Da missão cumprida”
— Pequeno Perfil de um cidadão Comum, Belchior

Neste ponto de vista, durante o espetáculo cotidiano de nosso próprio cotidiano, um outro padrão comportamental é vigente além da necessidade quase megalomaníaca de visibilidade de aspectos banais de nossa própria vida: a ânsia de ser diferente.

No entanto, o modus operandi da sociedade em relação a urgência de ser diferente do outro, que é em todos os aspectos nosso semelhante, causou uma série de repetições e imitações de nós mesmos, que apesar da incitação à singularidade e o espaço digital que facilita o desenvolvimento de nosso ID, Ego e Super Ego freudianos, continuamos a causar uma incessante produção quase fordista de cópias.

Por conseguinte, outra aresta a ser analisada de todos os desdobramentos psicológicos, antropológicos e filosóficos da cultura social e digital que estamos vivendo, é a superficialidade das informações que são transmitidas mundialmente. Seja nas mensagens trocadas nos aplicativos de conversas, ou até mesmo em locais como o Facebook, no qual além de fotos da nossa vida íntima, postamos também textos e opiniões sobre diversos assuntos, não conseguimos fugir da superficialidade em que abordamos as palavras, pois são apenas isto: palavras. E são tão efêmeras quanto a nossa própria vida, pois somem em meio a centenas de informações que se sucedem durante as vinte e quatro horas do dia. Tudo isso tem uma consequência não só biológica em nosso cérebro, que acaba assimilando tudo de forma sintetizada e rápida, mas traz consequências para nossos relacionamentos íntimos, profissionais e principalmente para nossa aprendizagem.

“Eu vivo num clima brabo, cheio de violência

E você faz sinal de paz e clemência

E ainda me diz que é um bicho muito “Underground”

Eu vivo de olho na vitrine da moda

Vendo robô padronizado…”

- Teddy boy, rock e brilhantina, Raul Seixas

Por outro lado, enquanto uma porcentagem de pessoas que se adequou ao sistema de espetáculo das mídias sociais obteve uma melhora significativa em sua auto-estima, seja por conta da conclusão de que a vida de todos nós não é tão interessante, e nem diferente assim, o “parecer” anteriormente abordado por Debord influencia na vida íntima da outra porcentagem de pessoas que apesar de saber, inconsciente ou conscientemente que a vida real e o mundo pessoal de todos nós não é bem aquilo que é apresentado nas mídias sociais, sentem-se pressionados a deixar de ser, mas parecer — tal como a massa concordou em fazer.

Um exemplo contemporâneo de uma reação a este modus operandi são as maiores agências de modelos do mundo, como a IMG e Next, contratarem apenas modelos que possuem o maior número de seguidores em redes sociais como o Instagram e Twitter, ou que obtém maior influência(likes) e mais amigos em redes como Facebook. Neste aspecto, podemos verificar a mercadoria do parecer abordado na Sociedade do Espetáculo, sobrepondo o talento real, ou o ser. As redes são tão influenciáveis atualmente que inúmeros gerentes de recursos humanos em castings de empregos solicitam seus perfis nas redes para traçar uma análise psicológica da sua personalidade, novamente baseada no parecer e em mera superficialidade.

Nesta estranha condição social que vivemos atualmente, podemos verificar um importante paralelo com uma citação de “A Teoria da Alienação em Marx”: A alienação caracteriza-se, portanto, pela extensão universal de “vendabilidade”, a transformação de tudo em mercadoria, pela conversão dos seres humanos em ‘coisas’, para que eles possam aparecer como mercadorias no mercado…e pela fragmentação do corpo social em indivíduos isolados, que perseguem seus próprios objetivos limitados, particularistas, em servidão à necessidade egoísta, fazendo de seu egoísmo uma virtude em seu culto à privacidade.

Ademais, embora a realidade atual seja apenas uma dramaturgia da nossa vida real, e a persona que cultivamos em nossas redes sociais se pareça muito pouco ou quase nada com nossa personalidade real, segundo o filósofo Michel de Certeau, nós temos a tendência a aceita-la, pois o mundo social em que estamos inseridos constrói valores a partir de aparências, signos ou status vigentes. Estamos, de certa forma, domesticados pelo sistema e pelo nosso próprio “Show do Eu”, no qual repetimos os mesmos ditames, e somos conscientemente ou inconscientemente incentivados a nos satisfazer e acreditar no simulacro cultural que estamos imersos, que nos ensina a sermos apenas réplicas uns dos outros. Existe, definitivamente, uma linha tênue entre o ser e o parecer, principalmente se nos deixarmos levar pela fábula das redes sociais.

No entanto, a partir de uma análise mais profunda do tempo em que vivemos, somos capazes de não nos tornarmos totalmente adestrados, deixando para trás as relações vazias e editadas que o espetáculo das mídias digitais têm a nos oferecer.

“ — Nada foi real?
— Você era real. Por isso gostam de assisti-lo.”
— O Show de Truman (The Truman Show,1998)


“Uma geração inteira enchendo tanques de gasolina, servindo mesas, ou escravos do colarinho branco. Os anúncios nos fazem comprar carros e roupas, trabalhar em empregos que odiamos para comprar as porcarias que não precisamos. Somos uma geração sem peso na história. Sem propósito ou lugar. Nós não temos uma Grande Guerra. Nem uma Grande Depressão. Nossa Grande Guerra é a guerra espiritual… nossa Grande Depressão são nossas vidas. Todos nós fomos criados vendo televisão para acreditar que um dia seríamos milionários, e deuses do cinema, e estrelas do rock. Mas nós não somos. Aos poucos vamos tomando consciência disso”.
— Clube da Luta (Fight Club, 1994)

Thayane Maria

Written by

Anything but ordinary. Jornalista apaixonada por cinema e cultura. Coleciono fantasias e acredito que sou uma. Lirismo que corrói. Só me encontro no excêntrico.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade