O “eu te amo” falso e Os 13 Porquês

Depois do lançamento da série 13 Reasons Why, me lembrei de todas as vezes que tentei me matar, lembrei de todos quem diziam que foi tentativa minha de chamar atenção, lembro de quem mais precisei e virou as costas, lembrei de quem disse que era frescura por não saber lidar com os “problemas da vida” e covardia por querer deixar as pessoas a minha volta sofrerem, lembrei de como me sentia e ainda sinto. Então hoje, com a repercussão da série, todas, e não generalizando, mas realmente TODAS as pessoas no qual fizeram parte desse meu histórico, de repente estão dizendo se mobilizar quanto a quem tem depressão, que estarão disponíveis para conversar e dar um ombro amigo, participando de Ctrl Cs e Ctrl Vs em redes sociais nas épocas de campanha do Janeiro branco e Setembro amarelo. Por que é mais fácil desenvolver empatia com um personagem fictício do que com alguém ao seu lado?

Muitos anos atrás, uma pessoa no qual eu mantinha um amor platônico tentou se matar. Acho que nunca saberia descrever exatamente o que senti na hora além do desespero e medo. Me sucumbi a um terror gritante quando recebi a mensagem de despedida, queria correr e gritar o tanto que ela era importante pra mim, coisas que tinha feito que mudou a minha vida de forma significativa e que eu nunca tive coragem de contar. Não tive porque pensei, isso antes do acontecimento, de que fosse algo irrelevante a ela, uma pieguisse da minha parte. No fim, ela não morreu por uma “intercessão milagrosa” de um terceiro, assim que pude conversar não tocamos muito no assunto do que tinha acontecido. Não sabia o que falar porque apesar de já ter estado no lugar dela, só sabia creio que 2% do motivo, porcentagem essa no qual também já foi o mesmo motivo para as minhas tentativas. Me lembro de ter passado quase duas semanas chorando, sem comer e dormir direito com receio dela tentar novamente, alguns dias depois nos encontramos e pareceu até que nada tinha acontecido. Mesmo com o meu abraço forte, com o rosto queimando sem eu querer soltar sua mão, em momento nenhum ter dito que a amava e soltando só um "Tô bem feliz de te ver”, pensei se essa minha reação foi fruto da empatia ou era pelo sentimento platônico.

Muitos anos mais tarde lidei com outras tentativas minhas e de outras pessoas. Em uma dessas vezes, alguém quis e tentou morrer por um acontecimento no qual me envolvi. Relacionamentos amorosos sempre me foram difíceis porque devo, penso eu, estar vivendo o carma de uma vida passada, nenhuma durou demais por inúmeros motivos. E voltando a essa história, nem sabia se devia sentir culpa ou pensar que também tinha o direito de manifestar que tudo só me deixava infeliz. E a verdade, é que durante o tempo inteiro que me relacionei com ela, do começo ao fim tive certeza que tudo foi um erro, um impulso que sempre soube que não devia ceder. Amava uma outra pessoa que também tinha depressão, amor esse que durou muitos anos e que demorei a entender, a convicção me veio quando não parava mais de sonhar com essa outra, no quanto me fazia sentir feliz e bem com a relação, em como ela era preciosa para mim e no poder que dava na minha auto estima. Parecia até que minha própria depressão poderia ser jogada fora como uma bolinha de papel, e comparando com a realidade fora desses maravilhosos sonhos, das duas pessoas que me abriram os braços nas crises suicidas, ela era uma delas. Mas o que me esperava no lado de fora, na vida real, me cobrava, de novo uma nova culpa, estaria eu me relacionando com alguém que não amava de forma mútua por conta de empatia sobre suícidio, por não querer que ela pensasse que ninguém nunca a amaria? Mesmo com todos os mimos, mensagens carinhosas e afeto físico, estava fazendo isso por não querer ser o bode expiatório se a próxima tentativa de morte funcionasse? Eu seria um “porquê”?

Por fim, todos os dias desejei que aparecesse logo alguém em seu caminho que a amasse da forma que desejava, uma relação recíproca e sincera, que desse o que eu nunca poderia, não só ela, mas todos aqueles que já passaram por mim e os demais que necessitarem. Enquanto isso, darei o que estiver ao meu alcance como ser humano e como alguém com depressão tentando viver, ela não será uma Hannah e eu não serei um Clay.