Lembrando de medíocres para falar de sexualidade heteronormativa

Genitais representam nossa sexualidade, e a nossa sexualidade, se considerada saudável e correta, é a heterossexual. A heterossexualidade em nossa sociedade patriarcal é com objetivo de reproduzir, caso contrário, não haveriam tantos conservadores admitindo e exigindo o conceito de “família” apenas como mulher, homem e filho(s). Nessa mesma sociedade, onde uma mulher é coagida a ser mãe, a heterossexualidade é compulsória.

Vagina e pênis, sempre mais que outras partes do corpo consideradas sensuais, são fetichizados e censurados. Isso porque são partes externas análogas às capacidades femininas e masculinas de reproduzir, e a reprodução é hipocritamente dita como a única razão para se fazer sexo. Uma mentira deslavada que até hoje está nas bocas de conservadores e/ou religiosos.

Se para o homem, o pênis é sua única parte fetichizada e censurada em último nível, para a mulher, a vagina não é. O homem anda livremente com seu peito em praias e outros lugares sociais, ainda que não seja permitido em lugares formais. A mulher tem os seios e mamilos (é importante falar dos mamilos) censurados até mesmo para amamentar. Mas isso não é apenas um extremismo conservador: a amamentação é o motivo. Toda a participação da mulher na reprodução (incluindo a nutrição extrauterina) é censurada, fetichizada e sexualizada. Pra não falar que estou viajando na maionese, o que mais explicaria o termo “MILF” (Moms I’d Like to Fuck)? Como exemplo de objetificação da maternidade, cabe lembrar de um dos fetiches masculinos — não raro — que é transar com uma mulher gestante, uma mulher que os próprios homens consideram fragilizadas e que são suspensas do trabalho por conta de sua situação (o que justifica ganhar menos salário, não é, Bolsonaro?).

Em tempo: foi criado um tal coletor menstrual para ser usado apenas durante a penetração. Não serve como contraceptivo, não previne de doenças e é descartável. O intuito é impedir que o pênis entre em contato com o sangue menstrual. Se há dúvidas que esse coletor está sendo vendido para mulher e por homens, ao menos, não neguemos a aversão à menstruação que existe em nossa sociedade. “E não chegarás à mulher durante a separação da sua imundícia”. Poderia ter sido dito por qualquer imbecil conhecido nosso mas foi só Levítico 18:19. A relação entre menstruação e a reprodução nós já conhecemos: se a moça está menstruada, ela, provavelmente, não está grávida. E é super-hiper-mega importante, para o homem, ter esse controle. Afinal, existem mulheres pra casar e mulheres pra sair. Existem momentos para ter filhos e momentos “que é melhor não”. Momentos para parir e momentos para abortar. Momentos para assumir e momentos para “largar de barriga”. Dessa vez, o corpo da mulher não foi fetichizado mas, sim, demonizado. Nunca humanizado. E como boa não-humana, não deve ter controle nem mesmo de seu corpo, caso contrário está instaurado o caos (aquele parecido com o que as feministas buscam). O homem é a ordem (e o progresso).

Para falar da bunda, cito o miserável Levy Fidelix: “aparelho excretor não reproduz”. Enquanto isso, a bunda é “preferência nacional”. Claro que ele estava querendo falar de homens homossexuais — são eles que ilustram o cenário LGBT — mas já esteve (ou está) em algum site de alguma igreja conhecida que o sexo anal até mesmo no matrimônio é uma “imundice”. Não sejamos desonestos em tratar a fetichização da bunda de forma igual tanto pra mulher quanto pra homem. Tem mulher falando de bunda de jogador de futebol, sim, mas tem mulher e travesti morrendo por preencher a bunda com hidrogel. Por que a bunda é mais aceitável de ser exposta que a vagina? Talvez por não ser uma parte do corpo que simbolize reprodução, ou pelo menos, não aquela desejada pelos homens. Talvez a bunda tenha ganhado apelo sexual quando fetichizadas em negras, as “mulatas” de hoje em dia, que ainda são esteriotipadas como perfeitas máquinas sexuais descartáveis, preferidas pra sexo, preteridas pro casamento (e, claro, pra reproduzir).

Não se trata de prazer. As áreas erógenas não se limitam a pênis, vagina e seios, se quiserem usar isso para justificar a sexualização dos corpos e partes. Sexualizar essas partes enquanto ignora a importância do clitóris e da próstata é estupidez. E a heteronormativade definitivamente não está nem aí pro clitóris e para a próstata porque a sociedade patriarcal e, necessariamente heteronormativa, não trata a sexualidade, em primeira instância, como fonte de prazer: o prazer é assunto do homem, a quem é permitida a masturbação e o conhecimento do próprio corpo. O patriarcado pretende a reprodução, pretende dar o poder aos seus agentes (homens) de selecionar seus herdeiros (preferencialmente também homens). E é por isso que a maioria da população pobre é mulher e negra. É por isso que a mulher é sexualizada.