A função terapêutica das redes sociais

Somos todos e todas como namoradeiras à beira de janelas na internet


As redes sociais nos pegaram ou nós nos agarramos a elas? Nessa onda de relacionamentos virtuais, sentimentos ainda são muito reais.

Às vezes realmente parece que coisificamos. São tantos recursos e inovações que se apresentam para nós que, em dado momento, sentimos que precisamos de um novo HD-cérebro ou mais memória RAM. Somos especialistas e, de fato, sabemos um pouquinho de cada coisa. E onde está a concentração para decodificar, assimilar e interagir com tudo isso? Onde é que se compra foco?

Você se concentra, aprende uma nova tecnologia, é capaz de reproduzir as ações, mas, eis que chega a inovação da inovação. A novidade fica ultrapassada. É a moda das novas tecnologias. Era Digital, virtual, da informação, da tecnologia e mais algumas eras para se enquadrar. E sobre se atualizar? Minha nossa, por onde começar? Aí está o problema. Em um mercado que te pede para ser multifuncional, há de se encontrar o tal foco.

Outra coisa que nos segue (não estou falando de Twitter) é o vocabulário criado nas redes. A gente incorpora e usa por diversas vezes sem perceber. Porém, é preciso que se entenda que muita gente não conhece os termos utilizados na internet, fazendo-se necessário adaptarmos nossa linguagem para a vida social também.

Para conversar pela internet é preciso pensar rápido e enviar a mensagem ligeiramente. Por um lado abreviamos nossa forma de expressão e, por outro, criamos uma estratégia para dizer o que se quer em poucas palavras. Ainda assim, usamos os links como apoio e fica difícil ter tempo para dizer tudo que se deseja. Mais informação e menos densidade; entramos num outro tema, a superficialidade das relações.

De qualquer modo, internet também já virou terapia. Com tantas coisas disponibilizadas na rede, tais como jogos, livros, receitas, fotos, vídeos etc, pode-se sim passar horas em frente ao computador sem se perceber, distraídos, rindo ou chorando sozinhos, aprendendo, conferindo as novidades resumidas, vendo o que não foi possível ver e vivendo virtualmente o que o cotidiano não te deixou viver. O que não deixa de ser um risco também. Ater-se à tela e acabar gostando mais do mundo virtual que do real. Isso já acontece e não é história recente. Hoje vamos falar das redes sociais enquanto terapeutas (citemos o facebook como exemplo).

Fulano escreveu que está cansado e deprimido. Logo depois descobre que não é o único, pois ciclana e outros mais respondem falando de si mesmos também, concordando com o pensamento, dando a mão virtual do “eu te entendo”. De vez em quando vêm as frases e comentários de motivação ou gozação. Observamos imagens e frases em tom de zombaria, que muitas vezes não são entendidas como forma indireta de agressão, sendo compartilhadas e curtidas pela “galera”.

Através das redes vemos pessoas expressando não somente suas ideias, mas também valores, preconceitos e sentimentos, muitas vezes dos mais íntimos. É um caderno à mostra, um diário onde mágoas e raivas são despejadas. também se veem manifestações de felicidade e de carinho. Um novo mundo que nos permite tornar público o nascimento do filho, a festa que se foi, o doce que comeu, a viagem que fez, o amor que conheceu, o amigo encontrado ou a realização de um projeto. Somos todos e todas como namoradeiras à beira de janelas na internet. Quer-se saber da vida do outro, como na vida aqui fora. Comparamo-nos, felicitamo-nos, criticamo-nos. Quer-se falar de si para os outros, divulgar e compartilhar o que há de bom ou de ruim, na espera de uma resposta. Forma-se então a interatividade terapêutica da rede.

Revelar fragmentos da vida e do pensar, seja entre os amigos, amigos de amigos ou para qualquer pessoa, é um modo de dialogar com o outro e consigo mesmo. Encurtam-se distâncias de certa maneira e, simultaneamente, mantêm-se a zona de conforto. Comunica-se e ponto, sem muito cuidado.

Quando surgem as imagens e frases de impacto para serem compartilhadas, é possível perceber a interação passiva também. Compartilho a ideia, mas não tenho tempo para pensar para dizer o motivo de minha concordância. Ainda assim, seria válido por colocar de lado o “eu” em prol de uma causa? Tem muita gente compartilhando e apenas curtindo coisas sem ler, sem nem saber direito do que se trata, sem pensar a mensagem. Afinal, são tantas mensagens de uma só vez que fica difícil. Espreme-se o conteúdo e dá-se um jeito de dizer que esteve ali. E mais, as frases com ou sem aspas de diversos autores são usadas para dizer seu humor do dia, revelam parte da sua personalidade, seus gostos, reverenciam suas escolhas e posicionamentos. Não é à toa que empresas pedem para ver os perfis dos futuros profissionais. Já parou para pensar que o seu perfil no facebook daria uma boa análise psicológica?

Então, as redes sociais nos pegaram ou nós nos agarramos a elas? A tecnologia nos mostrou um novo caminho. Neste caminho precisamos de um saber diversificado e também entrar em contato com nós mesmos. Precisamos entender o isolamento que aproxima. Nos transformamos em vozes, imagens e palavras. Já fomos transformados em números e agora somos perfis, e às vezes múltiplos. Somos seres sociais e tentamos nos inserir, abrindo-nos para uma sociedade virtual.

Texto/Foto: Nanda Soares

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