Gritos na Escuridão

Fanfic baseada nos personagens de O Iluminado, de Stephen King.

Grady e sua família ainda vivem no Hotel Overlook. Os empregados mais antigos, o gerente Stuart Ullman e alguns hóspedes podem garantir isso. Para os empregados mais antigos e o gerente Ullman a estadia de Grady e sua família, composta por ele mesmo, duas filhas e sua esposa, é algo que, embora indesejado, não pode ser revertida. O que se pode fazer, da parte deles, é evitar encontrá-los nos corredores. Aliás, evitar encontrarem-se com os Grady’s é algo que fazem a todo custo. No que diz respeito aos hóspedes que tiveram o azar de encontrá-los no meio da noite num dos corredores, ou em algum canto mais isolado do Overlook, como o jardim por exemplo, pode-se dizer que eles nunca mais colocarão os pés ali novamente. Claro que estou falando dos que sobreviveram ao encontro, pois alguns, infelizmente, não resistiram ao choque.

Delbert Grady fora contrato por Ullman no inverno de 1970/71. O Overlook necessitava de um zelador capaz de manter a manutenção do Hotel durante o duro inverno, assim como manter a velha caldeira funcionando a contento e ele, aparentemente, tinha as habilidades necessárias para o trabalho. Desta forma, apesar das preocupações de Ullman no que diz respeito à capacidade de manterem-se sãos durante o rigoroso inverno e o isolamento, que duraria pelo menos 4 meses, os Grady’s mudaram-se para o Overlook, passando a ocupar um quarto nos fundos da ala oeste do hotel. Se Ullman soubesse que Delbert Grady era um beberrão inveterado e que, só Deus sabe como, trazia um estoque gigante de Whyski barato em sua bagagem, provavelmente teria esquecido a contratação. Simplesmente ligaria para Al Shockey, atual dono do Overlook, e diria que o tal homem não estava capacitado para o trabalho. Se soubesse, ainda, que Delbert Grady mataria as duas filhas com uma machadinha, daria um tiro de escopeta na mulher e depois cometeria suicídio com a mesma arma, com certeza não teria sequer deixado ele passar pelo saguão do Hotel.

O fato, embora alguns ainda neguem, é que os Grady’s ainda moram no Overlook. Se você, numa dessas noites em que se pode ouvir as batidas do próprio coração em meio ao silêncio, aguçar os ouvidos um pouco mais, poderá ouvir o caminhar manco do Delbert Grady pelos corredores. Digo manco por que, quando foi encontrado morto ao pé da escada, estava com o joelho num ângulo que dói só de pensar.

Pois bem. No verão de 1976, quando o Hotel Overlook, ainda abarrotado de hóspedes, oferecia um clima aconchegante e uma das vistas mais belas das montanhas, Louis Creed, sua esposa Rachel e o gato Winston Churchill — vulgo Church, para facilitar — fizeram o check in no grande e disputado Hotel. Ellie ainda não havia nascido e Gage sequer havia começado a navegar pelos tubos internos do sistema reprodutor de Louis. A reserva havia sido barganhada pelo pomposo Sr. Irwin Goldman, pai de Rachel. Aquele talão de cheques, às vezes, fazia milagres.

Irwin e Louis se odiavam mutuamente, desde o dia em que o velho se oferecera para pagar suas despesas com a faculdade de medicina, em troca do rompimento do noivado com sua pequena Rachel. Louis, claro, recusou a proposta, casou-se com Rachel e se tornou um dos melhores médicos de Chicago. Os dois — Irwin e Louis — procuravam disfarçar a repulsa que sentiam um do outro, chegando até a se cumprimentarem quando se encontravam nos eventos da família de Rachel, mas só Deus, ou o próprio diabo, saberia dizer o que se passava por trás dos olhos de cada um. Irwin presenteara o casal com uma semana de hospedagem no Overlook e Louis, ainda que a contragosto, concordara com tudo. Originalmente o presente não incluía o genro, claro, mas Irwin sabia que se não o fizesse correria o risco de desagradar sua filha amada.

- Bom dia sr. e sra. Creed, bem vindos ao Hotel Overlook. — disse o chefe da recepção — Espero que tenham feito boa viagem.

A recepção do Hotel era grande e decorada com grandes tapetes, luminárias que imitavam castiçais antigos e peças cromadas e douradas por todos os lados. Rachel olhava para tudo com fascínio, rodando a cabeça e esbugalhando os olhos como se tivesse acabado de despencar pelo buraco do Coelho Branco e caído direto no colo do Chapeleiro Maluco.

Louis leu o nome do atendente no crachá: Braddock. Lembraria-se daquele nome 9 anos depois, em Missing in Action, filme estrelado por Chuck Norris no papel do coronel James Braddock.

- Bom dia, sr. Braddock — disse Louis. — Foi uma longa viagem de Chicago até aqui. Perdemos uma mala no Internacional de Iowa, o Des Moines.

- Sinto muito sr. Creed — Braddock tinha uma voz fria, robótica, como a voz daqueles funcionários dos serviços de atendimento ao consumidor. Você liga e precisa fazer um certo esforço para acreditar que não está falando com uma maldita secretária eletrônica. — Tenho certeza que o pessoal do Des Moines encontrará sua mala e entrará em contato com o senhor. — Braddock voltou seus olhos para o monitor à sua frente e, após digitar e confirmar os dados necessários, fez sinal para que levassem os Creed e sua bagagem para o apartamento, no segundo andar.

Rachel, sentada no sofá do saguão, tinha uma expressão meio abobalhada no rosto e esfregava as mãos pelo veludo macio do móvel, como se fosse o pelo de um animal exótico. Louis fez sinal para que ela viesse ao seu encontro.

- Tudo bem, querida?

- Louis, meu amor, quando voltarmos para casa eu quero um sofá igual àquele. — Apontou para o imenso móvel de 4 lugares. — É o sofá mais confortável que eu já sentei em toda a minha vida!

- Claro, querida — Louis abraçou a mulher e beijou-lhe a testa. — Quando voltarmos poderemos vender o carro e, quem sabe, um dos rins. Daí teremos dinheiro suficiente para comprarmos um sofá igual aquele. — Os dois riram e Rachel retribuiu o beijo dando-lhe uma bitoca nos lábios.

- Seu bobo.

Church, embora o gerente Ullman não tivesse gostado nada da ideia, fora instalado no mesmo quarto de Louis e Rachel. Fora Church quem vira Grady pela primeira vez.

O primeiro dia dos Creed no Hotel Overlook havia sido extremamente agradável. Rachel ficara fascinada com as figuras em forma de animais que enfeitavam a área externa no Hotel. As figuras — um coelho, dois leões e um cachorro — esculpidas em arbustos, ficavam próximas ao playground e, mais ao fundo, havia uma quadra de Roque. À noite, quando as luzes da área externa foram acesas, tudo ficara ainda mais fascinante. Na cama, após terem feito amor, Rachel e Louis passaram horas conversando sobre o quanto era maravilhoso estarem naquele lugar tão lindo, até que, por volta das 3 da madrugada, pegaram no sono e dormiram abraçados um ao outro. Church, como de costume, dormira sobre a cama, a seus pés.

O quarto onde os Creed foram instalados ficava ao fim do corredor. Na outra extremidade estava o velho e barulhento elevador. Ullman dissera que aquele elevador era seguro como uma casa, mas o barulho que fazia, somado aos longos anos de serviço, não provocavam em Rachel nenhuma vontade de usá-lo novamente. Fora o barulho do elevador que acordara Church. Levantou a cabeça e seus olhos brilhantes cortaram a escuridão do quarto. Ficou imóvel por alguns segundos, esperando que o barulho cessasse. Não demorou muito até que o silêncio voltasse a reinar no segundo andar. Church se acomodou sobre os tornozelos de Louis e fechou novamente os olhos. Mal começara a ronronar quando o som de passos no corredor o despertou mais uma vez. O ritmo dos passos era diferente: um baque surdo acompanhado de algo arrastado… mais um baque surdo e mais uma arrastada. Eram passos, não havia dúvidas, mas de alguém com algum problema em uma das pernas.

Os corredores do Overlook eram equipados com luminárias instaladas nas paredes, à guisa de castiçais. A ideia era trazer um ar de sofisticação aristocrática ao lugar. As lâmpadas eram acionadas por meio de sensores de presença e Church, que era um gato bem esperto, pulou da cama e foi para a porta principal do apartamento. Fixou os olhos na fenda abaixo da porta, esperando ver a luminosidade das luzes do corredor ao acenderem. As luzes, de fato, acenderam. Os passos arrastados continuaram seguindo pelo corredor, abafados pelo tapete estampado com aquelas horríveis imagens de ciprestes e pássaros indistintos. Church aguçara os ouvidos e farejava o ar. O cheiro que chegava em suas narinas não era agradável, pelo contrário. Era podre. Não poderia ser um humano, não com aquele cheiro. Estava mais perto, talvez a poucos metros da porta. Church se afastou e seu pelo ficou eriçado. Arreganhara os dentes quando a figura no corredor parou em frente à porta do apartamento dos Creed. Church pôde ver a sombra de seus pés pela fresta baixa da porta. Esticou-se todo e arreganhou ainda mais os dentes, emitindo um som baixo da garganta. Por alguns segundos a figura, do outro lado da porta, não se mexeu. O gato aproximou-se da porta, farejando mais de perto. Ainda estava com o pelo arrepiado. O cheiro era realmente horrível. Aquilo que estava do outro lado da porta não era humano. Pelo menos não mais. Church percebeu quando a figura abaixou-se, como se também quisesse sentir seu cheiro por baixo da porta. Recuou. Os dentes afiados surgiram novamente, num esgar de medo e autopreservação.

Church jamais sonhara, e tenho certeza que os gatos sonham, que um dia veria algo como aquilo que surgiu através da porta. A cabeça de Grady, deformada na lateral pelo tiro que dera em si mesmo, atravessou a porta como um fantasma. Seus olhos eram buracos negros e, ao abrir a boca, muito mais do que qualquer ser humano seria capaz de abrir, um grito esganiçado e repleto de raiva ecoou pelo quarto. Church também gritou. Gritou e correu, sim, correu como um louco quarto à dentro, buscando o abrigo mais seguro que existia por ali: enfiou-se embaixo das cobertos de Louis.

O grito de Grady não acordara ninguém do quarto. Provavelmente apenas o gato o ouvira. O de Church provocara apenas uma mexida de cabeça da parte de Louis e um “vá dormir, Church” da parte de Rachel. Church permaneceu encolhido embaixo da coberta até o dia amanhecer, quando Louis o expulsou. Não saiu do quarto por dois dias seguidos e, nas quatro noites seguintes, mal pregara os olhos. Todas as madrugadas ele ouvia o som do elevador e os passos irregulares e arrastados de Grady, caminhando pelo corredor do segundo andar. Grady não fizera mais nenhuma visita ao apartamento dos Creed, mas, certa noite, Church ouvira um grito vindo do apartamento ao lado enquanto se escondia embaixo do cobertor de Louis.

Os Creed não tiveram o “prazer” de conhecer Grady, suas filhas ou sua querida esposa — que, devido ao estrago que o tiro da escopeta fizera em sua cabeça, não possuía sequer um rosto. Voltaram para Chicago felizes e prometeram a Braddock, o chefe da recepção, que voltariam assim que pudessem. De fato voltaram, no verão de 84. Braddock não estava mais trabalhando lá, mas o sr. Ullman ainda era o responsável pelo Hotel. O Gerente perguntara pelo gato e Louis, com pesar, dissera que Church havia sido atropelado por um caminhão, numa rodovia do Maine.

Gostou?

Publiquei esta historinha no blog Fanfics de King. Lá, o leitor encontrará referências que o ajudarão a mergulhar um pouco mais nessa história, como dados relacionados ao Hotel Overlook, a alguns dos personagens envolvidos e um pouco mais. Valeu!

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