O Atormentado

Às margens da BR 070, numa casinha isolada no alto do morro, o tremeluzir do fogo de uma vela iluminava o pequeno espaço onde Emilly se encontrava. Lá fora, a escuridão atraia os mais assustadores sons da natureza. Corujas gritavam, alucinadas, à lua cheia. Emilly, ainda embriagada pelo súbito despertar, ouvia o barulho irritante de uma dobradiça enferrujada, rangendo ao sabor do vento. Seus sentidos foram despertando lentamente. Estivera inconsciente por horas.

Sentada a um canto da pequena sala, Emilly franziu a testa e contorceu os lábios. Havia um odor pútrido no ar. Tentando impedir que aquele cheiro horrível lhe penetrasse o corpo, procurou levar as mãos à boca e nariz, mas não conseguiu: estava com as mãos amarradas por trás das costas. Não demorou em perceber que também estava amordaçada. O trapo imundo que lhe cobria a boca era áspero e seco. Sua língua, ao entrar em contato com a mordaça, recuava enojada. Olhou para o próprio corpo, buscando entender o que estava acontecendo, entender porque não conseguia mover os braços e, ao ver-se cativa, teve um ataque de pânico. Debateu-se violentamente, mas o único resultado foi o latejar de seu corpo ferido. As intensas dores fizeram Emilly imobilizar-se. Lágrimas brotaram de seus olhos e rolaram pelo rosto.

O que está acontecendo… meu Deus, alguém me ajude!”

Sua visão nublou, levando-a de volta às trevas da inconsciência.

“Atormentado. É assim que me sinto. Sinto que estou prestes a perder, de uma vez por todas, a pouca sanidade que ainda me resta. Já fiz tudo que mandaste, fiz tudo do jeito que querias, mas agora, sinto que já não tenho mais forças para aguentar este tormento”.

Após um período que não soube precisar, Emilly voltou à realidade.

Isto não pode ser real. Meu corpo dói da cabeça aos pés e eu não faço a menor ideia de onde estou ou como vim parar aqui”.

Novamente olhou para baixo, procurando analisar, com mais calma, sua situação atual: além das mãos amarradas atrás das costas e a boca amordaçada, também estava com as pernas fortemente amarradas. A corda que prendia suas pernas era tão seca e áspera quanto a mordaça que lhe cobria a boca. Suas pernas já apresentavam pequenas feridas, onde as cordas apertavam com mais aspereza. O pousar dos mosquitos em seus ferimentos lhe embrulhou o estômago. Emilly teve ânsias de vômito. O líquido viscoso partiu de seu estômago, trazendo os restos da última refeição não digerida, e encheu sua boca. A mordaça obrigou Emilly a devolver tudo ao estômago. Os espasmos provocados pelas ânsias de vômito fizeram os ombros doerem ainda mais.

Vencido o problema das náuseas, Emilly olhou em volta. No pequeno cômodo havia apenas uma mesa, iluminada pela chama da vela, e duas cadeiras. À esquerda, a janela aberta, rangendo suas dobradiças enferrujadas, deixava entrar o vento frio. Logo ao lado da janela, uma porta fechada. Voltou-se para a mesa e distinguiu pontos negros subirem por suas pernas. Eram baratas. Baratas gigantes. De repente, algo esbarrou em seus pés. Algo peludo e negro como a noite que reinava lá fora. Emilly tentou se encolher, mas as dores lhe impediam de fazer qualquer movimento, do pescoço para baixo. Arregalou os olhos tencionando ver o que esbarrara em seus pés. Assustou-se com o segundo esbarrão. Forçou os olhos em direção a seus pés e viu que estavam quase mergulhados num prato de comida estragada. Ao redor do prato, vários ratos comiam vorazmente o opíparo jantar. Chorou.

“Faça mais um. Apenas mais um e eu o deixarei livre. Nunca mais irá me ver ou ouvir. Eu prometo”.

Soluçando, ouviu um barulho metálico, semelhante às molas de um velho catre, livrando-se do peso de alguém. Olhou em direção à parte baixa da porta e viu uma pequena luminosidade se acender. Aguçou os ouvidos. Palavras de difícil compreensão lhe chegaram aos ouvidos. Ares de uma prece sussurrada. Seu corpo arrepiou-se. Emilly permaneceu olhando para porta, hipnotizada, até que as preces cessaram. Novo barulho metálico, seguido do que pareceu o pisar de pesadas botas no assoalho.

“Eu prometo… eu prometo que não o atormentarei mais”

“Por favor, chega! Eu não aguento mais… por favor, vá embora!”

“Eu irei depois que você… você sabe o que fazer, meu caro.”

O homem levantou-se do catre e apanhou o capuz, usado no sequestro. Olhou para seu velho companheiro, enojado pelo cheiro de estrume humano que exalava de seu couro peludo, e fez-lhe a última súplica:

“Você irá embora depois desta noite, não é?”

“Sim, meu caro, eu prometo que irei”.

“Como saberei que não está mentindo?”

“Ora, ora, eu já menti para você, meu amigo? Por acaso, já lhe enganei alguma vez? Não, claro que não. Não sou um mentiroso, como aquele idiota da cruz diz. Confie em mim e não irá se arrepender.”

O homem com o capuz deu alguns passos para frente e apanhou o machado. Ocultou a cabeça com a touca negra e se dirigiu para a porta.

O som das pesadas botas batendo no assoalho, vindo de dentro do quarto, chegava aos ouvidos de Emilly como marteladas em sua cabeça. O medo já se tornara incontrolável e seu corpo, apesar da dor, tremia por completo. A maçaneta da porta, em forma de bola, começou a girar devagar. Pela fresta da porta entreaberta, o homem com o capuz negro olhou para a menina, no canto da sala. Emilly também pôde vê-lo. Uma sombra, agigantada pela luz que vinha do cômodo, saía da fresta em direção a seu corpo debilitado e indefeso.

“O que está esperando, meu caro? Vá e faça o que lhe peço; não vai demorar.”

O homem com o capuz negro abriu a porta e saiu em direção à sua vítima. Seus passos eram lentos e hesitantes. Lembrou-se de sua primeira vez. Lembrou-se da primeira vez que ele apareceu em sua vida, na igreja. O Padre, que agora segurava um machado, ao invés de uma bíblia, lembrou-se do quanto foi duro ouvir aquela confissão. Desde então, sua vida havia sido um verdadeiro inferno. Mas, agora, depois que atendesse a este último pedido, seria finalmente livre.

“Finalmente livre!”

À medida que o homem caminhava em sua direção, Emilly retraía-se mais e mais. À visão do machado, nas mãos de seu agressor, tentou gritar. Impossível. O homem aproximou-se e parou a pouco mais de um metro de sua última vítima.

O vento frio soprou dentro da casa, enregelando todo o ambiente. Emilly encarava o homem do machado. Seu corpo tremia; os olhos esbugalhados. Do quarto, ouviu-se o som de cascos caminhando sobre o assoalho de madeira. Emilly olhou por baixo das pernas do homem do machado e viu um enorme bode negro, andando em duas patas, atravessar a porta. Ele a encarou, com olhos flamejantes, e sorriu.

Emilly, apavorada à visão do bode negro, não ouviu o pedido de desculpas de seu pai, antes do golpe final. O machado desceu impiedoso, partindo sua cabeça ao meio.

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