Explorando Pensamentos ou Como Utilizar Personagens Pelo Lado de Dentro


Um dos grandes diferenciais da literatura é a possibilidade de se estar muito mais próximo dos personagens do que em outras mídias. Via de regra, filmes são ótimos para mostrar o que acontece do lado de fora do personagem. O livro é ótimo para mostrar o que acontece dentro.

E acredite quando falo que o lado de dentro é mais importante.

Veja bem, nós consumimos histórias porque queremos viver novas vidas, sentir novas coisas, experimentar novas situações. Ninguém lê A Guerra dos Tronos para saber o que Tyrion faz ou diz. Nós lemos para estarmos lá com ele e sentirmos o que ele sente naqueles grandes momentos.

Nós queremos uma grande experiência emocional e a melhor maneira de alcançá-la é por meio dos personagens.

Então por que tanta gente se recusa a explorar os aspectos internos de seus personagens e acaba escrevendo um “filme para ler”?

Medo? Insegurança? Desconhecimento? Talvez um pouco de tudo.

Sempre achei que o truque para explorar o interior de um personagem era me imaginar como ele — algo como uma mini sessão de RPG. Tento assumir o seu papel e identificar sentimentos e suas consequências. Então mostro tudo.

Compare:

A porta do elevador abriu e Fulano saiu para a garagem do prédio sem tirar os olhos da tela do iPhone. Mal deu dez passos quando foi jogado contra a parede. De repente sentiu a lâmina fria contra seu pescoço. Fulano teve medo.
A porta do elevador abriu e Fulano saiu para a garagem do prédio sem tirar os olhos da tela do iPhone. Mal deu dez passos quando foi jogado contra a parede. De repente sentiu a lâmina fria contra seu pescoço.
“Meu Deus”, pensou ele. “Eu vou morrer”.
Imediatamente lembrou da esposa e da filha pequena em casa, aguardando para jantar.
A boca ficou seca. Suas pernas perderam a força e o estômago embrulhou. Lutou contra a vontade de vomitar.

Entende o que estou dizendo? No primeiro exemplo eu apenas contei. No outro eu mostrei.

Mas tem mais ali, certo? Eu sei que você é uma pessoa atenta e percebeu que, além das reações físicas geradas por um sentimento, eu inseri algo mais no exemplo. Algo que faz toda a diferença:

“Meu Deus”, pensou ele. “Eu vou morrer”.

Pensamento. O personagem pensa.

Podemos usar o pensamento como algo instintivo e reflexivo. Isso gera identificação porque todas as pessoas fazem. E como todas as pessoas fazem, seu personagem também deve fazer.

Mas dá pra ir além.

É possível realizarmos uma análise mental, um monólogo interno ou até mesmo um fluxo de consciência.

A análise mental ocorre quando nós, como narradores, expomos o que o personagem pensa.

O monólogo interno surge quando o personagem exprime seus pensamentos de forma lógica, quase como se conversasse consigo mesmo. Em outras palavras, damos voz às análises, dúvidas e decisões de nosso personagem. Particularmente acredito que o monólogo interno deveria ser usado pelo menos uma vez por capítulo, mesmo que de forma curta.

Por fim, o fluxo de consciência escancara o próprio processo mental do personagem em uma série de pensamentos que se sobrepõem e também escorregam para os aspectos mais simbólicos do subconsciente. Pode ser desarticulado, ilógico e sem sentido aparente. Imagine mergulhar fundo na mente de um esquizofrênico e tentar perceber a realidade da mesma forma que ele a percebe. Desafiador, não? A obra O Som e a Fúria, do Falkner, é famosa pelo uso magistral desta técnica.

Saber como compartilhar a alma de nossas criações é uma perícia que todo escritor deveria se preocupar em desenvolver. Ela aproxima o leitor do personagem e aumenta a identificação; o que acaba por gerar maior emoção e envolvimento com a obra. No fim das contas, tudo fica muito mais real e compreensível.

Dê uma espiada na forma como George Martin consegue nos levar para dentro da mente de seus personagens a ponto de nos tornarmos cúmplices. Podemos até mesmo não torcer por aquelas figuras, mas nós certamente as compreendemos e nos identificamos com elas. E se você conseguir fazer isso nas suas histórias, eu garanto que os leitores voltarão para mais!

E aí, o que está pensando agora?

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