Relato do Leitor: Como me preparei usando o “Escrevendo na Prática”

Hoje temos um post um pouco diferente, mas que eu gostei bastante.

O Caio, um leitor bastante ativo aqui do site, entrou em contato comigo e me explicou como tinha usado as dicas da série Escrevendo na Prática em sua própria história.

Eu pedi pra ele fazer um relato sobre a experiência e, muito gentilmente, ele me mandou o texto abaixo.

Veja como o Caio conseguiu compreender os pontos centrais da criação de uma história e usou isso a seu favor, para guiá-lo no processo. Você também pode conferir o site dele clicando AQUI.

Vamos ao relato…


O escritor é como um mochileiro que viaja pela Europa em busca de emoção, aventura e beleza. Queremos caminhar e admirar a paisagem, conhecendo pessoas interessantes e vivendo momentos de tirar o fôlego. Porém, não conhecemos o caminho.

As dicas do Escrevendo na Prática me serviram como um Guia Turístico, me ajudando a elaborar o roteiro de viagem, para que eu não me perdesse e conseguisse chegar até o destino final.

Começou com uma leitura despretensiosa. Eu nem sequer pretendia começar algo novo, estava no começo da escrita de um projeto de meses, porém, voltando à analogia do mochileiro, havia parado um pouco logo ali na Espanha. Estava por lá há um mês, sem conseguir me lembrar onde era o próximo país que visitaria em minha caminhada.

Ou seja, eu não conseguia passar do terceiro capítulo do tal projeto.

Foi lendo os artigos que eu percebi uma coisa: eu estava perdido porque não havia me preparado o suficiente para a caminhada. Sim, eu fiquei três meses pesquisando sobre o que eu queria escrever, tracei meu local de origem e minha linha de chegada. Mas, o que teria no meio do caminho?

Resolvi, enquanto lia a oitava parte, arriscar.

Estava cansado daquela viagem que não ia a lugar algum, então resolvi que talvez fosse melhor voltar ao Brasil e começar outro roteiro. Coloquei o antigo projeto na gaveta e peguei meu caderno de anotações. Voltei ao primeiro artigo, e comecei a listar os meus “E se?”

E as primeiras coisas que saíram eram desanimadoras. Foi por volta da quinta que eu tive uma ideia interessante…

“E se a Terra fosse plana?”

Desenvolvi essa ideia e juntei a minha paixão por Dungeons & Dragons e fantasia medieval. Assim começou a criação do que batizei de “Projeto Samhain”, em homenagem a um festival Celta.

Logo no início, eu me deparei com um problema. Eu tinha a ideia, tinha um cenário. Mas, qual tema escolher? Demorou. Bastante. Eu fiquei um bom tempo debruçado pensando em diversas opções. Confesso até que, por um momento, considerei roubar o tema de Mortos-Vivos & Dragões, mas eu sabia que meu livro não estava ali. Depois de muito pensar e anotar, consegui tomar uma decisão:

Meu livro era sobre conflitos morais.

Junto com o tema veio a principal trama da história. Eu sabia que precisava escolher bem uma forma de retratar minha ideia e, ao mesmo tempo, encaixá-la no tema. E uma das primeiras palavras que veio na minha cabeça foi “mercenários”. Minhas personagens principais seriam pessoas que fariam qualquer coisa em troca de um punhado de dinheiro — ou quase isso, pois eu ainda queira encaixar a questão moral.

Primeiro, decidi que o grupo se conheceria logo no início do livro, e passariam juntos pelas aventuras, tal como um velho grupo de RPG. Mas, eu precisava de uma ameaça forte para criar o “Ponto Sem Retorno”, eu precisava queimar a ponte. Lembrei-me de algumas anotações de um outro projeto muito antigo e logo descobri qual seria o Ponto Sem Retorno perfeito.

Decidi que uma organização religiosa poderosa e influente estava caçando mercenários por todo mundo, e organizaram um ataque massivo onde estavam reunidos os quatro aventureiros: um festival famoso entre mercenários do mundo inteiro. Era o alvo perfeito para a organização religiosa e o motivo ideal para unir os protagonistas da história.

Fugindo do festival eles seriam obrigados a se unir e buscar proteção e ajuda numa ilha conhecida por ser refúgio de mercenários. A ilha também estava organizando um contra-ataque para destruir a cidade onde ficava a principal sede da seita religiosa antagonista.

A narrativa estava ali, bastava preencher lacunas. Eu sabia de onde partir, e aonde chegar. Porém, ainda não havia definido quem eram essas pessoas que estavam lutando por sua vida.

Decidi que seriam quatro. Queria um casal, uma personagem praticante de magia e uma ladra. Mas, o que realmente importava, era como esses personagens se relacionavam com o tema.

Achei que seria interessante se todos eles fossem boas pessoas, que estavam naquela vida para ajudar os necessitados. Mas, depois de notar que eu não estava escrevendo um livro infantil, resolvi dar mais profundidade nisso. Acabou ficando assim:

Analee — A personagem que abomina a expressão “sexo frágil”. Uma bárbara agressiva e que fala apenas o necessário, geralmente deixando seu machado falar por ela. Apesar de sua força e falta de modos, é uma boa pessoa e aceita trabalhos que ela e seu marido julgam corretos.

Darius — Um desertor da seita religiosa que resolveu ir contra seus irmãos depois de conhecer alguns mercenários que o acolheram e protegeram durante uma guerra. Após apaixonar-se por uma das integrantes do grupo, o grandão resolveu sair e ir atrás da mulher que havia roubado seu coração dos deuses.

Coral — Inicialmente ela seria uma ladra. Mas resolvi fazer um pouco mais do que isso. Uma assassina de aluguel, de fato. Fria, calculista, silenciosa e, principalmente, mortal. Diferente de Analee e Darius, Coral não pensa duas vezes antes de aceitar um trabalho e sempre está do lado de quem paga mais.

Neil — O praticante de magia. É um rapaz determinado, que perdeu a família por causa dos caprichos de um monarca. O jovem mago assumiu uma tarefa que muitos consideram suicida e impossível: limpar o mundo da monarquia, exterminando todos os reis e dando o poder ao povo oprimido. Mas uma missão tão drástica necessitava de preparação, então Neil resolveu enriquecer realizando trabalhos para assassinar pessoas importantes e de alta classe, nobres.

Não foi difícil decidir que a personagem que mais iria brilhar seria Neil. Ele tinha um passado trágico que empurrava o personagem, era o mais inteligente e, ao mesmo tempo, o mais fraco fisicamente. Suas motivações eram claras e logo sua personalidade se formou na minha cabeça. E depois os outros foram assumindo seus papeis.

Em pouco tempo, as principais personagens estavam prontas.

Porém, a minha viagem estava apenas começando.