Frágil | Este lado para cima

Uma reflexão sobre mudança

Giro a chave: duas vezes a normal, duas vezes a tetra, abro a porta. Entro e sinto que estou invadindo a casa de alguém: lá está um mini apartamento novinho, semimobiliado, um lugar que estive poucas vezes e que diria até mesmo que é de outra pessoa se não fosse a decoração minimalista com bibelôs do McLanche Feliz, que estavam no meu antigo quarto.

Assim como ainda não consigo chamar meu cunhado de “marido da minha irmã” porque se casaram há 2 meses, não consigo chamar esse lugar que acabei de entrar de “casa”. Como são fortes e significativos os jogos de linguagem nas nossas vidas, né? A relação “casa” e o entendimento do que é minha casa não se estabelece assim de uma hora pra outra mesmo não. Ali ainda é “kit” e minha casa é a “casa”, uai.

Isso porque mudar é uma coisa estranha em diversos sentidos (e direções). Principalmente quando se vai morar sozinho. Mais ainda quando se vai para um lugar de proporções completamente diferentes da sua casa anterior.

Primeiro porque qualquer mudança deixa claro que você ocupa muito mais espaço que você imagina. Essa noção já temos quando vamos viajar. Sempre temos que levar escova de dente, porque vamos comer em algum momento, levar mais de uma roupa, porque vamos precisar no dia seguinte, levar uma roupa de banho, caso dê vontade de nadar. Mas na mudança, pensamos em muitas necessidades a longo prazo (e descobrimos outras tantas), e aí cai a ficha de que somos muito mais que um corpinho vagando pelo mundo. Todos, tendo muito ou pouco, somos além de nós mesmos um monte de tralhas. Somos roupas (e roupas que quase nunca usamos), livros, xerox da universidade, remédios, um telefone celular, seu carregador, objetos e mais objetos.

É bizarro pensar o tanto de coisa que precisamos ter e comprar para existir e ficar bem. E é chocante perceber que podemos viver com muito menos do que temos. Já parou para pensar quantos pijamas realmente precisamos possuir? Ou, será que precisamos ter pijama? Tudo isso me faz pensar que, mesmo não me considerando consumista, minha existência depende do consumo, porque vivemos numa sociedade de consumo simplesmente. Atribuímos valores às pessoas e a nós mesmos, superficialmente, com base no que temos ou deixamos de ter. Mas independente do valor que damos, o ponto é que nossa existência implica em “ter coisas”. E esse fato grita quando se tem que carregar essas coisas de um lugar para o outro.

Como é fácil para esses objetos, uma vez no lugar, ficarem paradinhos lá no canto deles, e como é uma dificuldade imensa para a gente se mover no novo espaço. Seja qual for a mudança, seu corpo sempre tem que se adaptar ao novo habitat. Não dá para pegar água no meio da noite sem acender a luz, não dá para lavar o rosto na pia sem achar que vai bater a cabeça no armário — ou mesmo esquecer o que está guardado dentro dele e abrir a porta sem querer procurando algo que não está lá. É estranho, é como usar uma calça frouxa ou apertada demais: você não foi feito para ocupar aquele espaço.

E, por mais nos esforcemos para preencher esse espaço de coisas, estar sozinho ali é um esvaziamento, um esgotamento mental. Você chega, é novo, não tem nada. E o pior: não tem internet, a não ser a do celular. Isso soa muito como um “classe média sofre” e talvez seja mesmo. Mas como a ausência da internet, somado ao fato de estar sozinho, faz uma falta gigante! Desde quando ela se tornou tão necessária? Desde quando a internet faz de casas verdadeiros lares?

Já que a internet não está lá, a televisão poderia estar. Mas também ainda não apareceu. Nesse contexto, a ideia de que os meios são extensões da nossa consciência significam bastante para mim: ver TV e dar scroll no Facebook é de fato se abster de pensar por um momento, é deixar que o conteúdo do meio pense por nós. Não no sentido de dominação, mas de ocupação. E, nesse caso, ocupar um espaço na mente, estender a sua função, para que eu mesma não tenha que ficar pensando em estar só e todos os outros pensamentos que podem vir com isso.

Ficar sozinho, entretanto, pode ser interessante para a contemplação. Observar a si, internamente, e observar o novo espaço. Antes acordava com passarinhos, agora com um barulho de obra dos infernos. À noite tinha o som de carros na pista, de cachorro latindo, já na nova casa a falta de vizinho permite a gente escutar o silêncio.

Se é melhor ou é pior, ainda não sei. É novo. Provoca. Acho que toda mudança é assim, estendendo aí o sentido de “mudar”. Cabe deixar o tempo fazer do espaço cotidiano.