Como parar de usar shampoo

Princípios para entender as técnicas de “no poo”, “low poo” e “water only”

Faz alguns anos, li um artigo sobre o no-poo, explicando a questão do uso dos shampoos ser bastante recente na história, afinal, “Índios não usam shampoo”. E eu caí na neura de que Lauril Sulfato de Sódio é um vilão do mundo dos químicos sintetizados e dá câncer. A ANVISA desmente o fato, mas como não acredito que tudo que não está cientificamente provado necessariamente não vai fazer mal, continuo evitando seu uso no meu corpo no dia a dia. No entanto, uma outra substância, o 1,4 Dioxano continua como possível agente carcinogênico.

Anos se passaram, e a nova vedete do mundo natureba e dos cuidados do cabelo chama-se “no poo”, “low poo”. O número de sites com protocolos de tratamento, receitas caseiras, marcas recomendadas e experiências de transição capilar vem crescendo. Conhecidas marcas des cosméticos começam a lançar linhas No Poo/Low Poo. Mas nas minhas navegações pela internet, não achei nada que explicasse a fundo os princípios e fundamentos das técnicas. O princípio de base resume-se a não usar produtos de beleza com petrolatos nos cabelos. Considera-se que os petrolatos impermeabilizam os fios, dando um aspecto bonito no cabelo, mas não permitindo o tratamento mais profundo da fibra capilar. Já no “no poo”, o uso de silicones é também banido. O site e-cycle apresenta uma boa síntese sobre como atuam os silicones aceitos nessas técnicas.

Esse texto tem por objetivo explicar os princípios de limpeza dos cabelos (e do couro cabeludo), agrupando exemplos e técnicas como no poo, low poo, dentre outros. Não apenas de limpeza, mas de tratamento dos fios.

Usar menos produtos químicos na higiene íntima pode ter diferentes razões: cuidar da saúde, poluir menos, depender menos da indústria química, e até mesmo, economizar dinheiro.

Índios talvez não usassem shampoos, mas plantas e minerais têm sido usados há tempos pela humanidade para a higiene e limpeza.

Mas para entender essas técnicas e receitas caseiras, é preciso entender um pouco sobre a pele, os pelos e o cabelo. Cabelo, por sinal, é o nome dado ao amontoado de pelos que cobre a pele na região do crânio. Em vários idiomas usa-se a mesma palavra para se referir a pêlos do corpo ou os do cabelo: espanhol=pelos; inglês=hair; italiano=capelli; alemão=haar.

Pele, pelos, cabelo: o que são?

Nas aulas de histologia, sobre a formação dos tecidos nos seres vivos, aprendemos que pelos são apêndices da pele produzidos no folículo piloso. Apenas mamíferos possuem pelos, sabia?

O folículo piloso origina-se da epiderme. O folículo piloso é um “órgão” irrigado em sua base, e possui um músculo atrelado a ele, que faz, por exemplo, os pelos eriçarem.

Outras estruturas que se encontram na pele são as glândulas sudoríparas, as glândulas sebáceas, além de terminações nervosas. Em diferentes partes do corpo humano, as concentrações dessas estruturas variam. Não é a toa que em geral suamos mais nas axilas, e temos pouca oleosidade nas palmas das mãos. E as células que formam a epiderme também variam de uma região a outra do corpo. Pensa na textura da sola dos seus pé, e compare com a pele dos seus órgãos genitas. É tudo pele, mas é diferente.

Um fato importante é saber que a mesma estrutura que produz os pêlos, o folículo piloso, é por onde as glândulas sebáceas eliminam as suas secreções, lipídeos, as gorduras e os óleos que tem como função proteger a pele através da acidificação do meio.

Ainda sobre a pele, a epiderme está sempre em renovação. Como a pele é nossa barreira física de contato com o mundo, as células da pele estão sempre morrendo e se regenerando. Então, além da pele viva, sobre a pele há um pequeno cemitério das células mortas da epiderme, que precisam sair dessa superfície em algum momento.

Os pelos do couro cabeludo (cabelo), costumam crescer continuamente em um mesmo folículo durante 5 anos. Depois deste período, o crescimento pára, o fio cai, e após 2 ou 4 meses o fio volta a ser produzido neste folículo.

O pelo/ Cabelo

O pelo pode ser dividido em duas partes a raíz, e a haste. A raíz é o ponto de origem do cabelo, onde ele é sintetizado, onde ele ganha vida. A haste é o sai pra fora, o tecido morto queratinizado. A espessura dos pelos varia conforme a região do corpo e o metabolismo da pessoa. Há fatores genéticos envolvidos.

Essa parte que chamamos normalmente de pelo, a haste queratinizada, pode ser dividida em 3 partes, de fora para dentro: a cutícula, o córtex e a medula.

Por mais que não existam relações diretas e claras entre alimentação e saúde dos fios, imagino ser possível traçar essas ligações. Por exemplo, fios de cabelos podem ser analisados para identificar o consumo ou não de drogas. Se drogas ficam alojadas entre as células mortas dos fios de cabelo, porque outras substâncias não ficariam?

Essas informações são importantes para entender o funcionamento das substâncias e receitas caseiras usadas no tratamento dos fios: bicarbonato de sódio, argilas, suco de limão, chás, babosa, entre outros.

A medula do pelo
A medula é a estrutura mais interna do pelo, o que dá sustentação. Comparado a uma casa, seriam os alicerces. A medula pode conter vazios entre uma célula e outra.

O cortex
O cortex é a parte mais volumosa do fio, e o que dá as propriedades físicas e mecânicas dos fios. A maior parte do cortex é formada de queratina, uma proteína fundamental à estrutura dos fios. Também é no cortex que estão presentes as pontes de dissulfeto, que dão ao cabelo os cachos. Quanto mais pontes de sulfeto, mais cacheado o cabelo.

A cutícula
A cutícula é o revestimento do cabelo, a parte mais superficial, que forma uma camada de proteção ao fio.

Curiosidade: A cor do pelo definida na raíz, a partir da quantidade de melanina produzida pelos melanócitos no folículo. A melanina fica alojada no cortex capilar. Além da quantidade de melanina, os espaços vazios na estrutura do cortex fazem parte do processo de diferentes cores, tonalidade e brilho de um cabelo para outro a partir dos reflexos da luz. Em geral, os pelos começam a ficar brancos a partir dos 40 anos, com a perda dos melanócitos nos folículos.

Os Shampoos

Na minha infância eu me lembro da existência de 3 tipos de shampoos conforme os tipos de cabelos: oleosos, normais ou secos. Conforme fui crescendo, descobri os shampoos para cabelos mistos, cabelos tingidos, cabelos cacheados, cabelos claros, cabelos escuros, cabelos com caspa, cabelos grisalhos. Só faltou lançarem shampoos para cabelos carecas.

Quando “virei hippie”, comecei a rever meus hábitos de consumo e produtos. Vão se aí uns bons 10 anos procurando alternativas aos shampoos tradicionais. Procurei marcas naturais, artesanais ou orgânicas. Voltei aos shampoos convencionais. Passei 2 semanas sem usar nada a não ser água. Passei argila. Passei babosa. Mas nada deu o efeito que eu quero no longo prazo. Sigo buscando soluções.

E por que lavamos os cabelos? Para retirar excesso de gordura produzido pelas glândulas sebáceas, os sais minerais, proteínas e açúcares eliminados junto ao suor, remover células mortas, tudo isso produzido pelo nosso próprio corpo, além de tirar poluição, poeira, cheiro de cigarro, e mais um monte de coisa que cola nos fios ao longo do dia. Podemos querer lavar o cabelo só pra refrescar a cabeça também.

Pensando nisso, para que servem os shampoos? A maior utilidade de um shampoo é a sua propriedade de tensoativo. Tem a ver com físico-química, mas basicamente, por serem “bipolares”, conseguem se ligar a substâncias completamente, como água e gordura, que como sabemos, não se misturam. É a propriedade “detergente” que buscamos.

A questão que complexifica a coisa é que há diferentes tipos de tensoativos. Eles podem ser divididos entre aniônicos, catiônicos, não-iônicos e anfotéricos. E possivelmente, esses princípios irão ajudar a compreender o porquê de no co-wash se usar o condicionador (geralmente, de caráter catiônico) ao invés do shampoo (geralmente, com substâncias aniônicas). O Lauril Sulfato de Sódio é um aquil-sufato do tipo aniônico. Em geral, a Betaína é descrita como um tensoativo do tipo Anfotérico. No entando, na química, betaína é um termo genérico para moléculas que tem cargas positivas e negativas, não necessariamente um surfactante. No caso do mundo dos “surfactantes de cuidados e higiene pessoal”, via de regra, betaína refere-se a Cocamidopropil Betaína (CABP). Surfactantes anfóteros tem carga elétrica neutra, porém a molécula tem na mesma molécula uma carga positiva e uma carga negativa. O Dossiê Técnico de Fabricação de Produtos de Higiene Pessoal da REDETEC possui mais detalhes sobre a química dos shampoos e condicionadores. Mas isso ajudará você a entender o porquê de cada um em cada técnica.

A oleosidade capilar talvez seja a grande questão no processo de limpeza dos cabelos. Nos cabelos oleosos, ela é excessiva. Nos secos, falta. No entanto, os lipídeos produzidos no couro cabeludo tem como função proteger a pele e os próprios fios.

As técnicas

Os princípios dos métodos “alternativos” que você precisa entender são:

No poo: Lavar os cabelos sem o uso de shampoos. O cabelo pode ser lavado com água apenas, ou com a técnica chamada de co-wash. Co-wash é a técnica de lavar os cabelos com produtos tensoativos suaves, em geral, condicionadores catiônicos. Além de produtos sintéticos, limão e bicarbonato são às vezes usados como coadjuvantes dessa limpeza.

Low poo: Uso de shampoos com tensoativos leves. Mas não se usa produtos com parafinas, óleos minerais, silicones insolúveis, e geralmente são produtos sem sulfatos.

Water Only (água apenas): é uma técnica em que não usa mais nenhum tipo de tensoativo sintético. O cabelo é limpo usando-se água quente. Em geral, é preciso passar pelas etapas de Low-poo ou no-poo antes, além de haver um período em que o couro cabeludo ficará muito oleoso. E a parte mais importante da limpeza é a escovação, distribuir o óleo produzido no couro cabeludo ao longo de todo o fio. Há alguns protocolos deste tipo de limpeza disponíveis em inglês aqui, aqui e aqui.

E agora, como lavar meus cabelos?

Para cada cabeça, uma sentença!
As sugestões aqui abaixo são baseadas em leituras, conversas com amigas, cabeleireiras e dermatologistas, e alguma experimentação doméstica.

As receitas detalhadas e análise de seus princípios ativos serão feitas em novos textos.

Cabelos secos

Quem tem cabelos secos, pode tê-los secos por duas razões: não produzir oleosidade suficiente no couro cabeludo ou não conseguir distribuir essa oleosidade ao longo do fio. De qualquer maneira, o problema nesse caso não é o excesso de oleosidade, mas

Cabelos cacheados costumam ser mais secos porque é mais difícil a oleosidade se distribuir da raíz às pontos ao longo de um fio cacheado, do que de um fio liso. As técnicas de No-poo/Co-wash são as mais indicadas.

Além dos produtos industrializados, há diversas receitas caseiras usando limão, babosa e óleos vegetais para a produção de máscaras e outros tratamentos para os fios.

Cabelos oleosos/mistos

Cabelos oleosos em geral são mistos. Meus cabelos se enquadram nessa categoria. Um dos problemas dos cabelos oleosos é o excesso de sebo produzido no couro cabeludo. Estou atualmente fazendo low-poo, e vou analisar a viabilidade de entrar para o water-only em alguns meses. A escovação também auxilia a distribuição do óleo ao longo do fio, cuidando melhor das pontas.

Para tratar o couro cabeludo, há pessoas que usam argila. No entanto, como a argila retira a oleosidade, ela pode também levar ao efeito rebote, fazendo com que o couro cabeludo produza mais oleosidade do que precise.

A outra opção usada por algumas amigas, e massager o couro cabeludo com óleo de amêndoas ou argan, de maneira a reduzir a produção sebácea das glândulas.

Cabelos normais

Se meu cabelo fosse normal, eu tentaria a técnica de “water only”. Seu couro cabeludo deve ter uma produção sebácea já equilibrada, e com o uso adequado da técnica, pode balancear-se rapidamente apenas com o uso de água quente e boa escovação.

Espero que este texto ajude as novatas e novatos nos métodos alternativos de limpeza capilar.

Leia também a parte 2: No-poo e Co-wash.

Para saber mais sobre a fisiologia dos cabelos
The human hair: From anatomy to physiology. International Journal of Dermatology 53 (3). 2013.