Eu, minha mãe, e a PEC das empregadas.

Um conto sobre a PEC das empregadas

Nasci nos anos 80, na classe média paulista. Vivi em apartamento desde o dia em que saí da maternidade, de uma cesárea com dia e hora marcados (curiosamente, um feriado, o dia de luta de trabalhadores).

Assistia em média 8 horas de TV por dia porque no prédio não tinha “playground” e a rua era perigosa, uma avenida, ainda que não muito movimentada. Aprendi a ler e escrever com a Revista Veja que chegava todos domingos na portaria, fazia meus deveres de casa na companhia da “Sessão da Tarde” e das reprises de “Vale a Pena Ver de Novo”. Comia Sucrilhos com Nescau todas as tardes, e esperava pela chegada dos meus pais no fim do dia. Até essa hora, eram as empregadas quem cuidavam de nós.

Raimunda foi minha primeira babá. Cuidava de mim quando meus pais trabalhavam. Minha mãe, que fazia o turno da noite porque era a sua condição de trabalho, me deixava com meu pai, que era o responsável por mim durante as madrugadas. Não me lembro de Raimunda, eu era bebê. Só a conheço por fotos.

Com o nascimento de minha irmã, veio Joaninha (que acabou engravidando), filho este que acabou se tornando afilhado da minha mãe, no meio dessas complicadas relações de trabalho e de “ser da família”. Ela ficou por bom um tempo trabalhando em casa, morava do outro lado da passarela, e às vezes íamos com ela ou com minha mãe visitar sua casa.

Depois vieram muitas outras. Viviam no quarto de empregada. O quarto era simples. Havia uma cama, a cômoda, e a famosa “bagunça”. As tralhas e quinquilharias que toda família acumula ficavam também, estocadas neste quarto, nesse espaço que era dela, mas também das coisas a serem colocadas de lado, escondidas.

Eu era pequena, a linearidade da memória não volta por completo. Mas lembro de uma que tinha um bebê pequeno, acabou não se adaptando, e ficou muito pouco tempo. Lembro de outro caso, de uma que roubava as coisas de casa. Demoramos algumas semanas para perceber, mas lembro do dia em que fomos de carro até a casa dela para pegar as coisas de volta: roupas da minha mãe, basicamente, e uma outra bijuteria minha e da minha irmã. Lembro de umas bem novinhas, talvez fossem até menores. E de quando íamos buscá-las de carro em pequenas cidades do interior.

Mas a que conviveu comigo já mais velha, e de quem eu realmente me lembro e guardo um carinho imenso é a Sandra. Nunca esqueço do seu aniversário, mas hoje não tenho nem endereço nem telefone dela para enviar uma mensagem no fim de março, data do seu aniversário. Ela viveu anos em casa. Lembro das horas que passava ao seu lado na área de serviço enquanto ela passava a roupa. Era o único momento em que ela ficava com a gente, eu e minha irmã, sem se preocupar muito que a gente atrapalhasse. Ela contava suas histórias de adulta, e a gente, as nossas de criança, enquanto ouvíamos pagode na Transcontinental, 104,7 FM. O sonho que ela tinha na época, era um Kadett branco conversível. Não lembro o porquê de ela ter saído de casa. Só sei que ela foi embora, e eu nunca mais tive notícias. Minha mãe depois me explico, que ela achou outro emprego depois que terminou o curso de informática que ela fazia aos sábados.

Minha mãe não gostava de chamá-las de “empregadas”, menos ainda de “domésticas”. Ela usava o termo “secretária”, outras vezes, “ajudante”. Sempre achei que os termos eram mais para a auto-estima da minha mãe, a patroa, mas anos depois, olhando de novo para a situação, acho que era pensando mais na auto-estima dessas mulheres, onde ela também se reconhecia.

Pela noite elas não trabalhavam, disso sim eu me lembro. Assistiam à TV na sala com a gente, mas jamais preparavam janta. A comida da noite, era um lanche ou qualquer outra coisa, por conta dos meus pais. Também podiam fazer o que quisessem no final de semana. Mas é verdade, a casa era nossa, e elas não convidavam ninguém, nunca, para vir. Vez ou outra, uma amiga passava rapidamente para que saíssem juntas, nas sextas-feiras.

E também não podiam comer o que quisessem. Lembro que os Yakult eram para mim e minha irmã, e que as barras de chocolate ficavam guardadas em um armário da sala, e não na cozinha.

Eu fui criada por essas mulheres maravilhosas, que por diferentes razões, se sujeitaram a viver em um quarto cheio de bagunça no oitavo andar de um apartamento, tolerar a mim e a minha irmã, limpar, cozinhar, passar, além de lavar as cuecas e calcinhas sujas de toda a família. E agradeço profundamente a cada uma delas.

Demorei muito para ter que lavar minha própria louça, calcinhas, ou arrumar a cama pela manhã (atividade que até hoje, não gosto e fazer).

MINHA MÃE

Minha mãe nasceu na roça, de parto natural. Minha avó morreu sangrando, bem doente por falta de tratamentos médicos no interior de Salesópolis. Minha mãe ficou órfã de sua mãe com menos de 7 anos, e meu avô deu os filhos para os parentes criarem. Me narrou as vezes em que punha lombriga pra fora, ou que comia terra: ficava com vontade quando sentia o cheiro da terra molhada.
 
Com a morte da minha avó, foi viver na casa de parentes. Morava ela, a irmã mais velha (minha tia), e o irmão mais novo (meu tio). O mais novo foi adotado pelo casal porque ainda era bebê. Minha mãe e minha tia eram família, mas não eram tratadas como filhas. Chegavam da escola e tinham que ajudar a limpar, lavar, passar, todos os dias. E se não ajudassem, dá-lhe adjetivo: “vagabundas”. Apesar de viver com a madrinha, todas as crises de patroa-empregada que se possa imaginar: panos engomados, panelas areadas, a lavagem feita à mão, tecidos brancos postos para coarar, as coisas bem arrumadas, os badulaques da sala limpos (e o medo de quebrar, derrubar, cair?), o chão encerado… A imagem de alguém passando o dedo em cima de um móvel para ver se está empoeirado e se foi bem limpo chega a me dar nojo. No entanto, tinham seu quarto dentro da casa, podiam comer quando queriam, e ganhavam roupa nova no Natal, costuradas pela própria madrinha.
 
Já mais velha, aos 10–11 anos, decidiu que queria juntar uns trocados para poder comprar suas coisas, e passou a trabalhar “formalmente” na casa dos outros. Ainda morava com a madrinha, mas saía direto da escola para a casa de uma família, onde lavava a louça do almoço e colocava ordem na casa. Quando se mudaram para Mogi, minha mãe foi junto. Dividia o quarto com a filha mais nova do casal. Chegou a ir embora depois de um tempo, mas a ex-patroa sempre chamava quando ficava sem empregada. E fazia um bolo com coco e creme maravilhoso (que minha mãe podia comer a vontade). Mas não à mesa, porque era uma família muito chique.
 
Mais tarde, foi trabalhar na casa de uma prima: trocas de fraldas, banhos na molecada, pentear e desembaraçar o cabelo da filha da patroa. E aos finais de semana podia ir junto nos passeios da família. Assim como minha mãe é madrinha do filho da empregada, a madrinha da minha irmã é esta antiga patroa/prima da minha mãe.

Realmente, minha mãe deveria agradecer a todas essas famílias que lhe deram teto e comida quando ela precisava, às custas de casa limpa, comida preparada, e roupa lavada — tudo por ela.
 
Ninguém nunca assinou a carteira de trabalho de minha mãe, ou pagou algum tipo de direito trabalhista para ela nesse período. Para as patroas, eram elas quem estavam fazendo um favor, dando uma oportunidade para a minha mãe, ainda criança ou adolescente, de trabalhar e ter onde dormir.

A PEC DAS EMPREGADAS

A PEC não é só sobre direito. Menos ainda sobre aumento dos gastos e encargos trabalhistas. A PEC da empregada é uma luz no fim do túnel do nosso passado escravocrata, da nossa cultura da exploração, e dos jeitinhos. Desta cultura de apadrinhar o trabalhador. É definir o limite entre nas relações de trabalho entre patrão e funcionário.
 
Essas mulheres, domésticas, não são da família. Não vão ficar com a sua herança. Os filhos delas não estudam nas mesmas escolas que os seus, não comem a mesma comida que os seus filhos. Elas não vestem as mesmas roupas que você — ok, vestem, depois que os seus filhos crescem ou que você já não quer mais — , não têm o direito de convidar ninguém para a casa delas, não podem dar palpites na decoração, ou decidir o que se compra ou não para a dispensa. Porque é a sua casa, não delas, é elas só tem o direito de dormir lá.
 
Elas são funcionárias. Quando eu tinha “vida de gente grande”, trabalhando as bem mais de 40 horas por semana e ainda viajando a trabalho, a diarista que vinha em casa, Cida, ganhava o mesmo valor de hora de trabalho que eu. Decisão minha. Ela não ia lá para fazer tudo. Vinha para fazer um pouco do que eu não queria fazer nos fins de semana, o que não me isentava de lavar louças, roupas, tirar o lixo e mesmo limpar algumas partes da casa durante a semana.
 
Se a sua preocupação é com a roupa que ela vai queimar, o badulaque decorativo frágil de cerâmica das últimas férias que ela pode acidentalmente derrubar enquanto limpa a sala, a meia hora de ócio enquanto ela espera a máquina de lavar terminar de centrifugar, aprenda a gerir sua casa como qualquer empregador. Capacite-a, defina os limites, os horários, as condições. Em uma empresa, se um funcionário não tem condições de operar uma máquina, ele não opera. Se há algo de valor, o chefe guarda no cofre. Se você quer/precisa ter um funcionário dentro de casa, conviva com isso. E entenda que é uma relação de trabalho.
 
Se tem preguiça ou não quer lidar com esses novos direitos, vá lavar suas cuecas, comece a comprar roupas que não precisam ser passadas e não precisem ser lavadas à mão, organize sua agenda para cozinhar, e peça para o seu empregador ajudar a resolver a questão de cuidado com seus filhos. Porque essas mesmas mulheres que cuidam dos seus filhos, precisam achar um outro alguém que vai ser mais explorado ainda, para cuidar dos delas.
 
Se aoutra opção é “ser contra”, saia às ruas para reclamar das coisas que a gente realmente precisa: jornadas de trabalho mais curtas, creches e escolas de qualidade em horários adequados, transporte público eficiente e eficaz, cuidados de saúde adequados para idosos, equipamentos de lazer e cultura disponíveis para todos!
 
 Agora, reclamar que outro ser humano, trabalhadora, ganhou mais direitos, que as igualam perante outros trabalhadores, é de uma mesquinharia sem tamanho.
 
 — -
 Esse post é uma pequena homenagem à minha mãe, às empregadas que cuidaram de mim, e a tantas outras mulheres e meninas que perderam sua infância ou sua identidade cuidando das casas e das famílias dos outros.


Originally published at natalienaestrada.blogspot.co.uk on April 2013.

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