Hoje a saudade tem nome, sobrenome, e é canhota.

Era uma sexta de manhã quando resolvemos almoçar juntos. Ela precisava ir pra barueri visitar um cliente, eu precisava ir na paulista encontrar o Eduardo, mas contamos os minutos ali e dava pra um almoço. Barra funda as 12:00 em frente a catraca.

De onde eu tava levaria 40 minutos, pra ela eram 20. Fui ouvindo o disco da Maria Gadú que ela tinha me mostrado e lendo a Folha de SP. De todos os restaurantes que tem por ali ela decidiu pela praça de alimentação de um shopping, existe algo mais frio e impessoal do que uma praça de alimentação de shopping?

Cheguei 12:15 e ela estava lá na catraca, calça jeans e camiseta, pastas com documentos e uma bolsa, cara de quem não podia se atrasar. Uns 10 minutos depois estavamos no shopping, escolhemos um restaurante e nos servimos, sentamos bem no meio de todas aquelas mesas, nos olhamos pela primeira vez. Ficamos ali até as 21:00, não comemos nada, 16 ligações do cliente dela, 7 do Eduardo.

Hoje a saudade tem nome, sobrenome, e nunca teve uma cárie se quer.

Existem encontros que são marcados pela combinação, pela sensação de olhar no espelho e se descobrir ali naquele outro corpo. Mas existem encontros que são marcados por tudo que escapa, pelo que incomoda, por tudo aquilo que não se entende no outro. Naquela tarde nos encontramos pra entender tudo o que nos escapava.

Hoje a saudade tem nome, sobrenome, e fica vermelha quando me abraça.

Da estação pra casa dela levavam 40 minutos, pra minha 1 hora e meia. Pegavamos o mesmo metrô mas em direções diferentes, a despedida seria na escada que desce pra plataforma.Todas aquelas pastas e a bolsa no chão, nos olhamos por uns instantes e nos abraçamos. Ela não chorou, ficou com a cabeça no meu peito e apertou, eu a segurei e a tomei pra mim naquele momento. Depois de um tempo nos soltamos, ela pegou apressada as pastas e a bolsa se virou e foi pra escada rolante. Não olhou pra tras, apenas seguiu e desceu.

Hoje a saudade tem nome, sobrenome, cheiro doce, cabelo curto, não toma nenhum tipo de remedio, lava roupa de madrugada, le Dostoievisk, não bebe refrigerante, beija com doçura, faz terapia, gosta de filmes ruins, tem medo de amar e se perder, conhece todos os parques de são paulo, me disse que chorou aquele dia depois que entrou no metrô.

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