Carl Sagan e o nosso obscuro e solitário torrão de rocha e metal.

O Pálido Ponto Azul
De saturno, a Terra apareceria muito pequena para a Voyager apanhar qualquer detalhe, nosso planeta seria apenas um ponto de luz, um “pixel” solitário, dificilmente distinguível de muitos outros pontos de luz que a Voyager avistaria: Planetas vizinhos, sóis distantes. Mas justamente por causa dessa imprecisão de nosso mundo assim revelado valeria a pena ter tal fotografia.
Já havia sido bem entendido por cientistas e filósofos da antiguidade clássica, que a Terra era um mero ponto de luz em um vasto cosmos circundante, mas ninguém jamais a tinha visto assim. Aqui estava nossa primeira chance, e talvez a nossa última nas próximas décadas.

O programa Voyager foi iniciado com o objetivo de se estudar alguns planetas do sistema solar, inicialmente Júpiter e Saturno e, depois, Urano e Netuno. A Voyager 1, primeira sonda do programa que teve duas, foi lançada em 1977, tendo como destino Júpiter e Saturno, e, em 2013, chegou a sair do sistema solar, e continua em atividade até hoje. Em 1990, quando ela estava em Saturno, foi virada para tirar fotografias dos planetas que ela já havia passado. Disso, vem a foto do Pálido Ponto Azul, onde a terra é um pequeno ponto luz, no meio de um gigantesco universo.

Carl Sagan esteve envolvido no programa Voyager, e uma equipe liderada por ele colocou um disco na sonda contendo dezenas de informações sobre nós, nossa cultura, nossa língua e nosso conhecimento, e ele está por aí, para caso alguém por lá o ache. Sobre a foto, Sagan escreveu um dos textos mais bonitos que li na minha vida, e o Guilherme Briggs fez o belo trabalho de narra-lo. É poético e lindo, e fala muito sobre nós mesmos.

Pálido Ponto Azul é um dos exemplos do porquê Sagan é insubstituível. Ele tinha a capacidade de levar assunto científicos não só de modo compreensível, mas também de modo emocional e encantador. Seus livros, seu trabalho em Cosmos, suas entrevistas e seus textos, não são experiências apenas de aprendizado, mas também são emocionantes e extremamente humanas, unindo ciência e arte, ciência e poesia, ciência e admiração. Ele não divulgava ciência para um público que já gostava de ciência, mas para todo mundo, demonstrando como ela é essencial para o desenvolvimento humano.

Pense novamente nessa foto no começo do texto, você vive em um pequenino lugar em um universo gigantesco, gerado por uma série de eventos que, talvez, se apenas um deles não tivesse acontecido, nós não estaríamos aqui, nas palavras de Sagan, um acidente de geometria e óptica. Dentro de um planeta já formado, pense em como a nossa existência dependeu de diversos outros fatores, se o causador da cratera Chicxulub passasse alguns quilômetros mais distante ou se o evento vulcânico do Lago Toba tivesse matado alguns milhares a mais de pessoas, nós não estaríamos aqui. Somos, de fato, fruto de eventos aleatórios, coincidências e sortes. Como O Incrível Mundo de Gumball demonstra, somos absolutamente irrelevantes nesse gigantesco cosmos. Pensar nisso pode ser aterrorizante, mas Sagan leva para outro lado. Somos um acidente dentro de um acidente, mas nossa estadia aqui não precisa o ser também.

Nosso planeta é, de fato, muito pequeno. Mas, como Sagan fala, tudo que você já presenciou, tudo que você já leu, tudo que você tirou fotos, todas as bebidas que você bebeu, tudo que você comeu, todos os lugares que visitou, todos os lugares que você trabalhou, todos os que você estudou, todas as pessoas que você conhece, que você é amigo, que você já foi arrogante, que você já magoou, que você já fez feliz, que você ama, que você odeia, que te completam, que te fazem feliz, que você já beijou, transou, e, não só esses, mas também todos esses que ainda irão aparecer na sua vida. Tudo isso aconteceu aqui, nesse pequeno lugar, nessa fração mínima do cosmos. É o lugar em que estamos, o lugar em que estaremos, temos um compromisso com esse planeta. Sagan já comenta sobre as infinitas crueldades que uma parcela dos humanos fizeram para se tornarem líderes de um pequeno lugar de um pequenino ponto azul. Temos uma responsabilidade com esse canto do universo, somos nós que passamos a modifica-lo e a ter controle dele, e é nossa a responsabilidade de faze-lo melhor, de sermos melhores um com os outros, de cuidarmos desse canto cósmico que alberga a vida.

No discurso do presidente Kennedy, em 1962, sobre o programa lunar dos Estados Unidos, o famoso ‘‘We choose to go to the Moon’’, há uma parte em que, pondo-se de lado o nacionalismo, demonstra como o espaço é o lugar de unidade humana.

Navegamos neste novo mar porque há novos conhecimentos a serem conquistados, e novos direitos a serem ganhos, e eles devem ser conquistados e usados para o progresso de todas as pessoas. Na ciência espacial, como na ciência nuclear e em toda a tecnologia, não há uma consciência própria. Se ela se tornará uma força para o bem ou para o mal depende do homem, e somente se os Estados Unidos ocuparem uma posição de preeminência poderemos ajudar a decidir se este novo oceano será um mar de paz, ou um novo e aterrorizante teatro de guerra. Não digo que devemos ou que ficaremos desprotegidos contra o uso hostil do espaço mais do que ficamos desprotegidos contra o uso hostil da terra ou do mar, mas eu digo que o espaço pode ser explorado e dominado sem alimentar o fogo da guerra, sem repetir os erros que o homem cometeu ao estender seu mandado em torno de nosso globo.

A exploração espacial é uma demonstração sobre como somos pequenos, sobre como nossa arrogância, nosso senso de importância, nossa destruição e nossas guerras são absolutamente sem sentido. Do espaço, somos todos iguais, todos absolutamente irrelevantes, todos de uma pequena espécie, no meio de diversas outras espécies, num mundo dentre diversos outros mundos, numa galáxia dentro de diversas outras galáxias. Mesmo em 1975, tivemos uma missão cooperativa conjunta entre os EUA e a URSS, a Apollo-Soyuz Mission. Hoje, temos a Estação Espacial Internacional e as conquistas do espaço são sempre vistas como algo da humanidade, como a missão Rosetta demonstrou muito bem, sempre usamos o “ nós ”, até esquecemos que foi feita pela Agência Europeia. O universo é um lugar de unidade e cooperação, deve continuar a ser assim, e devemos importar esses valores para dentro da Terra também.

Olhar para cima deve ser o momento em que repensamos nosso lugar como humanos, sobre as coisas que fazemos, de relembrarmos a nossa responsabilidade de ‘‘nos portar mais amavelmente uns para com os outros e para protegermos e acarinharmos o pálido ponto azul, o único lar que nós conhecemos.’’

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