Comendo queijo em terra seca

“Gorgonzola na terça, sim!”

[ANTIGAMENTE]

Antes dos meus 25 anos, por aí, eu não sabia nada da vida. Eu me achava esperta por que mexia no Twitter como poucos, manjava tudo de Apple e tinha um apê só pra mim, enquanto meus ex colegas de colégio viravam as madrugadas estudando para um concurso público promissor.

“-Aqueles bregas!”
“- Porque, mãe, eu sou diferente! O meu destino é ser star.”

E com essa frase de impacto eu iniciava desavenças épicas com minha família e comigo mesma durante anos e anos e anos. Nossas brigas eram semelhantes às típicas batalhas históricas de quando o perdedor (eu), ciente do fracasso, jogava a espada no chão e entregava o cavalo ao rival (minha mãe).

Porque com 25 anos, por trás das lentes do meu ray-ban cool de publicitária recém formada, pra mim a vida não passava de uma disputa — sempre perdida — com quem viajava mais para o exterior com a grana dos pais. E eu morria de inveja mesmo assim.

[HOJE]

Este texto não é sobre viajar, muito menos sobre bens materiais e dinheiro, embora eu tenha consultado arrecém a minha conta corrente e identificado R$ 13,00 até o meu próximo salário. Este texto tem a ver com VALOR. Aquele que é diferente do preço. Aquele que você leva consigo. A experiência. Aquele que varia de pessoa para pessoa.

Inevitavelmente, eu tenho R$ 13 e em dois dias a última parcela do seguro do carro vencerá. Esse é o PREÇO que eu pago (atrasado) por não saber mais me deslocar a pé para lugar nenhum — vulgo, estar acima do peso. Em contrapartida, aqui na geladeira tem Heineken, no freezer tem um vazio moído para hambúrguer gourmet, estou sentada com o computador no colo olhando o “mundo visto de cima” no Mais Globosat, sentindo o ventinho pós chuva que vem da sacada. E tem ele aqui do lado.

ELE!

E-L-E.

Ahhhhhhhhh, ele! O queijo GORGONZOLA.

Porque se tem coisa nessa vida que eu descobri (tarde) foi ele. Ele no hambúrguer, ele com presunto parma, ele na pizza, ele derretido sobre o macarrão…E agora, neste momento (right now), se eu quiser, abro a geladeira e o encontro. Lindo, cheiroso e derretido.

Sim, ainda é terça, eu só tenho 13 reais na conta corrente, a parcela do seguro vai vencer, mas eu estou feliz . E sigo achando que as brigas homéricas com a minha mãe valeram a pena, porque se não fosse isso, hoje eu não pagaria caro para receber algum valor. Me refiro aos quase R$ 80,00 que custa o quilo deste queijo na versão mais-ou-menos, e o prazer absurdo que é chegar em casa, abrir a geladeira, sentar de frente à televisão olhando Nova Iorque de cima, comendo queijo Gorgonzola.

(e tomando Heineken).

Queijo Gorgonzola? Na terça, SIM!