Ensaios sobre a Insônia

I.

Não eram bem sons estalidos
Nem o silêncio se partindo aos poucos na noite ao fundo;
Eram fantasmas corporificados:
No taco da sala se espreguiçando,
Na porta sem calço que dizia pregar um susto,
A soleira do quarto que se arrastava em sombra,
A cadeira caminhando nos andares de cima,
O assobio que sobrevivia à fresta da janela,
No burburinho das vísceras,
Que talvez fosse medo.

Na geladeira relaxando enfim sua musculatura,
No hesitar entre a vida e a morte
da lâmpada fluorescente da cozinha,
Nas gotas do chuveiro que sobraram do último banho
E naquela que não quer descer ao ralo;
O barulho de um interruptor se deitando
Obrigando os fantasmas a se esconderem da luz.

II.

Esta é a noite dos vivos que não morrem de sono
Não querem empurrar a noite
E não suportam esperar que ela termine

É tanta gana de grudar a vida que descola as pontas.

III.

A chuva fina na madrugada é o elemento do dia que retarda sobre o asfalto
Ou é só o caminhão varredor de ruas que passa por aí.
Chuva de cidade grande não tem cheiro de chuva:
É desperdício de água,
tristeza jogada fora debalde.

A manhã depois da insônia
Sobras da insônia
Um gosto amargo, de café, pelas pessoas
E uma gota de sono que me arde os olhos;
O céu todo em cinza,
E um cachorro bebendo água
Nas poças da disposição.
No que sobra da noite só dá pra ver a vida
num monóculo contra o sol.
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