Publicitário não é Mozart. É Cartola.

Cartola estava em seu bar, o Zicartola, quando seus amigos duvidaram que ele pudesse escrever uma bela letra em poucos minutos. E assim, no improviso e por uma motivação banal, surgiram os nove versos de um dos seus maiores sucessos: o sol nascerá a sorrir.

Sem ter estudado anos de música nas melhores escolas da Europa, Cartola usava os poucos acordes do violão, ou uma caixa de fósforo, para compor sua arte.

Ele não ficava recluso por meses para encontrar a inspiração. Sua inspiração não estava no isolamento, mas nas ruas do morro, nas conversas em mesas de bar, no sorriso e nas lágrimas de quem vivia perto dele.

Sem recursos do Governo, como Mozart e outros grandes nomes da música clássica mundial tiveram, e sem a arrogância que os anos de especializações somam à personalidade criativa de qualquer pessoa, Cartola era autêntico, original e popular.

O Brasil precisa de mais Cartolas. Principalmente, na publicidade.

Quando vejo publicitários propondo ideias com traços de cases gringos, fico desapontado. Quando me vejo pensando como os gringos, double disappointment.

Queria ver mais molejo na propaganda. Mais paisagens brasileiras nos filmes de tevê, mais ziringuidu nas experiências sociais, mais verde e amarelo na alma da nossa criação.

Não estou falando pra propor letra de samba em todo job. Nada contra jingles, meu ponto é que o publicitário brasileiro precisa se esforçar mais para ser brasileiro. Ou, melhor, se esforçar menos para tentar não ser.

Afinal, Mozart criava para a classe alta da Europa. Você, meu amigo, cria para as massas. E entre pegar o pandeiro para arriscar umas batidas e estudar anos de piano, melhor deixar sua criação correr solta pelas nossas ladeiras.