2014: o ano em que tudo virou sinônimo de inveja

Na troca de insultos da internet, os argumentos e qualquer possibilidade de discussão foram reduzidos a termos como “inveja” ou “recalque”. É ridículo pensar que justamente na era em que estamos mais conectados e, supostamente, informados, as discussões terminem de uma forma tão simplista.

Freud explica: considerado um dos conceitos fundamentais da psicanálise, o recalque age como um mecanismo de defesa. Para ele, em alguns casos, a crítica ou a agressão podem manifestar desejos e sentimentos reprimidos. Na engenharia, o termo é usado para justificar os danos causados a uma edificação pela movimentação ou adensamento do solo. A Torre de Pisa, na Itália, por exemplo, é recalcadíssima. É torta porque talvez ela queria ser o Coliseu, mas não conseguiu.

Na internet, longe de qualquer ligação com a engenharia e psicanálise – ou até com alguma racionalidade, é o que recalque e a inveja que motivam qualquer crítica. Geralmente por motivos banais. Hoje em dia, se você falar mal da Valesca Popozuda, na verdade, você quer é ter o popozão dela. Se falar mal daquele coleguinha que anda ostentando riqueza ou atributos físicos no Instagram, você queria mesmo é ter o estilo de vida dele. Ora, eu estou satisfeito com o tamanho da minha bunda e não gostaria de ser aquele cara que eu não gosto e que depende da aprovação (likes) de outras pessoas para viver. Minha vida ‘ruim’ é mais interessante do que isso. Ao meu ver, é ruim e ponto e se eu estiver sendo grosseiro, você pode me repreender da forma que achar melhor, mas com argumentos. Não diga que eu estou com inveja porque eu, definitivamente, não estou e tenho isso bem esclarecido.

Na internet, há os que se dispõem a passar o dia inteiro defendendo algum “ídolo” e até criando perfis falsos para achincalhar quem ousar falar mal deles. Para eles, isso é o quê? Inveja, claro. Com tantas coisas que quero ser/fazer, eu vou me espelhar justo naquilo que considero ruim? Não. Eu queria ser um décimo do que o Ricardo Boechat, a Mônica Bergamo, a Eliane Brum e o Caco Barcellos são. Vou falar mal deles? Claro que não.

Talvez a inveja e o recalque sejam, de fato, mecanismos de defesa pois esses adjetivos estão ali, na ponta da língua, prontos para serem usados caso alguém fale algo que confronte suas idéias. E isso fica insuportável quando envolve assuntos políticos-partidários, religiosos, futebolísticos, ideológicos ou fãs de qualquer artista. Aliás, qualquer fanatismo é insuportável.

A inveja existe, é um sentimento – e um pecado – natural e até permissível. Existe até a tal da “inveja branca”, que é boa, não é? Um bom exemplo disso são as pessoas que se catapultam para a vida ao ver que outras alcançaram seus objetivos. No entanto, há também aqueles que passam os dias maldizendo tudo e todos e se tornam um peso. E também há aquelas pessoas que sentem a necessidade de rebaixar ao máximo quem estiver por perto para se sentirem por cima, bonitos, ricos e vitoriosos. Estes, na minha opinião, são os piores porque, curiosamente, os mais invejosos são os que mais se dizem invejados. Acalmem-se, caras, vocês não são essa Coca-Cola toda. Vocês não conseguem administrar a admiração que sentem por algo ou alguém e transformam isso em raiva, arrogância e agressões gratuitas.

Talvez isso seja falta de conhecimento de outros xingamentos, de algo mais significativo em suas vidas ou de louça para lavar mesmo. Estamos indo na contramão do que a internet pode nos proporcionar: num espaço tão rico de informações, referências e opiniões, estamos subestimando a nossa própria capacidade de comunicação, raciocínio e relacionamento economizando tempo e neurônios para apontar a inveja do outro. E ninguém é tão incapaz assim.

Para constar: eu não ousaria falar mal da Valesca Popozuda porque, inclusive, sou fã. Keep calm e deixa de recalque.