Viajar: ainda uma opção

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De crise são os tempos em que vivemos. É fácil identificá-la nos noticiários. Ainda assim, viajar permanece uma boa maneira de investir. Especialistas indicam que é preciso desconstruir a ideia de que viajar custa caro e que é dádiva para poucos. Como? Aproveitando movimentos que estão extravasando os limites da web e a facilidade da troca da informações via Internet.

O que é fala a reportagem!

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Na hora de escolher o destino e métodos, algumas opções influenciam mais que outras. Por exemplo: o destino e o nível de conforto esperado são relevantes nesse sentido. É bem sabido que mochileiros, por exemplo, percorrem a América do Sul e Europa com gastos mínimos. Pra quem opta por esse tipo de empreendimento, conforto não é a palavra de ordem. O que vale é a experiência.

O fato é que essa primeira metade de década não vem sendo favorável economicamente para as macroeconomias e os reflexos são sentidos no dia a dia das pessoas comuns, dado o ecossistema globalizado em que estamos inseridos. Gastar menos e gastar melhor são motes que o cidadão do século precisar se lembrar constantemente.

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Foto Eloni

Viajar, curtir coisas diferentes, conhecer o mundo… com alguns cuidados e dicas você poderá aproveitar ainda mais os seus passeios. Para isso, planejamento tanto financeiro como do roteiro ajudam a economizar. Mas como fazer isso em um cenário econômico instável e em crise?
O economista e professor da Univates, Eloni José Salvi, ajuda a entender um pouco o cenário econômico atual para quem quer viajar. “Atualmente temos custos mais elevados do que do ano passado para trás, pois a mudança no câmbio elevou muito o custo das viagens. No entanto, quando as empresas aéreas, os hotéis, os atrativos, vendem um pouco menos, normalmente fazer promoções, que acabam compensando parte do custo mais elevado. Viajar é sempre uma atividade custosa, e devemos fazer caber em nosso bolso”, comenta.
Para quem sonha em viajar e não tem recursos para isso, o primeiro passo é economizar. “Vá economizando recursos para isto, nem que seja pouco dinheiro, pois, com o tempo, terás dinheiro suficiente para fazer uma boa viagem. Voltar de uma viagem e estar devendo muito dinheiro estraga sua viagem; prefira atrasar sua viagem e pagar antes de viajar”, fala Salvi. Outra dica interessante do especialista em finanças é “compre o máximo de produtos à vista, e o que pagarias de juros guarde para viajar. Outra dica é economizar nos gastos do dia a dia, como não desperdiçar energia, água, e comida. No fim de um ano pode sobrar para uma boa viagem”.
Uma alternativa que ele utiliza e rende muitas economias, é: não viajar em grupos grandes, montar os próprios roteiros e fazer uma lista de locais que se deseja ver, sem reservar com antecedência, tornando flexível a viagem. Conforme Salvi, quem não é muito exigente em hospedagem e alimentação, pode fazer viagens realmente bem em conta. Mas, quem não gosta disto e daquilo em comida, fazer viagem é sempre um tormento. Por isso ele destaca uma dica geral, que pode até servir como regra: “tenha espírito leve, respeite o local e as pessoas que estás visitando, e não se chateie por qualquer coisa; isto tornará qualquer viagem memorável”.

Vídeo Eloni

Nesse contexto surgem movimentos interessantes. O discurso sustentável, que evita grandes gastos com aquisições em tempos delicados (isso vale pra mim e pra você) e, de quebra, promove o consumo consciente, parece realmente ter tomado lugar na cabeça das pessoas. A iniciativa privada e o Estado investem pesado em ações sustentáveis e, agora, colaborativas. O sustentável e colaborativo conquistam cada vez mais espaço desde a virada do século.

E o colaborativismo é uma das grandes apostas daqueles que gostam de viajar. Vivemos em sociedades abertas a iniciativas como o crowdsourcing, o crowdfunding e a atuação colaborativa e compartilhada.

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O primeiro sol de 2015 ainda nem havia iluminado as ruas de Cruzeiro do Sul. Ás 5h, um grupo de amigos partia para uma experiência memorável pela América do Sul. Rodrigo Kronbauer e mais 14 amigos começavam a realizar um sonho da adolescência.
Aos 15 anos, Kronbauer relata que durante uma aula de geografia sobre a Patagônia, na Argentina, um amigo sugeriu de ir para o lugar com uma Kombi. A viagem foi realizada em 2013, mas desta vez o caminho foi mais longo.
O grupo percorreu cerca de 13 mil quilômetros e cinco países. A viagem foi planejada durante dois anos, mas poucas coisas saíram como previsto. “Além da amizade, o que mais fica da viagem foi o aprendizado.”
A falta de experiência com viagens internacionais pesou no bolso. “Mesmo assim os 20 dias foram incríveis”, define.
A corrupção permeia a polícia, principalmente no Paraguai. Rodrigo fala que em um dia somente, tiveram de pagar mais de U$ 250,00 em propina. “Isso acaba afugentando turistas. Eu não volto mais para lá.”

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Caminho, corrupção e problemas
Cruzeiro do Sul foi o ponto de partida em 1º de janeiro. Sete pessoas viajaram em uma Kombi 1975, enquanto o restante se dividia em dois automóveis Ecosport. Foi no primeiro destino que aconteceu o primeiro problema. Ao ingressar na Argentina o grupo não formalizou a entrada. No momento de sair, a fiscalização exigiu o documento. Como não tinham, cada um pagou uma multa internacional de U$ 19,00 e de quebra foram ameaçados de serem presos, por estarem ilegais no país.
Ao serem liberados, voltaram ao Brasil e ingressaram no Paraguai, desta vez com o registro. Mesmo assim, foi lá que aconteceram os maiores problemas.
A estada no Paraguai foi curta e cara. Foi então que decidiram voltar para Argentina e onde o caminho foi mais tranquilo. Para Kronbauer foi como cruzar um deserto muito quente até chegar a Bolívia.
Três menores estavam a bordo, sendo que um menino de 13 anos estava com a mãe e o padrasto. Na terra de Evo Morales foi exigido a autorização de ambos os pais, pois a situação se configurava em sequestro internacional de criança. Mais propina.
Ainda na Bolívia foi exigido um seguro especial para Kombi por ser um veículo antigo. Como o país não pertence ao Mercosul, os viajantes conseguiram uma autorização ilegal pagando algo em torno de U$ 200,00, que é o dobro do valor normal.
A subida da Cordilheira dos Andes foi difícil. A Kombi em alguns momentos subia a 30km/h. Isso fez com que o planejamento fosse descartado. Enquanto o grupo imaginava percorrer 400 km em um dia, na prática andavam 100 km.
O combustível saiu mais caro do que o estimado. Um dos veículos era a gás. O problema é que a entrada de gás do Brasil é a única diferente de toda América. Isso fez com que o carro usasse gasolina. Outra dificuldade foi que, acima de uma determinada altitude, o veículo tinha problemas. Isso fez com que a Kombi rebocasse a Ecosport em alguns momentos.
Para os viajantes o Peru foi mais fácil. Lá puderam aproveitar a viagem como turistas normais, conhecendo o lago Titicaca e a antiga cidade perdida do povo Inca Machu Picchu.
Na volta mais problemas, desta vez no Brasil. Depois do Peru, o grupo ingressou no Brasil pela fronteira com a Bolívia. No caminho de casa uma das Ecosports atropelou um viado na rodovia. Ninguém se machucou, mas a volta teve de ser adiantada para esta família, que voltou de avião para o Vale do Taquari.
Foram 20 dias de viagem, sendo 16 de ida e 4 para volta. Apenas três noites foram em hotéis. O restante em barracas. Rodrigo Kronbauer conta a experiência mais difícil quando pensaram em desistir (veja o vídeo). Os viajantes criaram o blog América de Kombi com informações sobre suas aventuras. http://americadekombi.blogspot.com.br/

Vídeo Rodrigo

A Internet também é uma ferramenta excepcional. São inúmeros os espaços de troca de experiências entre internautas. A rede também possibilita todo tipo de compra e reserva de passagens, estadia e elaboração de roteiros de passeio por meio de milhares de domínios ao redor do mundo. É possível fazer tudo online, graças aos smartphones e a infindáveis opções de aplicativos para os fins mais variados quando a pauta é viajar.
Ainda, a Internet é a vitrine do colaborativismo. Como um exemplo, é na web que o couch surfing surgiu e se consolidou. A proposta é simples: usuários se cadastram e podem oferecer e encontrar acomodações ao redor do mundo por preços baixos. Empresas e incubadoras tecnológicas apostam em desenvolvedores com ideias inovadoras em um ramo bastante lucrativo: o turismo.

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“Nossa ideia desde sempre foi fazer um mochilão, montamos o roteiro sozinhos. Sentamos, abrimos o google maps e começamos a analisar possíveis lugares interessantes de se conhecer. Ao encontrarmos uma cidade que nos agradava, buscávamos informações acerca dela por meio da internet e de blogs de pessoas que já haviam a visitado. Com isso, criamos um “pré-roteiro”. Tal roteiro nos guiou praticamente durante toda a viagem, porém, como de fato não conhecíamos os lugares, fomos o reformulando com o passar da viagem”, conta o jovem advogado, Arthur Lang (24), sobre a sua viagem a Europa.
Junto com o primo Tiago Dartora, eles visitaram sete países: Alemanha, Áustria, Liechtenstein, Suíça, França, Bélgica e o Reino dos Países Baixos. Todos os lugares eram novidades para dupla. A estada de 25 dias teve início em 12 de setembro e durou até o dia 5 de outubro. A viagem de avião teve como primeiro destino: Frankfurt, na Alemanha, porém houve uma escala em Lisboa (Portugal), totalizando 13 horas de viagem.
Os primos buscaram formas alternativas de viajar e economizar. “Inicialmente fomos para lá com a ideia de que o transporte ferroviário era baratíssimo, porém, não é. Descobrimos lá, através de uma dica de uma amiga minha, que o transporte rodoviário é muito mais barato. Acabamos por nos locomover entre as cidades e, até de um país para outro, via ônibus. A diferença de tempo é muito pequena (não passa de 30 min) e se gasta com a passagem em torno de 1/5 do que se gastaria comprando uma passagem de trem!”, conta Arthur.
O jovem advogado comenta que a empreitada foi fantástica. “O que mais marca em uma viagem dessas é a própria experiência que se adquire. Como fomos de mochilão, tivemos alguns dias que de fato nos ‘apertamos’, outros, dormimos mal (albergues muitas vezes não são a melhor opção para se economizar dinheiro hehehe), nos perdemos duas vezes pelo caminho e nem sempre comemos bem. Mas a experiência de aprendermos a resolver as situações com pouco recurso foi fantástica. De fato, se aprende a ter muita calma nas piores situações possíveis e sempre há soluções práticas para os piores pepinos que um mochilão possa proporcionar (risos)”.
Como dica para quem quer viajar, Arthur destaca que, mesmo sendo bem pessoal as escolhas e gostos de cada um, para quem é como ele “natureba” e quer conhecer lugares no meio do nada com vistas fabulosas indicaria ir para a Áustria e para Liechtenstein. “Se o futuro viajante for do mesmo estilo, esses são dois países com vistas e paisagens fantásticas! O maior problema é que Liechtenstein é caríssimo. Recomendaria, então, Áustria. Já, se o viajante for mais civilizado e não se interessar tanto por mato (risos), recomendaria a França (Paris) e a Alemanha. São países extremamente desenvolvidos e possuem de tudo. Realmente vale a pena conhecê-los”.
Para quem não quer gastar muito nesses países, Arthur comenta que sempre há alternativas para economizar na viagem, mesmo com a desvalorização da nossa moeda (o Real). “Quanto ao transporte, recomendaria que fosse feito de ônibus (isso para viajar de uma cidade/país a outro); comida, desde que a pessoa não se importe de comer ‘porcarias’, há sempre hambúrgueres do McDonnalds, Burguer King, etc. pelo preço de ¢1,00 (Pratos de restaurantes são caríssimos). Outra opção muito boa são supermercados, muitos vendem comida pronta e na maioria das vezes é muito boa; já, quanto a hotéis, consegue-se ótimos com um belo preço através de sites. Nós, por exemplo, utilizamos o programa Booking”, recomenda.
Ainda sobre a viagem o jovem diz que “para mim o melhor foi às paisagens que tivemos o privilégio de conhecer. A Áustria é fantástica, realmente vale muito a pena conhecer. Tirando isso, sempre é bom conhecer a cultura das pessoas. É uma baita experiência”.
Seus planos futuros é conhecer Machu Picchu e fazer a tão famosa caminhada espiritual inca de quatro dias.

Galeria Arthur

Se antigamente viajar exigia muito planejamento, planejar hoje ainda é essencial. O que muda é a quantidade de recursos e ferramentas à disposição, que tornam o processo mais prático e consideravelmente mais barato àqueles propensos a analisar o maior número de opções. É por razões como essa que viajar ainda é uma ideia atrativa, um desafio que empolga e uma atitude que acrescenta muito ao ser humano.

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