A Fenda

-Não tem um incidente em meses, tá até um pouco sem graça…

Eu falei comigo mesma enquanto verificava a torre de informações do servidor que armazenava os dados de segurança, a base estava num momento tão bom, que ninguém mais se preocupava. A fenda estava sob controle e as criaturas saiam de lá direto para os laboratórios para serem examinadas e catalogadas. Pessoas como eu, treinadas para combate, foram remanejadas para trabalhos de escritório ou dispensadas, porque mesmo com um ou outro incidente mensal não era mais necessária tanta gente pra defender o local. A força tarefa veio quando a fenda foi descoberta; a coisa vomitava criaturas pra todos os lados, era enorme e ninguém sabia o que causou tamanha distorção pra que ela se abrisse. Chamaram os melhores e mais bem treinados batalhões de todos os cantos do mundo. Muitos de nós éramos soldados em zonas de vida selvagem, florestas e savanas, porque era o mais próximo de “pessoas com treinamento pra exterminar monstros” que os cientistas iriam encontrar. Ficamos protegendo o local até que a base fosse construída e que os cientistas conseguissem medir e acompanhar as distorções que precediam a aparição de um monstro. Mas estava tudo bem agora, ninguém tinha medo e o alarme de segurança poderia até enferrujar a qualquer momento.

Foi quando eu ouvi um estouro alto, o barulho de metal se retorcendo e todas as torres de informação começaram a cair a minha volta.

As pernas finas e peludas de algo insetóide passaram pela minha cabeça, mas eu não consegui ver o resto do corpo da coisa, um terminal de metal caiu em cima de mim e pendeu minhas pernas. Era uma bela hora pra não ter nenhuma arma decente. Os gritos de desespero, a convocação do pequeno batalhão disponível… “outra fenda rompeu! Corram” o áudio estourava enquanto o chefe da segurança gritava em desespero.

Eu via só a sombra projetada da coisa, o corpo alongado e cheio de pernas e algo que pareciam tentáculos se projetavam da cabeça ou da boca; pra completar o pesadelo tinha pinças e estava atacando alguém no chão, provavelmente alguns dos poucos soldados da base que respondiam com saraivadas de tiros. A minha atenção voltou pra minha perna, que começava a ficar dormente. Se eu não saísse logo ia perdê-la ou no mínimo sentir muita dor quando eu conseguisse levantar o pesado terminal de metal.

Um guincho ensurdecedor vindo do meu lado esquerdo e o som de patas batendo rápido no chão me alarmou. Era outra criatura, bem menor que a primeira, e que provavelmente escapou pela nova fenda. Os tentáculos iam me alcançar rapidamente e o ar começava a arder minhas narinas com o cheiro ácido, provavelmente era isso que estava respingando pra todo lado enquanto o bicho corria ensandecido pro meu lado. Eu só tinha uma faca e uma pistola, não ia nem fazer cócegas na carapaça dura e resistente que os bichos normalmente tinham… no outro dia era minha folga, péssimo dia pra morrer.


N.A é só um rascunho, eu ia fazer ela lutar, mas aí ia demorar demais e eu ia perder o fluxo da inspiração. Eu sonhei com algo assim e achei legal tentar escrever.