A implosão da vida adulta

e seu rastro de destruição

ilustra Henn Kim

Ninguém contou sobre a vida adulta e a vontade de parar. Até aqui, tudo que a gente quis foi ser adulto da forma certa. Um trabalho minimamente decente, uma casa minimamente decente, um amor minimamente decente, um vinho ou outro minimamente decentes. Até aqui a gente veio tomando uma decisão depois da outra, com a ansiedade de crescer ligada no turbo, em velocidade máxima, atrás de uns objetivos pré-moldados por quem quer que esteve à sua volta. Até aqui a gente achou que bastava engatar a marcha e partir que, uma hora ou outra, a gente chegaria na felicidade prometida. Só que, de repente, a gente quer pisar no freio.

Não. A gente quer puxar o freio. De mão. Foda-se que estávamos em alta velocidade. Foda-se que vamos derrapar. Foda-se que vamos capotar. Foda-se quem está vindo atrás. Foda-se quem está no banco do carona. A gente só quer que isso tudo pare — sem nem saber o que estamos chamando de “isso tudo”. E aí tudo para mesmo. Porque a gente forçou. Porque assim a gente quis.

Você já viu o que acontece com o corpo em alta velocidade que para de repente? É uma questão de física. Quando o corpo para, tudo dentro da gente é sacudido violentamente, impiedosamente. Tudo que vinha guardado e organizado é atirado com força contra as paredes, por todas as partes.

A gente implode.

Quebra por inteiro. Tenta desesperadamente catar os pedaços de nós mesmos que ainda parecem ter salvação, mas aceita que algumas dessas partes jamais se encaixarão de novo.

A gente passa um batom vermelho, penteia o cabelo, coloca uma camisa nova e reza para que ninguém veja nossas certezas evaporando, nossos planos virando cinza. A gente levanta e vai trabalhar, vai tomar uma cerveja, e ninguém vê que por dentro estamos correndo em círculos, tentando segurar uma ou duas paredes no lugar, sem saber o que fazer com essa destruição toda. A gente queria que tudo isso (tudo isso o quê?) parasse e só conseguiu causar um movimento descontrolado de uma dor fora do alcance dos outros. Fora do alcance do outro. E só te sobra ir embora.

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Como está tudo por aí?

Achou os pedaços de si que você dizia estar faltando ou nem lembrou de procurar? Você diz que foi atrás de si mesma. Qual a diferença dos espelhos daí? Enquanto você senta no meio do seu caos, admirando os escombros de si mesma e aceitando que você é isso por enquanto, o que resta a mim? Eu que já tinha toda sua planta mapeada, que conhecia seus cantos escondidos, sua gavetas secretas. Nessa a bagunça que você fez, o que mais você perdeu além do amor que tinha me prometido?

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sobre mim

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Escrevo aqui sobre comida. Edito e escrevo aqui sobre todo o resto.