A perversão da selfie não selfie

Está cheio de textão por aí berrando aos quatro ventos para que não acreditemos na felicidade compartilhada nas redes sociais. “Ninguém é tão feliz assim”, dizem o que eu já sei, e você também. Tudo bem. Eu entendo que repetir para nós mesmos que a vida do outro não é tão perfeita quanto parece é uma estratégia de proteção. É o que precisamos fazer para não achar nosso dia a dia sem graça, para não pensar que o mundo inteiro goza dos prazeres da vida à cada esquina enquanto estamos em casa comendo lasanha congelada e assistindo pela 10a vez o mesmo episódio de Friends.

Mas nada disso me surpreende. Há centenas de anos a gente usa fotos nossas para exibir pro mundo (em diferentes escalas) o quanto nossa vida é maneirona. Então, deixa a felicidade dozotro pra lá e vem comigo discutir algo muito mais intrigante.

Que mania é essa que as pessoas têm em postar fotos de si que parecem tiradas de forma espontânea por outro? O que leva alguém a te entregar uma câmera e dizer: “tira uma foto minha de costas aproveitando o momento”? Que tipo de perversão faz com que você eleja um fotógrafo para se comportar como um falso admirador, que não aguentou te ver mexendo nos cabelos ou dançando e teve que registrar o momento? Isso só pode ser um fetiche.

A verdade é que gente posta foto nossa, sendo linda e maquiada, pra que nossos amigos (e talvez uma meia dúzia de desconhecidos) cliquem no botãozinho como se dissessem: “considere-se admirado”. Legal. É legal ser admirado e é isso que a gente quer, uma massagenzinha no ego não faz mal a ninguém. Mas os likes não bastam? Ou você acha que é pedante demais dizer “olha pra mim que hoje eu estou me achando bonita” e prefere criar uma falsa narrativa na qual você é o personagem observado?

É como pedir para alguém dizer a um terceiro o quanto você é incrível e ficar feliz com o elogio recebido. É como se você redigisse sua biografia não autorizada e mandasse alguém assinar.

É como falar de si mesmo na terceira pessoa. E todo mundo sabe o quanto isso é insuportável.

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Originally published at shecallsmemary.com on April 6, 2015.

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