Dossiê Gekigá: 50 anos de Golgo 13

Em algum momento do final de novembro do longínquo ano de 1968, na edição da (então mensal, hoje quinzenal) revista Big Comic referente a daquele mesmo mês daquele mesmo ano, surgia o mais novo trabalho de um artista em ascenção na época. Seu nome era Takao Saito e mal sabia ele que estava começando a desenhar e escrever o personagem que se tornaria um dos maiores ícones dos quadrinhos no mundo todo: o Golgo 13!

No momento da publicação deste texto, estamos no mês de aniversário de 50 anos de publicação da série, que ainda está em serialização, e essa longevidade traz à tona algumas conquistas dignas de aplausos, que a maioria dos artistas de quadrinhos no mundo inteiro sequer conseguiriam sonhar em alcançar:

  • Atualmente a série ainda está em publicação e já conta com 191 volumes de mais ou menos umas 200 páginas cada. O que dá uma quantidade assustadora de pelo menos mais de 38 mil páginas desenhadas APENAS desse mangá (lembrando que Saito possui outros trabalhos além do Golgo 13 e, um desses, quase tão longevo quanto, que seria o Onihei Hankachou, em publicação desde 1993 e que também já passou da casa dos 100 volumes)
  • O mangá já vendeu mais de 200 milhões de cópias apenas no Japão, sendo o quinto mangá mais vendido de todos os tempos, atrás apenas de, do quarto para o primeiro lugar, Detective Conan, Naruto, Dragon Ball e One Piece. Isto faz dele o mangá mais vendido de todos os tempos voltado para o público adulto.
  • É a segunda série de mangá mais longa da história, ficando atrás apenas de Kochikame, do Osamu Akimoto, que foi concluído em 2016 com 200 volumes após 40 anos de publicação initerruptos. (seria a terceira se contássemos todas as séries de Dokaben, de Shinji Mizushima, como uma só, porque elas somam 205 volumes, e a série foi concluída de uma vez por todas esse ano).
  • Posso estar enganado nessa, porém se eu não estiver cheguei perto, mas Golgo 13 também é não só o mangá mais antigo ainda em publicação como também é o quadrinho mais antigo em publicação ainda na mão do mesmo artista, hoje com quase 82 anos de idade e ainda na ativa.

Essas são só algumas das marcas absurdas que a série conseguiu, devem haver outras que não vem muito ao caso agora, mas a partir desses dados, dá pra concluir que dizer que o Golgo 13 é um dos maiores ícones culturais que essa mídia já deu origem não é nenhum exagero, e com certeza há algo que explique o porquê das histórias do personagem serem tão populares até hoje mesmo depois de meio século de existência.

O Homem por trás da lenda e uma breve história do “gekiga”

Sim, o Takao Saito é esse tiozinho aí que tem cara de que furaria uma bola que caiu no quintal dele.

Talvez seja interessante conhecer um pouco mais de quem é Takao Saito, porque o cara é praticamente um fóssil vivo. Saito nasceu em 1936, oito anos mais jovem que Osamu Tezuka, que imagino que dispense apresentações, mas vocês provavelmente já estão carecas de saber que ele é frequentemente considerado por muitos o patriarca do mangá moderno. Curiosamente, os anos 30 foram quando nasceram alguns dos maiores nomes da história dos quadrinhos japoneses, como Shotaro Ishinomori, Mitsuteru Yokoyama, Ikki Kajiwara, Sanpei Shirato, Yoshihiro Tatsumi, entre outros… Eu poderia falar o que cada um desses caras fez, mas eu gastaria alguns parágrafos nisso e não quero tomar muito tempo mais do que o necessário aqui.

O que quero dizer com isso é que, se Tezuka foi uma espécie de patriarca, esses caras nascidos uns anos depois foram praticamente uma nova geração de artistas que mudaram a cara da mídia a levando pra diversos outros caminhos dos mais variados possíveis. A principal contribuição de Saito para os mangás foi ele ter sido um dos principais precursores daquilo que alguns acadêmicos outrora chamaram mais frequentemente de “gekigá” (ou em termos mais práticos, o mangá pra adultos) e por ter ajudado a transformar isso de um movimento artístico que às vezes beirava o underground numa forma de entretenimento de massa que seria consumido por quase qualquer tipo de pessoa.

Saito começou sua carreira em 1955 com um humilde mangázinho de aluguel (até por volta do final dos anos 50 não era incomum mangás serem distribuídos assim antes de surgirem as revistas semanais/mensais e seus consequentes volumes encadernados) chamado “Kuuki Danshaku”. Por mais que o Golgo 13 seja disparado o trabalho mais conhecido dele, Saito ainda teve uma quantidade considerável de outros títulos publicados ao longo desses 63 anos na ativa junto de sua equipe, como “Barom-1” (mangá que inspiraria um tokusatsu de mesmo nome pouco tempo depois), Survival (série publicada na Shonen Sunday no final dos anos 70 sobre a jornada solitária de sobrevivência de um pobre garoto em busca de sua família num mundo pós-apocalíptico), “Japan Sinks” (adaptação de um clássico homônimo de ficção científica da literatura japonesa do século XX de autoria de Sakyo Komatsu), entre uma infinidade de outros.

Kuuki Danshaku (1955)

Assim como em vários lugares do mundo, no Japão quadrinhos já tiveram aquele estigma de “coisa feita majoritariamente pra crianças”. Uma quantidade considerável de títulos possuíam histórias e desenhos bem simples. Mangá ainda era uma coisa relativamente nova e quem tinha lá seus 30 ou 40 e poucos anos no meio dos anos 50 não tinha muito o hábito de ler esses quadrinhos, ao contrário da geração dos filhos destes, que eventualmente leriam e continuariam mantendo o passatempo conforme envelhecem, e pra não perder esses leitores, os artistas iam tentando fazer histórias com conteúdos e temas ou até uma arte mais rebuscada e complexa que interessassem ao público mais velho. Nisso começou a surgir a sementinha do que hoje conhecemos como “seinen manga” (e sua contraparte feminina, “josei manga”), e na época isso tinha um nome meio chique que se você já foi atrás de ler sobre história dos mangás, provavelmente já viu antes por aí, que é o “gekigá”.

Eu particularmente tenho minhas ressalvas e discordâncias com o termo e sua carga de significado, mas daqui a pouco eu falo um pouco melhor disso. Na tentativa de empurrar a mídia para novos horizontes e manter o público crescente interessado, houve o interesse de alguns artistas em fazer histórias que fossem atraentes ao público adulto e fossem mais complexas do que as que já eram de conhecimento popular, mas como mangá ainda era uma coisa meio vista “pra crianças”, foram tentar fazer de uma forma completamente diferente. Sabe aquele lance do nerdão estereotipado ocidental que ao alguém olhar pra estante dele e falar “pô, legal seus bonequinhos” e ele responde “bonequinhos não, action figures!”? É algo mais ou menos nessa linha, ao meu ver. Antes de prosseguir, proponho um rápido…

MOMENTO “RESMUNGO DISFARÇADO DE AULINHA DE JAPONÊS RÁPIDA”

Em japonês, o termo “manga” (漫画), numa tradução extremamente ao pé da letra e rudimentar isolando seus dois kanjis, pode ser entendido como “desenhos involuntários”, provavelmente se referindo a um entretenimento mais descontraído. Do outro lado dessa papagaiada, “gekiga” (劇画) pode ser entendido como “desenhos dramáticos”, e se você ainda botar isso no dicionário do JWPCE ele te dá o significado “comic strip with a dramatic story” (quadrinho com uma história dramática), pra vocês terem ideia. Esse “劇” (geki) significa “drama” no sentido mais teatral possível da coisa, podendo por vezes ser traduzido como “peça” (sim, peça de teatro).

E é aí que mora o meu problema com esse termo. Os caras queriam elevar a mídia segregando o que já havia sido feito? Eu entendo que o contexto da época acabou fazendo com que isso fosse necessário e que sem isso as coisas seriam bem diferentes hoje, mas não deixa de parecer muito esquisito uma mídia tentar imitar outra só pra “ser validada” como arte mais digna de ser chamada como tal, é tudo arte. Ao mesmo tempo em que isso parece tão estranho hoje, acho engraçado como que isso é um belo ilustrativo de como a percepção das pessoas quanto a certas coisas mudou e o quanto as coisas mudaram de fato por causa disso. Encerro por aqui essa breve reflexão e vamos voltar a onde eu estava…

FIM DO RESMUNGO RÁPIDO, ME DEIXA VOLTAR DE ONDE PARAMOS

… Bom, do quê que eu tava falando mesmo? Ah, sim, quadrinhos pra chamar a atenção de adultos que tinham medo de serem chamados de crian- tá bom, tá bom, já parei de resmungar.

“A Drifting Life”, de Yoshihiro Tatsumi (2008).

Nessa brincadeira de fazer histórias que atraíssem um público mais adulto, alguns nomes foram muito importantes nessa equação. Takao Saito não estava sozinho nessa, por mais que fosse uma das principais vozes desse movimento, ele estava acompanhado de gente como Yoshihiro Tatsumi (conhecido aqui no ocidente por seu autobiográfico“A Drifting Life”, chamado em japonês, veja só vocês, de “Gekiga Hyoryuu”), Yoshiharu Tsuge (um dos primeiros nomes que vem à cabeça quando se lembra de “mangá adulto underground”), o já citado Sanpei Shirato (famoso por “Kamui Den”, mais conhecido como “A Lenda de Kamui” em território Brasileiro), Shigeru Mizuki (conhecido pelo seu “Gegege no Kitaro”), Kazuo Koike (roteirista de “Lobo Solitário”) e diversos outros…

Nessa brincadeira surgiriam antologias voltadas pra material alternativo/experimental/underground como a famosa “GARO” ou a “COM”, encabeçada por Osamu Tezuka, mostrando assim que até a geração anterior de artistas tava de olho no que os novatos estavam fazendo e correndo atrás pra não comer poeira e se manterem reinventados artisticamente.

Equipe original da Saito-Pro recém fundada, em 1960

Os anos 60 foram a época em que os mangás se reinventaram quase por completo por causa desse movimento que era, em parte, um ode ao experimentalismo e Saito estava a todo vapor, assim como seus colegas, fazendo de tudo um pouco pra se reinventar e elevar seu trabalho a um nível que o deixasse satisfeito. Sua missão era tentar traduzir os visuais mais realistas que via no cinema para o mundo dos seus quadrinhos e se baseando nesse pensamento, tanto que curiosamente, até hoje sua linha de trabalho funciona mais ou menos dessa forma, onde ele trabalha com toda uma equipe onde ele é o “diretor de cinema” pra produção do fil- digo, mangá. Nisso, em 1960, era fundada a Saito Pro, a equipe oficial de Saito e seus colegas e daí pra frente, a carreira dele deu uns saltos interessantes…

Em 1963, Saito recebeu uma missão que acabaria se tornando um ponto de virada na sua carreira: sob autorização oficial após terem conseguido a licença, fazer uma adaptação de histórias do James Bond, o famoso Agente 007.

O James Bond de Takao Saito

Imagino que o agente secreto mais famoso do mundo dispense apresentações, mas é importante ressaltar que a década de 60 foi fortíssima para o personagem originalmente criado por Ian Fleming, que estava finalmente recebendo adaptações cinematográficas, na época interpretado por Sean Connery. A série foi publicada na revista juvenil Boys Life até 1967 enquanto Saito fazia uma cacetada de coisas simultaneamente e adaptou 4 dos livros originais de Fleming, sendo eles: Live and Let Die (“Com 007 Viva e deixe morrer”, no Brasil, e que só iria virar filme em 1973), Thunderball (“007 contra a chantagem atômica”, que virou filme em 1965), “On her Majesty’s Secret Service” (“007- A serviço secreto de sua majestada”, que virou filme em 1969) e The Man with the Golden Gun (“007 contra o homem da pistola de ouro”, que viraria filme em 1974).

É curioso que nenhuma delas ainda tinha virado filme, e quando esse mangá começou a sair, já existiam pelo menos dois filmes do personagem nos cinemas, fazendo um sucesso absurdo pelo mundo, Japão incluso. Na verdade, a única das histórias que recebeu uma versão cinematográfica quando o mangá já existia foi Thunderball, que teve sua publicação de setembro de 1965 até março do ano seguinte, o que significa que o filme estreou enquanto o mangá estava sendo publicado. Aliás, vocês sabiam que Thunderball estreou no Japão antes de qualquer outro lugar do mundo, com 12 dias de diferença da estreia em Londres, que era a tradição dos 3 filmes anteriores? E mais, o filme ainda foi recebido com um sucesso tão histérico na terra do sol nascente que isso impulsionou os caras a gravarem “You Only Live Twice” logo em seguida, já que a história se passaria no Japão (ao invés de “On Her Majesty’s Secret Service”, que era o plano original antes da estreia nipônica de Thunderball)

O Pôster japonês de Thunderball e uma das capas do mangá na Boys Life, lado a lado. O filme foi lançado como “007- Operação Thunderball” no Japão.

A versão mangá (ou melhor gekig- ah, vocês entenderam) de Bond era um sucesso, não só por estar atrelada a uma franquia conhecidíssima, como também por Saito estar pouco a pouco se tornando um artista mais popular, aplicando as técnicas que havia estudado quando quis entrar nessa história de “fazer mangás mais sérios”. O porém é que a adaptação de Saito tomava algumas liberdades radicais em cima do material antigo, o que transformava elas quase em histórias originais do 007 apesar das similaridades, e nem a imensa popularidade do personagem no Japão impediu que a Glidrose Publications, detentora dos direitos do personagem de Ian Fleming, pedisse o cancelamento da série após a conclusão da quarta história.

Apesar do triste cancelamento, esse mangá foi uma das coisas mais importantes da carreira do cara e serviu de laboratório para aquele que viria a ser seu trabalho mais conhecido e eternizaria seu nome na história dos quadrinhos pelas décadas seguintes…

Enfim, a chegada de Duke Togo, o famoso Golgo 13

E então, naquele finalzinho de 1968, finalmente chegamos nele… o imponente Duke Togo, mais frequentemente atendendo à alcunha de GOLGO 13!

Operação Big Safe (Novembro de 1968)

Num primeiro capítulo entitulado “Big Safe Sakusen” (Operação Big Safe), somos apresentado ao personagem… um pouco diferente da forma como nós conhecemos, vale dizer, mas o básico que o compunha, já estava lá desde o começo. Frio, metódico, selvagem, indomável, desconfiado, extremamente calculista e um tanto estóico. A primeira missão do matador de aluguel mais famoso dos quadrinhos, por mais que ainda estivesse longe de ter o mesmo refinamento que futuras histórias do personagem, já tinha lá seu charme e serviu pra ser uma introdução bacana ao personagem e o que ele representa.

Ninguém sabe seu nome verdadeiro, sua nacionalidade (por mais que estima-se que tenha alguma descendência asiática por causa de sua aparência), sua verdadeira idade, o que faz em sua vida privada, seus hobbies, NADA. Golgo é um mistério e apenas uma coisa as pessoas tem certeza que sabem sobre ele: quando ele entra em cena, ele vai terminar o serviço pelo qual foi contratado, de alguma forma ou de outra. Ele é o assasssino perfeito, infalível. Mesmo que encontre complicações em seu caminho, nada vai impedir que ele acerte seu alvo.

Seu apelido provavelmente vem de ser uma referência às colinas de Gólgota, o lugar onde Jesus Cristo foi crucificado, enquanto o seu suposto décimo terceiro discípulo, que havia lhe traído, carregava a cruz com uma coroa de espinhos na cabeça. Isso é dito em tom de suposição por um dos personagens no primeiríssimo capítulo, mas o icônico logo do mangá, um esqueleto virado de costas meio curvado e com uma coroa de espinhos na cabeça, confirma que a analogia foi feita corretamente.

o logo, carimbado a ferro quente na nossa mente ao longo das páginas do mangá

Talvez você esteja se perguntando qual a graça de acompanhar um personagem supostamente perfeito e que SEMPRE vai conseguir terminar o trabalho. Os capítulos do mangá seguem uma estrutura bem similar em sua grande maioria: Somos apresentados ao contexto do lugar onde acontecerá a missão, apresentados ao cliente do Golgo, e depois ao seu alvo. Coisas acontecem, Golgo mata o seu alvo e às vezes vemos alguma consequência disso. É essa receita de bolo que rege praticamente tudo que envolve esse personagem há meio século.

Mas tem variação? E é aí que se encontra o “tempero” da coisa toda. Golgo é um personagem ridiculamente versátil de se trabalhar com, apesar de não parecer, e os tipos de contexto que gerem uma história com ele envolvido são imensos, fora os elementos que podem ser usados numa história de ação como essa e que podem ser variados. Obviamente algumas histórias sairão bem parecidas, mas chega a ser engraçado que o simples contexto histórico-cultural da época de publicação de cada história pode variar a forma como ela é feita ou recebida, e isso inclusive já nos gerou a algumas várias histórias baseadas em inúmeros acontecimentos históricos reais. Golgo já foi enfiado em histórias ambientadas em contextos como crises trabalhistas da França dos anos 60, espionagem na guerra fria, queda do Muro de Berlim, o Apartheid na África do Sul, a corrida espacial dos anos 70, a morte da Princesa Diana em 1997 ou até mesmo os famosos ataques de 11 de Setembro de 2001 às Torres Gêmeas. Existem mais algumas dezenas, senão centenas, de histórias desse naipe ao longo da publicação da série, e isso acaba sendo até um elegante lembrete de que nesses 50 anos, muita coisa aconteceu no mundo, e continuará acontecendo, e o próprio autor atribui isso ao questionamento de como conseguiu levar esse personagem em suas mãos por tanto tempo sem perder a popularidade.

Saito é um cara ligado nas atualidades e ele e seu time fazem um trabalho ridiculamente minucioso de pesquisa para criar ambientes riquíssimos em detalhes e contexto pras missões de Golgo. Nesses quase 200 volumes de mangá, vimos o cara numa quantidade inimaginável de lugares dos mais diversos do mundo, onde vemos os mais variados tipos de pessoas, e a história costuma ser mais sobre essas pessoas, seus desejos, pensamentos e diferenças do que sobre Golgo. Não precisamos saber muito sobre ele, ele é uma lenda, um mito, uma força, e dar mais informação sobre ele seria quebrar isso. Golgo é apenas um catalisador pra vermos essas histórias e contextos tomarem uma forma maior.

E tudo isso que eu falei acaba tendo muito em comum com o já citado 007 (com as devidas diferenças causadas por um ser agente secreto e o outro um assassino de aluguel, obviamente). O mangá não esconde nem um pouco a influência direta que teve do agente britânico, nem na própria concepção do personagem, o tipo de situação onde ele vai parar e até mesmo em narrativa visual que o acompanha algumas horas.

Seria este o homem perfeito?

Tal qual seu colega britânico, Golgo também pode ser visto como a idealização do homem perfeito. Extremamente estóico, forte, habilidoso, sedutor, praticamente imune ao medo e sempre consegue o que quer, não importa como. Além de todas as habilidades descritas aí na imagem acima (que não são nem a ponta do iceberg do que esse cara é capaz de fazer), ele é considerado um dos maiores experts em línguas do mundo e já foi visto falando inglês, alemão, francês, húngaro, espanhol, polonês, russo, português, árabe, hindi, mandarim, malaio, cantonês, japonês, inuíte, italiano, hebraico e filipino, além de ter alguma familiaridade com línguas aborígenes. “Puta que pariu, esse maluco é inacreditável!” é uma expressão comum de alguns leitores vendo alguns de seus feitos nas páginas do mangá (eu incluso). Dá pra literalmente ficar falando de tudo que esse cara já fez de absurdo por algumas horas.

O impacto e o sucesso de Golgo

Golgo 13 virou um verdadeiro ícone dos mangás. É um daqueles personagens extremamente conhecidos, no ponto de se um cidadão japonês tem cara de carrancudo e/ou sobrancelhas grossas, ele muito provavelmente vai ser zoado pelos amigos ou colegas de trabalho o chamando como “Ô, Golgo, chega aí”.

Ainda que o mangá seja enorme, vender 200 milhões de cópias continua sendo um feito impressionante (mesmo comparado com algum mangá com menos da metade de seu tamanho que tenha vendido a mesma quantidade). Significa que talvez cada volume tenha vendido no mínimo um milhão de cópias. E ainda que esse número de 200 milhões de cópias esteja contando as reimpressões e republicações, significa que pessoas se deram o trabalho de comprar essas edições novas. Mesmo depois de 50 anos a série ainda continua bastante popular e o seu legado atravessa gerações de leitores e influenciou diversos artistas que talvez não eram nem mesmo nascidos quando começou a ser lançado, como isso é ao menos possível? Qual é a receita pra tamanho sucesso? Que bruxaria o Takao Saito fez pra esse mangá continuar sendo rentável mesmo depois de tanto tempo?

E pra tentar (ênfase em tentar) explicar isso, trago novamente o James Bond pra discussão. Não é exagero dizer que Golgo é praticamente o seu equivalente japonês. Tirando toda a questão (já abordada na sessão anterior do texto) de os dois personagens serem super fodões, viajarem lugares de todos os tipos, encararem todo tipo de situação e tudo mais, podemos dizer que o fato de os dois serem EXTREMAMENTE FÁCEIS de consumir ajuda bastante.

Existem quase 30 filmes do 007 lançados até hoje e você pode começar a ver por literalmente qualquer um que você vai ter ali uma história autocontida que não te exige nenhuma bagagem prévia pra conseguir aproveitar tudo do que tá sendo passado ali. Com o Golgo 13 é a mesma coisa: dos quase 200 volumes de mangá lançados até hoje, você pode pegar literalmente qualquer um aleatoriamente que você vai ter entretenimento ali. Ele te dá o básico e o resto do entretenimento já vai do seu gosto pessoal. Não há uma história contínua rolando, não há complicações maiores, você pode ler uma missão do Golgo em alguns minutinhos e está satisfeito, tal qual se você fosse ver um filme do 007 descompromissadamente.

O dia em que o Golgo foi mandado pro espaço durante a época da corrida espacial entre Estados Unidos e a então União Soviética pra derrubar um satélite na base da bala (da história “Orbital Hit”, publicada em 1978)

Ambos os personagens são bem populares com o público adulto. Às vezes o cidadão que teve um dia cheio só quer curtir uma historinha rápida sem maiores complicações e continuidade. Eu mesmo já li bastante Golgo 13 “pra descontrair” em momentos do tipo. Ele é direto e eficiente, e feito com muito cuidado. É entretenimento que funciona.

Agora pensando no contexto onde ele surgiu, onde a ideia do “mangá para adulto” ainda estava se consolidando, não é difícil concluir que o Golgo talvez estivesse no lugar certo na hora certa, o que ajudou muito que ele conquistasse rapidamente o seu lugar e ficar popular o bastante pra gerar outros interessados em fazer filmes, anime, merchandising, jogos de videogame e o que mais você imaginar relacionado ao personagem. Golgo 13 se tornou talvez o principal expoente do quadrinho mainstream japonês pra adultos, a ponto de que a partir de 2018 surgirá uma premiação chamada “Takao Saito Award” com o intuito de premiar os melhores artistas de mangá voltados para o público adulto, onde os vencedores receberão até mesmo um “Troféu Golgo 13” (eu realmente não tô brincando, esse é o nome da parada)! Se você pode se dar o luxo de inaugurar uma nova premiação de mídia com o seu nome e que usa um troféu com o nome do seu principal personagem e ninguém vai achar isso ruim ou prepotente, é porque tá podendo.

O que consumir?

Vendo todo esse material pode surgir a dúvida de por onde começar e bom, não tem mistério, você pode pegar literalmente qualquer volume ou capítulo do mangá e ler ou ver um filme ou o anime, mas aqui vou falar de algumas dessas versões e trabalhos relacionados. (eu originalmente queria fazer um “Best 13 of Golgo 13” aqui selecionando 13 histórias que eu gosto muito dele, mas não me sinto apto a tal tarefa, então vou ficar infelizmente devendo isso aí pra outra ocasião)

  • Mangá

Obviamente, né… Infelizmente não temos scan ou tradução de tudo que foi lançado do personagem até hoje (se você souber japonês, por outro lado, tem uma infinidade de coisa pra poder ler), mas algumas das coisas foram traduzidas então já dá pra curtir e sentir um gostinho do que é Golgo 13. Em alguns países ocidentais foram lançados alguns volumes compilando algumas histórias selecionadas a dedo (e parece que esse é o modelo de publicação em todos esses países). Temos edições dessas em Inglês, espanhol, francês, italiano e português. No Brasil tivemos 3 volumes lançados pela Editora JBC em meados de 2010, contendo seis histórias do personagem neles (algumas dessas ótimas), e esses mesmos 3 volumes são 3 dos que saíram nos Estados Unidos pela Viz Media, só que eles tiveram 10 volumes a mais que a gente, ou seja, se importar for o seu negócio, tá aí uma boa opção. Também tem scans em inglês de algumas histórias por aí, principalmente das primeiras e de outras meio aleatórias. Só procurar que dá pra achar.

  • Golgo 13: The Professional (1983)

Essa aqui foi a primeira vez que o personagem recebeu uma versão animada (mas foi a terceira vez que apareceu num filme, sendo que houveram dois filmes live-action antes). O filme foi dirigido pelo já falecido Osamu Dezaki, uma das maiores lendas da história da animação japonesa e traz um pouco do melhor que Golgo tem a oferecer, numa história inédita que nos brinda um ótimo filme de ação bastante divertido e com uma direção simplesmente primorosa, mostrando bem o que Dezaki era capaz de fazer em seus trabalhos. Muito bom tanto pra ser apresentado ao personagem quanto pros fãs de longa data. Recomendadíssimo.

  • Série animada pra TV (2008)

Essa aqui foi pra comemorar o aniversário de 40 anos e foi uma série de TV de 50 episódios onde cada um é adaptação de alguma história do mangá, ou seja, temos outro compilado de histórias selecionadas a dedo, trazendo um apanhadão de diversas épocas da série, desde histórias dos anos 60, 70, 80, 90 e até algumas mais recentes dos anos 2000. Ótimo trabalho de direção e animação aqui e muito bom pra assistir em doses descompromissadas bem do jeito que Golgo 13 deve ser.

Material extra recomendado:

Eu não quero fazer esse texto ficar gigantescamente longo (mais do que já está), então vou deixar aqui uma série de material extra pra complementar ou até cavar em mais detalhes algumas coisas que mencionei no texto (e boa parte serviu de material de pesquisa pra mim). Só clicar nos links junto dos nomes (e avisando que quase tudo está em inglês).

Eu particularmente gosto muito desse artigo. Foi escrito pelo Jason Thompson, que tinha essa coluna (que eu gostava bastante) no AnimeNewsNetwork, onde ele pegava algumas séries de mangá bem específicas e falava um pouco sobre elas de forma bem detalhada, e às vezes até contando algumas anedotas sobre seu trabalho de editor na Viz Media, onde trabalhou diretamente com a publicação americana de alguns desses mangás. E nisso ele meio que conta como foi a história por trás da publicação Norte-americana de Golgo 13, que foi uma série de 13 volumes com várias histórias escolhidas a dedo pelos caras revirando o acervo do que já existia do personagem até então. É bem legal.

Se você conhece mais mangás pra adultos, é altamente provável que já tenha uma noção de quem é Naoki Urasawa, mas caso não tenha associado o nome à pessoa, é o aclamadíssimo artista e roteirista por trás de Monster, 20th Century Boys, Pluto e diversos outros mangás. O “ManBen” nada mais é do que um programa de TV meio documentário onde acompanhamos Urasawa fazendo uma visita a vários artistas de mangá diferentes, onde ele conversa um pouco com eles sobre os seus trabalhos, discutem técnicas de fazer quadrinhos e mostram o dia-a-dia e a rotina de trabalho deles. Vários artistas consideravelmente populares e respeitados já passaram por esse programa e um deles foi o Takao Saito e nessa edição, acompanhamos de perto como é a produção do Golgo 13 (e do Onihei Hankachou) e o vemos falar um pouco de sua trajetória e vemos o velho contando altas histórias sobre seu trabalho e as coisas que pensa como artista. É interessantíssimo e traz várias informações bem legais.

Não há muito o que apresentar aqui, é uma entrevista de 2015 com o velho, onde ele fala sobre a sua relação com o seu trabalho e como ele enxerga o legado que criou e como isso fica pra posteridade. Eu só queria destacar aqui um trechinho só onde o Saito diz o seguinte:

“Uma das principais virtudes que tanto o Golgo quanto os trabalhadores comuns (“salarymen”) possuem em comum é que ambos são capazes de grande resistência. Até mesmo a natureza dessa resistência é a mesma. Ambos são pacientes. Golgo é puramente japonês”

Um gigantesco artigo extremamente fascinante sobre as raízes do movimento Gekiga, que mencionei no texto, só que com uma riqueza enorme de detalhes sobre a ativa participação de Saito no processo, mostrando como que o seu meio de fazer mangá era absurdamente diferente de muita coisa que se via até então e um pouco da história dos bastidores por trás da Saito Pro. É quase como um passeio num hipotético museu da história dos mangás.

Esse aqui é só uma notícia engraçada mesmo, mas acho legal citar. Kochikame, o famoso mangá de comédia que é praticamente uma versão japonesa de “Loucademia de Polícia”, foi finalizado em 2016 após literais 40 anos initerruptos de publicação semanal na Shonen Jump. Ele diz:

“Devo lhe dar os parabéns. Quando se serializa algo longo assim, não dá pra exatamente terminar porque não é nem seu mais. Kochikame era a cara da revista, então deve ter sido uma decisão difícil. Bate um sentimento estranho de solidão e até inveja.”

Eu particularmente discordo um pouco de Saito quando ele diz “não é seu mais”, mas consigo ver de onde ele parte com esse raciocínio, pois Kochikame também foi outro enorme ícone cultural dos mangás e atravessou gerações de leitores durante a sua longeva publicação. E essa notícia me leva a…

Notícia de 2015 onde Saito declara que o mangá possivelmente não irá demorar muito pra ser concluído, após completar a marca de 550 histórias lançadas naquela época. Saito fala novamente sobre “o mangá não ser mais seu de tanto tempo que já tá saindo” e revela que já sabe como fará o final e já tem até os enquadramentos montados na cabeça, mas manterá o mistério sobre a conclusão da série e dá a pista de que provavelmente deve terminar no volume 200. Aguardaremos ansiosos pela bombástica missão final de Duke Togo!

Esse é o mais absurdo de todos (infelizmente só em japonês, porém), mas trata-se de um humilde sitezinho onde um maluco resolveu dissecar TODAS as histórias do Golgo 13 que você imaginar (pelo menos até o volume 159) em detalhes, especificando quem era o contratante, o alvo, fazendo um resumo da história, dando uma classificação de uma a cinco estrelas pra história e chegando no ponto de contar quantas pessoas ele matou em cada uma e até mesmo quantos tiros disparou! Até a história de número 526, segundo a contagem do cara, Golgo disparou um total de 3196 tiros e matou cerca de 5595 pessoas. O cara matou mais gente do que atirou e matou o suficiente pra ser uma população de uma cidadezinha pequena! Puta que pariu! Eu não sei se fico mais impressionado com isso ou com o fato de alguém ter se prestado a esse trabalho fascinante. O conteúdo desse site é praticamente uma enciclopédia sobre o personagem.

Você achou demais a contagem anterior? Então se liga nessa: na edição americana dos volumes de Golgo 13 lançados lá haviam vários extras, pra tentar dar mais curiosidades e informações detalhadas sobre a série e o personagem, já que é totalmente inviável comercialmente lançar todos os volumes no ocidente, e no volume 6 dessa coleção o extra trata-se de um artigo ridiculamente detalhado sobre as aventuras sexuais do grande assassino em suas missões e com histórias de bastidores sobre a produção desses trechos. E a melhor parte de todas? Temos umas duas páginas recheadas de gráficos e tabelas com uma quantidade simplesmente ridícula de detalhes, fazendo contagem de quantas mulheres de quantas nacionalidades diferentes o Golgo já se envolveu sexualmente, qual a ocupação delas (se eram prostitutas, agentes, civis, celebridades, etc…), a etnia, a época em que isso aconteceu e até mesmo a relação das posições feitas! Agora eu estou mais impressionado ainda com alguém ter se dado o trabalho de fazer uma outra contagem dessas! (sério, se possível tentem ir atrás desses extras dos volumes da Viz, tem MUITA informação bem interessante neles e nos três últimos tem uma entrevista detalhadíssima com o Saito onde o homem fala de muita coisa)

Viva Golgo 13!