Estamos chegando ao intervalo

Mais uma festa à qual não queria ter ido. Pra começar, o lugar era abafado. A pista de dança estava uma desgraça. E eu ainda estava sozinho. Eu realmente não deveria ter aparecido.

O único motivo que eu tinha pra estar ali rodopiava e cantava com um cara sorridente. A única coisa que eu abraçava era outra lata de uma cerveja barata que só aguardava pra se juntar ao monte na minha mesa.

Acompanhava os dois em seus movimentos com a mais pura expressão de tédio que já dei na minha vida, enquanto, por dentro, só conseguia ouvir minha própria voz dizendo que eu era um imbecil por ter ido e um imbecil maior ainda por querer ir embora.

Eu estava pouco a pouco começando a ficar bêbado. De vez em quando, eu dava uma risada direcionada a lugar algum, mas meus olhos ainda estavam taciturnos. Estava começando a não me controlar mais naquela cadeira. Minha deixa chegou quando, finalmente, começou a tocar uma boa música. Nos primeiros acordes, já estava andando para o meio dos dançarinos desajeitados, acompanhando o ritmo da música com a cabeça enquanto estalava os dedos.

No meio do mar de pessoas, só fiquei lá, parado, dançando comigo mesmo. Meu Motivo de Estar Naquele Inferno também adorava a música, e dançava entusiasmada com Aquele Lá. A música entrava em seu ponto mais alto, e minha idiotice, provavelmente acompanhava.

Me aproximei da dupla, ainda acompanhando o ritmo mudamente. Porra, minha visão tava ficando borrada. Eu bebi tanto assim?

Eu não sei exatamente como, quando ou por que maldito motivo eu comecei a dançar, mas quando dei por mim, tinha uma garota qualquer tentando engolir o meu rosto. O tabaco dela fedia a hálito. Sério, me deu náuseas. Me desvencilhei dela e procurei a primeira cadeira vaga. Quase caí. Levei as mãos à testa e sequei o suor. Puta merda, eu sou um idiota. Senti uma ardência no estômago e logo corri pro lado de fora.

Sentado com as costas contra a parede fria, os pés na grama e a cabeça baixa, eu pensava… ou tentava não pensar. Do meu lado, o aroma fétido de sacos de lixo cobertos de vômito. Inspirei profundamente e tentei me levantar uma, duas vezes, algumas mais. Na quinta, quase consegui, e tive de ser segurado pra não cair. Ei! Boa noite, Motivo da Minha Decadência!… não, não. Ela não tem nada a ver com meu jeito idiota de lidar com as coisas. Como eu sou ridículo.

-Você é ridículo.

Não disse?

Ela me ajudou a andar até uma grade e ficou me encarando, com uma expressão preocupada. Por um tempo, isso foi tudo o que ocorreu. Ela me encarando, o som vazando pelas janelas do salão e eu querendo morrer. Ou voltar a beber. Eu ainda estava tonto à beça, e mal registrei quando ela pôs a cabeça no meu ombro e me abraçou de lado.

-Vou te levar em casa.

Com dificuldade, ela me arrastou até o estacionamento e me fez entrar no banco de trás, onde me joguei, quase deitado, de cabeça baixa. Não faço ideia de quanto tempo durou a viagem, mas não trocamos uma palavra e eu não arrisquei um olhar sequer para cima. Em algum momento, ela me ofereceu uma garrafa de água e me disse pra abrir a janela. A água não ajudou muito, mas deixar o vento correr pelo meu rosto teve um efeito milagroso. Eu já quase não me sentia tão mal. Consegui dormir um pouco depois de uns minutos com a cara na janela.

Estacionamos na entrada do meu condomínio. Quando acordei, a tontura voltou. Novamente, ela me ajudou a ficar de pé, e parou quando me apoiei no portão. Tentei agradecer, mas tudo que saiu da minha boca foi:

-Eu te amo.

Nossos olhares se encontraram por segundos e ela acariciou meu rosto.

-Boa noite.

Fiquei observando o carro dela sumir enquanto virava a esquina. Assim que consegui entrar em casa, meu celular vibrou. Com os dedos fracos e a cabeça girando, foi um porre abrir a mensagem. Só consegui depois de me jogar na cama, de roupa e tudo, obviamente.

“Da próxima vez, não faz isso. Eu não consigo te beijar nesse estado.”

“Origaddo.”

“Você deveria ter me chamado antes. Não precisaria ir com ele.”

“Voc^e nao axxeityaria.”

“Você realmente é ridículo.”

“Eussei.”’

“Eu te amo”.

Ela não respondeu mais. Provavelmente porque eu digitei algo ininteligível depois disso. Ou porque ela é muito mais madura do que eu. Antes de apagar, me esforcei pra digitar uma última mensagem corretamente.

“Ei, dança comigo amanhã.”

Ela não respondeu. Eu sorri, antes de fechar os olhos.

DANCE, Dance. Clipe da banda Fall Out Boy. 4'37". Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=C6MOKXm8x50>. Acesso em fevereiro de 2016.